sábado, 4 de fevereiro de 2012
domingo, 8 de janeiro de 2012
J Torres
quarta-feira, 25 de maio de 2011
rebocador de piratas 2
Rebocador de Piratas;
Uma Guilda chamada Embu
Um dia, depois de muito pensar,e muito mais quadros pintar,decidi que era minha obrigação contar a historia do baixo clero da cidade das Artes, o cotidiano dos artistas que serão esquecidos, pela historia, por homens, e pela cidade, eles acreditarão em um mito,o de serem artistas, uns românticos,e viveram esta sonho. Serem artista na cidade das artes, aqui chegaram com seus sonho,e coube a nós,dar-lhes um velório,aos homens, e seus sonhos,a todos estes homens acendemos uma vela,e jogamos terra sobre suas covas,A um deles, a seu pedido jogamos suas cinzas em rio da cidade.
Por eles, os sonhos,nossa carne vibra,viramos valentes heróis, fechamos os olhos para a lógica e a realidade, armamo-nos das ferramentas necessárias as ilusões,e caminhamos na terra, a vencer moinhos,ou a cantar amadas,a morrer por ela,La vamos nós valentes guerreiros, matar nossos dragões, e sonhar lindas donzelas.
O ser humano é um animal incorrigível em seus hábitos, e vivemos a repetir os gestos, e os atos ao longo de nossa existência, o que muda é apenas o cenário,Assim como eles aqui vim parar,artista em busca de um sonho, queria somar a um coletivo,pois nesta cidade não existe o artista como individuo,somos uma guilda, uma cidade onde residem artistas e artesões,e vivem em um estilo medieval,uma pequena aldeia de dez mil almas,próxima a uma megalópole de dez milhões de individuos,procurei retratar os artistas que achei que mereciam um ponto na escuridão,dei-lhe voz para dizerem eu passei por aqui.e no processo de lembrar esqueci pessoas que me foram ou não importantes,mas foi porque simplismente continuei humano na terra dos imortais.
Memórias de um louco Fluido
Nossa Aldeia ficava La na floresta de M Boy, Fundada segundo M, F, Jordão (Aldeia de Maniçoba, Aldeia que Nóbrega fundara em 1553, 35 léguas, alem dos campos de Piratininga, no mesmo caminho do Paraguai, com o fim de aproximar os Carijós, Fazer dele um gentio a serviço da Espanha, sonhava Nóbrega com um M`Boy que ia daqui ate o Paraguai) Depois este sertão torna-se terras de Fernão Dias Paes Leme, o bandeirante. La por volta de 1600, da era cristã, veio para cá os jesuítas da Companhia de Jesus, e aqui fundaram uma escola de santeiros, estávamos próximos de Piratininga, o que um dia viraria São Paulo, estávamos, portanto no caminho das bandeiras, nós índios Carijós, para sobreviver, vendemos santos dos brancos, para eles mesmos, por uns trezentos anos, esculpimos e pintamos os deuses e os diabos, que eles próprios criavam,cantamos musicas que não sabíamos o sentido,em uma língua que dela nada imaginávamos,vestimos roupas para tapar nossos pecados, e criamos aqui o Santo do pau oco, talvez nossa maior criação. Em volta, da igreja de taipa, foi crescendo um povoado que depois se tornou uma vila, depois, mais uma capela, e finalmente com as riquezas que aqui deixou os bandeirantes, construímos uma igreja grande, que nossos descendentes foram cobrindo de folhas de ouro, neste tempo com nossos anjos de madeira, éramos já uma guida com artistas Góticos.
Passamos uns três séculos, a entalhar madeira, uns paus verdes catado na floresta em volta da aldeia nossa aldeia crescia e virava povoado, começa então um fluxo migratório, outra gama de gente veio para cá. Os artistas! No alto de nossa montanha, éramos uma ilha, graças a suas belezas naturais ficamos famosos, éramos uma tirinha de terra dentro de uma reserva de mata Atlântica, Assim foi que eles os artistas aqui fundearam, em uma antiga povoação de índios Carijós, uma Guilda Jesuítica provavelmente fundada pelo Padre Manoel da Nóbrega, tão medieval o quanto um mameluco, ou um pirata consegue ser, (os Dinossauros,) eram os artistas sucessores dos Góticos, deram uma nova cara ao povoado, Eles eram primitivos, pintavam com cores fortes, e falavam altas verdades sagradas o Assis era um filosofo platônico, morando em um barraco de madeira ali perto do rio,um verdadeiro estóico, ele trouxe o para morar em sua casa,o Solano vinha falando de fome, da fome que fora ser negro e escravo em terras portuguesas Marco Mariano era cenógrafo de uma cidade de fantasia, a Raquel na frente de um grupo de mulatas,dançava e cantava seus maracatus na noite Embuense aqui só havia um amontoado casas caipiras com um conjunto arquitetônico colonial dos Jesuítas no centro, eles os dinossauros iam transformando em um cenário fantástico, uma mistura de todos os estilos, pura fantasia. O Solano e seu teatro davam o tom do Maracatu, enquanto os Gamas cantavam o Mineiro Pau, o Jaldo Jones, encarnou uma que viera das estrelas, e aqui pousara sua nave, e fazia escultura pensando estar na ilha de Páscoa, ia pelos anos sessenta de nossa era , quando os primitivos deram a cara do que hoje é, esta Guilda, o Sakai era nosso maior ceramista deste tempo, dava aulas, e trazia as madames de São Paulo, para aprenderem fazer cerâmica, queriam o toque do semi- Deus japonês, ele transformava barro em ouro, Veio a Aidil outra ceramista ceramista o Agenor era escultor e aqui vem morar, veio o Gama a esculpir figas para espantar exus, tinha o Cássio M Boy, este lançou moda, à moda de assinar (Do Embu) todos passaram a assinar assim, depois do nome, a nova grafia era, Aurora do Embu, Asteca do Embu, Era Assis (Do Embu). Do Embu, passou a ser sinônimo de qualidade. A Ana Moises, mulher bonita, alta, de porte nobre, era uma mulata que dava brilho a noite do vilarejo, de apenas uns dez mil habitantes, nesta perdida ilha, cercada por três rios e três lagoas.
Aqui cresceu o maior movimento de arte do Brasil, para cá, começam a virem boêmios de São Paulo, os Modernistas paulistanos passam a fazer parte da noite Embuense, tornamos um lugar de referencia para a boemia paulistana, os artistas aqui radicados a Raquel, o Wanderley Chiuff Agenor, e outros, a esta altura uns vinte, passam a freqüentar em contra-partida os clubinhos de arte de São Paulo, com seus quadros exóticos, costeados por Cássio, invadem São Paulo, em contra partida, para cá vinha o Kadunc, o Jordão de Magalhães, que com outros milionários funda o restaurante Patacão, um clubinho Gastronômico em estilo Casa Grande Senzala, contrata negros para trabalharem fantasiados de escravos, para servirem uma elite de paulistanos que passaram a freqüentar nossa cidade, e muitos vieram para cá por ser um recanto aprazível, um vilarejo metido a cosmopolita, com arte e festas, tínhamos um grupo que dançava Maracatu do Solano Trindade, outro dançava o mineiro Pau, do Gama, Havia a romaria onde esta cidade se transformava em uma cidade do velho oeste americano, de tantos cavalos, cavaleiros e charretes, a colorir a cidade, e a noite era uma criança na aldeia de M’Boy.
Quando caia a noite,acendiam-se as lamparinas na beiro do rio e elas iluminavam o barraco do Assis, os começavam os tambores a tocar chamando os filhos de Oxossi, ali não havia escuridão,e as festas brilhavam na noite Embuense.
Um dia os do Embu, foram expor, em uma destas cidades que nos convidavam s, e trouxeram de La um mulatinho, das Minas Gerais, ele se dizia pedreiro, metido a escultor,quando viu os do Embu,como um carrapicho, agarrou-se a eles e chegou ao Embu, grudado ao grupo, este pequeno Zé Pelintra,quando aqui chega,cresceu, e fez crescer a cidade, sagaz, ele vê o movimento de artes, que nascia com a criação da feira de artes da Praça da Republica em São Paulo, Vê também o movimento Hipye que surgia forte na cidade com a chegada dos latinos Americanos fugidos de seus países para aqui se instalarem, pessoas exóticas coloridas e alegres se instalam ali ao lado da igreja, fazem um artesanato desconhecido vindo dos Andes, ou do Chaco Argentino, para ca estavam vindos latinos americanos fugindo da operação Condor, eram vozes dissonantes no continente eram os filhos filosóficos de Che Guevara que segundos os generais de plantão deveria ser caçados e eliminados,os pequenos filhotes de Guevara corriam o continente,a pregar uma nova ordem,a que se deveria endurecer com ternura,se escondiam-se por aqui, ali nos morros, ou nas matas de Embu (o Assis cresce os olhos), e diz para o Sakai, e para o Solano, que traria aquele (trem) para o Embu, como antes havia trazido todo um grupo de teatro,traria também uma praça de artes.Trousse!,
Com ele inauguramos a era dos Acadêmicos, Outra classe de artistas se instala na Guilda,(os multe- mídias) como me dizia o Rony, falando macio, me pedindo um café, vai contando que chegou com a Ferrugem na guilda, por volta dos anos sessenta, fazia cintos bolsas em couro, ele o Beto a Cida, os quatro saiam de São Paulo para expor no Embu a convite do Assis, eram uns loucos que ficavam a viajar,e para isto pintavam,entalhavam faziam coisas de couro, eram os personagens dos anos loucos chegando. Fluido ia passando devagar, por coisas, e pessoas, nunca batia de frente,ou mesmo nunca batia,ia passando por entre frestas, de uma geração, passando despercebido, fluindo por entre fatos e historias,ia assim meu narrador contando sua saga.

OLIMPO UM MINUTO E MEIO
O que é o tempo, senão uma fagulha de luz perdida no espaço. O que é Deus, senão a totalidade do escuro, percorrido por uma partícula chamada vida. Esta é a história de duas partículas que tinham este espaço de trajetória, com uma faculdade a mai, eram artistas!É a noite que esconde o tempo, em um processo gradual, em uma orgia triangular. O dia, à noite e o homem, que como em um processo autofágico, se consomem. O artista olha o artista pinta.
Signos e símbolos, de linguagens desconhecidas, dos homens, dos locais, mas que em outro tempo, e outro lugar, era o grafite da história, que o pintor pegou em um gesto rápido, do viver do Judeu, do coreano, em terra alheia, sem pátria, é o pintor. Assim o artista passou por ali olhando, observando e descrevendo, o espaço o dia, o lugar estado e retratado, em um ato de se tornar parte do que se viveu.
Eu ficava ali, de minha janela a olhar os clones coloridos a flanar, por entre barracas. De artesanato, domingueiros consumidores de supérfluos inomináveis. Uma selva de sapos de pano, santos de barro, em meio de barracas de acarajé. Passavam em baixo de minha janela por meio de bolsas, bancas de sandálias rústicas como se a negar sua vida balanceada de rações envenenadas. Pobres clones com um desejo voraz de tudo consumir, por cinco minutos, tempo de duração de uma moeda, de casa de pinos, bichinhos de durapoxe, quadros de cavalos a correrem de incêndios, por bucólicas paisagens européias, cópias mal feitas da revista Walter Foster. E de nada queriam saber, apenas, apenas consumir, em um ato desenfreado de ignorância histórica, de ignorância cultural, de não saber nem ao menos o que consumir, tantas eram as opções, era tudo a ser comprado.
E eu tenho que pintar isto, como proposta, como obrigação, ou razão de ter voltado, e eu voltei. Daqui de meu púlpito celeste, do alto de minha torre de marfim, falando como em um palanque, vendo como um jacu, eu faço, eu faço símbolos, eu crio signos, que contam uma história, dos que voaram, e não voltaram, ao convescote dos semideuses.
Uns voltaram, outros nem partiram, e foi tão triste o recontar, idílicas batalhas travadas com os deuses, uns derrotados, outros vencidos. A feira mudara, viera para debaixo de minha janela, que medieval parecia minha cidade. Bolsas enchidas com jornais, notícias amassadas, qual um passado descolorido e desgastado pelo tempo, frágeis barracas de panos coloridos, tais sonhos desvalidos, abandonados ilusões de dias ricos, de muito ouro. Sonhar é preciso.
Toda partida era uma derrota na vontade de ficar. Um voltou expressionista da Holanda, vive em seu universo cercado de certezas, de ser Deus, não passa de um semideus. Apenas possui a técnica dos raios, não sabe fórmulas, mas crê Deus, coisa típica, vai se enganar ainda muito até aprender que lançar raios não é tudo no ato de ser mágico, me faz lembrar minha opereta que assim dizia:
O rei catalogava
Todo preso torturava
Cada sonho, do herói sonhado
Dez anos depois
Como brinde distribuía, ao povo,
Os sonhos catalogados
Era um grande rei
Um déspota iluminado
Minhas noites mal dormidas, acordando em meio ao negro, e virando na cama a tentar uma luz, um axioma ou um aforismo mal interpretado, mal visto ou mal codificado, andava a vagar, a procura de uma fagulha em meu passado, que pudesse explicar porque voltei.
Havia fatos de retrocesso? Acaso não era mais um caminho a caminhar? Ou o mesmo chão, o mesmo lugar, as mesmas pessoas fazem um passado, alento imutável em minha memória, eu votara, e como outros trazia comigo uma mulher, era meu presente, e este fato fazia-me abrir uma variante para não ser um revi Val do passado. Qual animal voltava ao ninho, em tempo de crias, e pensava que aqui seria meu reduto definitivo, assim como de outras vezes também cremos, e fugimos, e não mais voltamos.
Esta insônia companheira dos párias, dos intelectuais dos boêmios, dos que não possuem um corpo cansado para dormir, somente o cérebro a metralhar velhas lembranças de filho pródigo, de um José.
E assim ia a tropeçar noite adentro um personagem chamado Ray, ao seu redor as várias fases, velhos contos e memórias de além ser, de “Devir miscigenavam com Hiromi, por todas as paredes, a história não era mais minha, mas nossa, éramos apenas um uno indivisível, em uma enorme tensão, em meio de torções tentando ser dois, mas todas às vezes nos perguntavam quem era um e quem era outro, em nossos quadros, e explicávamos pacientes, “somos apenas dois, sendo um, uma extensão de nosso ser ausente”.
Passaríamos então a pintar cartões postais? Pedaços retalhados de longínquos lugares nunca por nossos olhos vistos? Sairíamos à cata de deuses em cada ato representado. Assim conscientes provocar uma avalanche de fatos, e atos conjugados, para um objetivo demarcado, a construção de nosso Centro Cultural, quantas vezes não me perguntei, se isto era apenas uma desculpa, ou apenas uma sobrevivência, mas me pegava não vendendo o terreno, não abrindo mão do conquistado, aquele lugar me era caro, eu já sonhara sua construção, visualizara cada pedra, e me perguntava: “Haveria outro modo, outra forma de enganar minhas visões noturnas”?
Qual fórmula ao espírito satisfaria, e sua adoção fosse total, eu demorava a me tornar um pintor, meu espírito elástico, recusa um só destino. Assim eu interrompia o gesto, tornando-os um ato de intelecto, a “Gestalt” era para mim uma ponte, e não um objetivo uivava a lua, em minhas noites insones, queria contar cada história, cada estrada, cada amigo, e tudo ficava estratificado, na cor, e no gesto.
Assim foi que vendi tudo, carro, telefone e os papagaios, e fui à busca de meu Eldorado de ilusões, o qual deu o nome de 4a fase. Voltei para a rua, voltei para feira, a sentar numa calçada. Voltei ao passado em busca de um alicerce que me pudesse servir de arrimo. Sentir o povo, ouvir seus sonhos, e recontá-los tal qual os ouvia. E fomos quais loucos, fomos a gestos rápidos, em cores fortes, recontar uma cidade, “A Terra das Artes”.
As noites passaram a ser longas, e o olho agitado rolava por noites adentro a procura de um recanto obscuro, por onde pudesse passar uma solução. A Hiromi ia à TV, ser símbolo, e eu, ia ao nosso sindicato ser dogma. Nosso ser era um ato filosófico, não físico, e voltávamos para casa, por caminhos mais longos, mais acidentados a cada dia, chegávamos mais tarde para nos completar, e assim dizia a Hiromi, em suas angustias: “Continua porque gosta, assim queremos crer”. E a roda do destino continuava a girar, nossa Associação possuía agora 350 associados, em pouco tempo alcançamos 500, e nós éramos dois de seus braços, nosso sonho de um sindicato tupiniquim, era quase trágico, se não fosse cômico, íamos para a campanha das eleições diretas com três representantes, fornecemos a mala direta utilizada, e o Marcelo Nietsche ganhava os méritos, o Takaoka era um amadorPara a Pinacoteca enviamos um japonês mais esperto, e ao menos este soube usufruir das benesses, e nós voltamos à praça pública, para nos mostrar despojados artistas? Descíamos assim de um pedestal conquistando a duras penas, para entender porque nosso Sindicato não pegava. Começávamos o processo mais perigoso de nossa união, enfrentar de novo a vida sem um rendimento fixo, viver de arte em uma terra estranha, com regras por nós desconhecidas. O insensível cotidiano das incertezas, sem um amanhã a despontar no horizonte. Agíamos como loucos, não fomos para o Guarujá, onde teríamos um emprego para executar o projeto “Guildas do Guarujá”, mas saímos para outra cidade, a projetar outro projeto com outro povo, em outro lugar. Saímos a comprar um terreno que coubesse este sonho; compramos 1100m2, o máximo que conseguimos, em uma localização que fosse acessível e a partir daí a tentativa de construir. Fomos à busca de meios, fomos pintar coisas simples, falar uma linguagem popular, fomos a mostrar coisas que nada tinham de nosso, não éramos decoradores de paredes.
Perdemos nossos amigos, pois ao que tudo indicava copiamos com o sistema, nossa 4a fase era um projeto tão louco que não tive coragem de procurar um patrocinador, era o começo de um final de anos de estrada e de loucuras, e neste espaço, reservamos um lugar para uma criança que começávamos a discutir se teríamos. E assim foi que interrompi meu trabalho na loja, pois não estava mais dentro dela, meu balcão servia-me apenas para pensar em discursos estéticos, saíra a procurar informações com o Marcelo Nietsche e com o Fábio Magalhães, com Aldemir Martins e L.P.Baravelli, meu universo não cabia mais dentro de uma loja de jeans. Nossa Associação me fez viajar para Santos, Campinas e Guarujá em busca de novos associados me viam com discursos, que nada tinha a ver com nossa sobrevivência e não renovei o contrato da loja, saímos de São Paulo, em uma quarta-feira de cinzas, um bom dia para mudar.

Quantas vezes a variante principal teve que ser modificada, ou abandonada, por força de circunstância, um ano passei na Pinacoteca do Estado, com debates, para saber ciente, que a arte não é apenas um ícone bem executado, mas é algo maior que não se desaliena do autor, e o tempo se dilataram, e meu espaço crescia, e vi-me contradizendo-me ao afirmar ao Jos Luyten (crítico de arte) que não pretendia viver de arte. Repensei e mudei. Era um desafio e eu sou um aventureiro, o desafio é minha perdição.
Tempo e espaço, quão longe se dilatam pra marcar em suas extremidades o tempo percorrido e o espaço ocupado, com quadros, histórias vivas, recontadas, qual ditirambo a retalhar versos, trêmulos de vida carregados, sonhando fantasias de grandezas. Um dia fabricantes de sonhos, outras cidades e mulheres, depois projeto 3,4, eram todas figuras jogadas ao ar como confetes, ou serpentinas a piruetar em forma de um Sindicato, de uma Guilda de Guarujá. E tudo isto passado não mais podíamos ficar ali, não era este nosso destino, acreditávamos que éramos maiores e saímos em busca de nosso tamanho real.
Acreditávamos também por esta época que o homem possui o tamanho que sonha ter, e nós sonhávamos mais alto, muito mais alto, queríamos um centro cultural, nosso, e saímos em busca dele, ali dentro do coração, ele já estava montado, mas como um escultor em frente ao meu material bruto, faltava tirar excessos, pois lá dentro, no meio do mármore, estava a dormir sua Afrodite. Iríamos esculpir nossa obra, bem ali onde as cobras fazem seus ninhos, fomos para a cidade das Artes, éramos duas Fênix a renascer em uma quarta-feira de cinzas. Os signos me perseguem.
Houve uma hora em que no Embu deparei-me com os semideuses, os homens que possuíam um estilo, um mercado, eram objetivos, homens para quem após árduos sacrifícios disciplinares, a crise acabara, ficando em seu lugar a certeza de ser um Deus, de poder ganhar, ser maior que os mortais, e em alguns, isto se media pela arrogância. Homens que à glória não mais interessavam, era apenas um complemento, de se pensar Deus, não possuíam um desejo de ser novo apenas o que tudo que fizessem vendesse. Já vira homens assim quando fora jogador de xadrez, eternos mestres de clubes, não homens de mundo, não homens de mundo, não homens em que o desafio fosse aceito, mas que em seu estilo ganhava três em cada 10, mantendo-se assim em uma eterna categoria especial sem sonhar nunca ser o melhor, homem bloqueado pelo dia a dia.
Mantemo-nos em meio deles, dois pixotes sem estilo, olhamos para cima, torcendo para que sentado na praça o público domingueiro não nos jogassem amendoins, e corremos ao Centro Cultural São Paulo, e desmarcamos nossa Exposição, que se chamaria “Aceita-se Pipocas”, faltou-nos coragem, não estávamos ainda preparados, faltava-nos ainda a técnica de raios, não éramos ainda semideuses. Impetuosidade de uma juventude envaidecida pela ousadia, que ousa quebrar valores tradicionais, para em seu lugar dar vaga a dúvida, do ser e do estar, aplopético prazer do vibrar eterno, do moto-contínuo das paixões, foi assim o primeiro impacto, de sentar em uma calçada, e lembrar que passara quinze anos, e nestas mesmas calçadas eu dormia embaixo de um plástico vermelho a espera de um novo dia, eu, a Márcia, o João, a pensar que no domingo seríamos felizes, passou!
As pessoas queriam coisas simples, gostos simples, gestos simples e isto não nos satisfaziam, alguém tinha que mudar, camaleônicos mudamos, travestimo-nos de simplórios observadores do bucólico, das paixões inocentes, de ousadia contida, sonhamos curtos em vôos limitados, era apenas um fazer técnico do belo, reproduzir em escala de consumo, para pessoas comuns sonharem-se felizes. Imiscuímo-nos em meio aos semideuses, e com nossos gestos limitados sentamos na praça, éramos ali sentados apenas uma atração mambembe, pois é assim que descem os semideuses na terra, fantasiados de palhaços dizendo sandices incompreendidas, com leve sabor de verdade, e uma pequena dose de riso.
Hiromi emagreceu, perdeu sua provável gravidez em um esforço de velocidade, coisas típicas de heroína que se mete a acompanhar os aventureiros em suas empreitadas cinematográficas, normalmente se rasgam e se arranham todas, em meio a espinheiros e crocodilos, e assim estava a Hiromi, em frangalhos, do peso da responsabilidade, do peso físico e o cansaço, corremos estes últimos meses, corremos como desesperados em busca de uma alternativa salvadora, fazíamos assim nosso destino, sentados em uma pequena praça, e sonhando possuir o tamanho do mundo.
Passamos a observar os semideuses, objetos de nossos estudos, queríamos que entrassem para nosso sindicato, afinal eram eles os profissionais para quem havíamos fundado, fui dar aulas para crianças carentes no CINC, era a guarda - mirim da cidade. Crendo dali poder formar alguns artistas. Eram 130 crianças desnutridas, e com muita fome, e foi assim minha primeira aula. “Existem apenas três formas na natureza, o cilindro, o triângulo e o círculo”. Fi-los copiar em seus papéis como cabeçalhos, e dei-lhes formas relacionadas com estes tópicos, muito pouco se pode aproveitar, eu tinha tempo, a eternidade.
Fomos caminhando, na 2a aula disse-lhes como era provável o descobrimento da roda, disse-lhes ainda “Deus um dia chamou um anjo e disse-lhe: Vá ao mestre construtor e diga-lhe que me faça os mares, as aves, as montanhas, a luz, e seu anjo industrioso perguntou-lhe onde estava o desenho de tudo que Deus queria o projeto, e o artista criador para dar a forma imaginada por Deus, pois só com este intermediário se poderia colocar a fabricar a produzir”. E eram assim minhas aulas, enquanto a Hiromi pintava a cidade, a cada rua, cada casa foi por ela pintada, em dias quentes e corpos suados, mas a idade ia tomando forma em suas telas era um salto pintar assim, como quem passeia por entre jardins, a mostrar-lhes uma animação de um provável Deus.
Olharam-nos, a princípio folclóricos, aos poucos mais sérios, atualmente preocupados, criamos nossos primeiros auxiliares, e começamos a ilustrar-lhes a respeito da 4a fase, vamos assim construindo nosso próximo sonho sob olhar atento destes guardiões do saber. Voltamos a ser principiantes em pintura, no anseio de falar popularmente, alcançar uma linguagem, decodificar seus signos, ler seus símbolos, e remontá-los de forma a ser vendido, para compra de tijolos e cimento, pois tínhamos um castelo a construir. E foi assim o começo, fizemos quadros que nada tinha a ver conosco, quadros técnicos, onde a emoção possível era a contida, e dava lugar ao exercício, do fazer contínuo, do repetir a fórmula, até que polido e lapidado estivesse, em nosso frágil suporte de telas baratas, de algodão e Suvinil, frágil suporte para tantos sonhos, saltamos de um artesanato renascentista ao industrial, uma escala louca de produção.
Era a dialética de nossa história, a causa encabeçando o efeito e o rio seguia seu curso, era tudo em função de vender em uma feira, sonhadoras folhinhas a ocupar paredes, lapidados cristais de cores vivas, não era forte seu suporte, a garantia era menor, e também o preço cobrado, éramos honestos, com um preço mínimo, era assim meu exorcismo, o de pensar que a cada dia podia pegar mais, e conseqüentemente fazer melhor.
Éramos operários padrões, trabalhávamos como mouros a pintar quadros para uma feira de artesanato, talvez artistas do sobreviver. Éramos o símbolo de nosso sindicato, o Ezequiel deveria nos adorar, e todo orgulhoso deveria nos pensar um ideal sindical, e madrugadas afora a pensar quadros, a pensar coisas a disputar com os galos, quem acordava quem, era um cotidiano que não podia durar mais que uma fase, o lucro era muito pequeno, e não tínhamos como fazer greve, assim construiu um quadro que recompunha uma cidade medieval, tal qual seria Embu, só que barroca, mas era a cidade da Janine, sua figura ali pousada, qual uma bruxa a tomar beladona, ali, a ver a cidade tão sua como do bispo, audaciosas se completavam, em fraco suporte, de pano, de madeira e Suvinil, de P.V.A., era o suporte de um alquimista roto, em sua lojinha do 1o andar, no centro da cidade, a produzir cores e forma, a assustar suaves clones que por ali passavam, a pedir uma soma para sonhar. Nossa realidade era um paradoxo.
Ali em nosso cantinho, entre cerâmicas, casinhas de pinos e panelas velhas pintadas com neutrol, produziam nossos quadros, coloríamos aquele universo atarantado de loucuras, com neuroses a vista, era nossa panela de pressão, que a cada dia surgia uma desavença, por cliente, por um espaço, ou por causa alguma, a panela fervia, era um pesado cotidiano de seres humanos, e eu por supostos artistas cabia-nos descrever.
Insônia, maldita companheira do intelectual, do candidato a Juca - Pato, herói nacional, um Pato Donald com padrão, do signo que se tornou significante do significado. Chamei um dia de vagabundo um artista expressionista, tal minha ira com seu gesto mal executado, faltavam-lhe ritmo, era um suposto semideus, e ele se assustou, e quis correr do país, era um momento de raiva que passou e voltamos a ser bons amigos, mas ele não possuía o tamanho que dizia ter, e eu não lhe dedico o respeito que acha que merece, e o resultado foi que passou a pintar com mais cuidado, e mais limpo, valeu para alguma coisa.
Finalmente os Deuses reconheceram nossa Associação, depois de piquetes na Fundação Bienal, nos viram, olharam para baixo e deram-se conosco, era um momento de glória, ser recebido pelo Secretário da Cultura, o Digníssimo Sr. Jorge Cunha Lima, éramos um movimento representativo de uma utopia tupiniquim, éramos dinâmicos e eficientes como personagem de Chico Anísio, líderes da maior malta de loucos até hoje aqui reunidos, pensando serem Deuses, tal qual Netuno, ou uma Atenas, eram todos loucos diletantes do ofício artista.
Neste tempo, no Embu, um louco foi atropelado, e passou a usar gravata, foi trabalhar de ajudante de cozinha, como deve um louco um dia acordar? Eu próprio não sei. E fomos nós a envelopar correspondência, da Associação, era uma maneira de dizer ao mundo várias versões do mesmo fato, nesta utópica democracia de um país coca-cola, estávamos produzindo uma média de quatro quadros semanais, era uma exigência de nossa sobrevivência.
Era um trabalho de efeito fácil, de assimilação imediata, era exatamente o que sonhava os compradores do Embu, perguntávamos se era isto o que víamos ou se realmente era assim, e o público era que tinha razão, afinal a parede era deles, e por respeito ao livre arbítrio, podia eles optar pelo que melhor lhes aprouvesse, nossos amigos indignaram-se com nossa nova fase, mas indiferentes continuamos a usar a máscara que propúnhamos, assim como fomos comerciantes, hoje éramos artistas de tempo integral, as máscaras se sucediam, a povoar minhas noites mal dormidas, madrugadas a ouvir Pink Floyd e a correr em todas as direções para cobrir um custo operacional, a pensar que provavelmente logo viria ser pai.
Criar outro louco para correr mundo a cantar cânticos de sonhos desencontrados, e pintar tudo e a todos, sua história cotidiana, montar castelos, somar variantes desvairado, a contar estrelas ocas, figuras de alumínio em fundo dourado, e íamos assim, a jogar fantasias pelo. Nossa produção aumentara assustadoramente, produzíamos signos já codificados, mensagens claras, falávamos às pessoas diretamente, tornei-me insone, as noites eu parava e punha-me a revisas fatos e atos, a planejar um próximo lance de uma partida, onde o prêmio era viver Deus. Quando tudo que queríamos era executar a fase quatro, era muito pretensioso, um prédio que pudesse vir a ser um centro cultural, com jardins de esculturas, protegidos dos pombos para que não defecassem em cima, limpas para apressados turistas não se sujarem, e não sujá-las ao comer cachorro-quente e a tomar coca-cola, tão pouco era nosso sonho, custava-nos caro.
Nossos amigos sentiram-se traídos, todas aquelas máscaras lhes soavam falso, nosso Deus era de barro, indignaram-se, e assim estavam, enquanto eu jogava uma partida na terra dos semideuses. Era tanta a pressa que eu e Hiromi passamos a pintar a mesma tela, tal era a exatidão exigida, quadros as dezenas, a preços de atacado, foi assim encomendado, saímos a pintar.
A tudo isto éramos observados, se aproximavam de mansinho de medo de pormos tudo a perder. Disse-me minha consciência: “Ray, tu fazes da arte uma prostituta! Faz de novo dela uma deusa”. Era uma voz irreal, na madrugada fria de um inverno, onde a geada tinha deixado minha montanha plana, e ali aquele heróico personagem encarcerado em liames filosóficos, lutava como meu gato dormia ali a meu lado, a ronronar, ou caçar insetos voadores, em batalhas imaginárias. E meu gato jogava-se ao ar em batalhas imaginárias, a caça de uma vítima que nunca viera, em um tapete felpudo, parecia não ter sentido, e era o mesmo que a gente viver um sonho programado, um ato falho em busca de uma nova estética, ou em busca de um novo gesto, íamos à busca de nossa identidade, hoje pintando vidro, amanhã um bule, e frutas e mares, éramos Deuses a criar sem uma norma disciplinar, que se chamasse estilo, cada gesto descrevia um conceito estético, qualquer proposta era secundária, ao fato visível, nossos signos eram colocados com finalidades específicas.
Saía assim nossa nova fase, noites a fio, eram velhas estórias de bruxas, fadas e anjos, todos ali representados, ali a meu lado meu gato ronronava a procura de carinho, e ele sentava em cima de meus papéis, como se a perguntar se valia a pena tantos papéis sujos de memórias, embaladas por Vangelis, e nós a pintar trigais e montanhas nevadas, a pintar um colonial fotográfico, em gestos tão rápidos que tivemos que passar a usar espátula, e passamos a assinar H. Rodrigues, de vergonha, ou medo de assumir era nossa nova máscara, e assim contamos a saga do personagem H. Rodrigues, era apenas mais um braço de nossa Deusa Kali.
Velhos fantasmas exorcizei a caça de ser Deus em apenas quatro fases, pois não havia escrito em lugar algum em quantas fases se tornava, não havia em lugar algum uma fórmula escrita, porque estão não em uma ou duas? Como era difícil arrancar do peito as figuras que iriam povoar nosso universo! Um universo de tijolos, pedras, areia e homens, uma máquina movida à corações, e sem a tolerância obrigatória de mais, e menos 10%, não havia garantias, nem das componentes partes. Hiromi pintava a cidade, seu centro, seus arredores, e fazia assim sua parte de toda obra, enquanto meu gato ali na porta, sentado, olha a luzido sol, seu Deus morno e aconchegante, e eu ao seu lado pensava se me era permitido voltar atrás. Começava a ficar com medo de escrever nossa atualidade, não me parecia mais definível que a um teorema, variantes trilhas, caminhos abertos em perspectiva ao horizonte, alongavam-se, não possuía mais nem meu tempo de leituras, era um eterno cavar dinheiro, de não sei onde, minha vida era apenas uma empresa, e como tal estava sendo dirigida, em tempo de crise.
Era nosso primeiro ano, julho fazia um ano sem rendimento ou que não fosse da venda de quadros, queríamos festejar, e tempo? E dinheiro? Estávamos cansados tal qual um lojista após o primeiro semestre respirando fundo para dar início ao segundo ato.
Eram tempo de palhaços e bailarinas, quadros grandes, eu precisava de espaço para compor minhas Valquíria, minha sonora sinfonia de ser só arte e nada mais ser.
Um ano se passara da Cantareira ao Embu Terra das Artes. Qual fora meu saldo? Qual seria meu saldo? Como me perguntara um dia o Zeno, me perguntou agora. Sabendo que eu era apenas um louco a procura de um estilo com um pincel na mão, em rotos trajes, éramos duas figuras a contar uma saga de uma idade, em cânticos não tão alegres, não tão tristes.
A feira! Esta feira, ali os melhores artesãos plásticos se assim pode-se classificar um técnico em pintar uma série de quadros, e a capacidade de repeti-los infinitamente, quantas vezes ele for vendido, era assim a feira. Um lugar para se confundir um semideus, mas eles não estão ali, pois os que ali estão não conseguem ficar em casa, a feira está no sangue, como é o caso do Takebayashi, do Elisu e do Yugi, porque ficam na feira? Todos os seus quadros são vendidos todas as semanas, mas não saem dali, marchands propuseram comprar todos os quadros que pintassem se saíssem, mas não saem, mas sua parcela de tecnologia não lhes dá confiança necessária para irem embora. E ficam. Seriam maiores em outro lugar? Conseguiriam ser um Josan ou um Fernandes? É algo maior o que se passa com eles, muito mais complexo. Serão eternamente feirantes.
A feira, ali a venda é rápida, o quadro deve possuir uma leitura rápida, é tudo como se fosse a um leilão, dois, três segundos para a pessoa passar a ser atraída pelo quadro, em um lote de dois ou três mil quadros, tudo isto leva a um primor “Gestáltico” a limpeza absoluta, um campo de análise psicológica.
A feira, ali prevalece o estilo pessoal do bom artesão, sua marca e o primor da execução do artesanato, cheguei a pensar que não deveria formar nenhum artista que não passasse um ano na feira, pensava na Idade Média, na feira da Holanda, seria assim, será que apenas recriamos as feiras Holandesas, e nada acrescentamos, ali nasceu a pintura de interiores, e aqui nasce o casario. O tempo dirá que o casario é uma pintura de feira, é um estilo de um tempo. Aqui na praça você começa a vender, se julga dono do gesto definitivo, de átomo passa por célula, depois parte do grande corpo, fica preso por um gesto que funciona, atrai, e torna-se um só elemento. O fazer e o vender. Não mais busca resposta, a certeza é absoluta.
Os quadros partem, voam, vendem-se em quantidades, não os contamos mais os filhos considerados, mas sim produtos! Produzidos em linha para o consumo em massa. Íamos assim noite adentro em busca de um estilo para compor uma sinfonia, saiam gritos, sons magistrais, marinhas grandiosas, eram temas tratados para ser música, pra conterem uma poesia, que as vezes a sentimos desritimadas, por saber não ser o quanto podíamos dar.
Assim nos parecia a feira, nossos quadros não se encaixavam neste tempo, neste lugar, saltávamos como loucos de um tema a outro, de uma proposta de vanguarda ao fazer técnico decorativo, como se deve ser em uma feira, seres de gestos contidos. Queríamos entender e irmos embora, como se fora um passeio, e não era. Havia dias onde o coração parava perigos cardíacos, havia algo a nos mover, e esta era a vontade de executar uma idéia proposta. Via surgir nosso castelo, cada peça adquirida era uma conquista, era uma luta onde não sabíamos dizer se era necessária, uma aventura pela aventura, não podíamos dormir afinal o espetáculo tem que continuar, somos os historiadores de nós mesmos, a contar a estória de uma geração, nosso cordel tinha que continuar, mesmo que a continuação nos levasse a uma pira fúnebre, como em São José dos Campos, baleado.
Pessoas a passar frias, ou assustadas em frente ao nosso espaço-banca, a olhar aos estranhos ritos, com os quais compúnhamos nosso conteúdo e forma, aqui onde a teoria não passa de um poço no deserto, tão raro, quase impossível de divisar, é o espaço dos guardiões do saber.
Era uma busca de um estilo simples e objetivo, um estilo pronta entrega uma produção de 10 quadros por semana, algo ingênuo, e limpo, e este seria decorativo. Assim como Takebayashi ou Elisu, verdadeiros gênios da objetividade via um Rossi, verdadeira máquina de produzir e vender, um Atílio, verdadeira indústria imobiliária de enormes casarões colônias, com cores chocantes, eram quadros gerados não mais como coração, mas sim como folhinhas para paredes de pessoas simples, uma indústria plástica a impor estilos e formas de vender barato.
E olhamos este rio de tintas a escorrer em nossa frente, boquiabertos, afoitos a vender um só quadro que os indicasse ser este o caminho, gritávamos um com o outro nervosos, em busca de uma razão, que bem pouco importava se certo ou errado, era apenas tensão, por um lugar melhor na feira, lugar este que acreditávamos que venderíamos mais, daríamos certo, dias loucos.
E caminhamos em busca de nosso santo Graal, com ou sem razão, a matarmo-nos por um ideal, os nossos quadros, o nosso tempo, e nosso futuro, e um ideal que pouco importava se certo ou errado, corríamos em busca de nós a gradação de semideus, éramos apenas dois, com a mania de ser um, um cântico escuro que entranhava nas dobras do tempo, a produzir sonhos, olhamos um para o outro e perguntamos: “Fabricamos Sonhos”?
Quantos sim, quantos não nervosos, pela ânsia de vender, de vencer, de acreditar que o amanhã, nos será favorável, teríamos razão finalmente?
Capturamos um semideus, colocado em nossa gaiola e pusemo-nos a estudá-lo, a dissecá-lo, aquele nervoso dinossauro, um pré-histórico nervoso e desajeitado, passamos a olhar suas entranhas, a verdade, e sua verdade, seu universo, dizia ele entre agoniado e místico: “Eu desci de um disco voador, fui construtor de pirâmides, estive na renascença, e hoje encarnei Jaldo Jones, um artista americano”. Quanto trabalho nos dá mantê-lo em uma jaula dourada, em nosso laboratório chamado Senzala.
Massacrado pela feira, uma incógnita, no poder vender, até quanto sabíamos desta, até quando pensava nossos olhos verem o certo, do poder a da glória de um semideus, um produto perfeito em sua iconografia Gestáltica, eram partos doloridos. Mesmos porque a meu lado meu dinossauro urrava, do dolorido-colorido que era sua jaula, queria a rua, sua pata quase me esmagara, livrei-me delas.
De novo lembrara-se de S. J. Dos Campos, a cicatriz não me deixava esquecer, baleado em uma alameda florida, acordado ao som de tiros, o corpo caído, me vira em um passado pesadelo, acordei? Não fora acordado, por Hiromi, que a porta guardava com a chave na mão, a dizer-me acorde, fume um, olhe sua terra, pense em sua mulher em busca de um filho, seu castelo e eu precisamos de você. E fui, sentei em nosso terreno, sonhei nosso castelo, e calmo fui alimentar nosso dinossauro, que se movimentava desajeitado, tentando se colocar em seu espaço, de maneira que ele sabia.
O incidente gera um mal estar, este mal estar de ser artista, um pêndulo social, a mostrar mazelas ou flores coloridas. E a fábrica não pode mais parar, os acionistas não saberiam entender, de uma idéia a uma conquista, quando sangue jorra, em um tabuleiro de xadrez, e aos acionistas a idéia era maior que um quadro, dera partida em uma locomotiva, pesada era nossa 4a fase que correria solta, e agora saíra dos trilhos.
Maior era construir nossa sinfonia, maior ainda que tiver um filho, este eterno adiado, por falta de espaço em nosso saber eterno, que nosso círculo roda a uma velocidade maior que os acontecimentos, cabiam-nos prevê-lo e consertar antes de seu desabrochar. E noites adentro a discutir sobre feiras, sobre pessoas e fatos de um dia agitado em que nos fugira o sono, a procura de fórmulas-Plásticas-Gestálticas, uma forma que contasse, o quanto de dor e sofrimento era montado um sonho, represávamos fórmulas antigas de fazer tintas, de fazer telas, uma luta inglória de desesperados.
Sonhando um dia colocar o que sabemos acima de nosso círculo, um bienal talvez, o que fazer com estas flores expostas em minha frente? Vasos interrogativos de um futuro talvez, ou apenas um passado traído por Deus.
Assim noites adentro em criações signo gráficas para codificar “Tempo e Espaço” uma dilatação, quanta energia era despedida, a romper o cerco criado pelo vácuo, noite adentro me perguntava por quê? Caminhava no vazio com os pés em falso, caminhando em busca de um futuro, espremido no passado, na eterna luta do tempo dilatando o espaço. O gesto nascia antes da intenção? Ou era a intenção precedendo o gesto? Procurava na noite um signo que ao mesmo tempo fosse significante, um estilo capaz de conter, para vender em uma feira algo que possuísse um tamanho de uma bienal, era isto o prêmio? Uma medalha de latão, em uma parede de passado? E do fiz testemunhados por Marc elos? Ou Jacobs, ou mesmo Aldemires, a dizerem estes contemporâneos o quanto modifiquei os status que, o quanto fui moderno enquanto aquela águia maldita dilacerava meu fígado.
Que tom sinfônico meu grito lancinante, que vermelho carmim tinha meu sangue, que obra encarnada por Ray e Hiromi, como foi feliz aquele casal.
Como era feliz o Caio Craco em seu castelo na serra da Cantareira, pajeado por uma águia, a ditar palavras de modismos, dos últimos ismos, e vender livros novidades, era este nosso ideal? Não sabíamos, íamos noites adentro em busca de uma resposta, a pisar em buracos vácuos, a catar estrelas, signos de uma busca desesperada, caminhando ao lado de dinossauros e semideuses, a purificar nossos símbolos, para que possuísse uma dignidade, e possuir uma medalha de latão, e dizei-la insígnia de poder.
Hoje vai ser domingo, tomarei uma xícara de café com leite, comerei um ovo cozido e meio pãozinho brometo, irei até o centro, abrirei nosso atelier, montaremos nossa banca na feira, e lá exporemos nossas obras, e a diremos milagrosas, e de volta aos idos 60, seremos uma novidade gasta e rota, mas uma novidade, sempre haverá uma nova geração.
Tão rotineiro que nem meu gato levanta mais, e a ronronar como antigamente, a exigir seu quinhão de colo, seu lugar favorito, em cima de mim, a pensar que nos capturou, devemos em troca dar-lhe um tratamento real, e assim meu gato passa seus dias, a caçar ratos fictícios, encenando batalhas aéreas e fabulosas, por uma acarpetada, onde nem pulgas possuem um habitat, conseguia ele batalhas napoleônicas com apenas uma bolinha de ping pong.
Quem como nós se torna escravo de um destino forjado, moldado em função de uma proposta, que nem ao menos sabemos se podemos considerar como uma variante principal? O envolvimento de grandes homens, causam grandes gestos, nossa pintura anda a procura de uma dimensão, de um gesto que seja definitivo, nossos quadros aumentam-se de tamanho, assim como um Fernandes, um Josan, homens que o gesto possui uma função definida, um Nakagima, a certeza do acerto, a ausência total do risco, a certeza do vender, e nós não possuímos isto, nós jogamos, e eu os chamava artista muitas vezes, mesmo sabendo que a presença do artesão era maior que sua parcela de arte, mas não é isto que pede o mercado? Um gesto fechado em sua signo grafia, sua forma definida, um ícone?
Sentando no ano, por noites a fio, com um gato no colo, pensava se valia a pena morrer por tais idéias, enquanto a meu lado a Hiromi levava a mão ao queixo a imitar meu gesto pensativo, me dizendo a sorrir: “Não vou deixá-lo transformar-se em um bêbado, panaca! Você é panaca? Eu um intelectual, mergulhado em busca do saber plástico, do dogma, da dúvida, mergulhado até o pescoço a pensar em minha Guilda Embu, a tropeçar em dinossauros, envolvido na construção de meu Palácio de Cristal, em pensar no Sr. Eiffel, atropelar semideuses, como me era difícil vencer mais o domingo enquanto com minha arquitetura procurava ver se Durand tinha razão, se a arquitetura deveria possuir esta objetividade, ou se era mais uma diversão do homem,estas coisas de tudo ter sentido.
Sou! Sou panaca, caí em uma selva política, sem um instrumento de defesa, e grito de dor, a cada vez que sou atropelado, e se não sou um bom jogador não me safava, era preciso pensar rápido e frio, a Hiromi me jogara água fria no rosto, e mandou-me a sonhar um amanhã cheio de flores, e eu fui. Repetia-me ela, eu não procuro a felicidade, eu faço. Era ela uma fabricante de sonhos, enquanto eu apenas fornecia conteúdo, ela modulava a forma do que seria nosso parto.
Hoje vi um figurante sem púrpura, me pareceu um homem indevido, preocupado com o futuro, como posso pensar no incêndio de Londres XVIII se aqui no alto de minha montanha o mundo desmoronava.
Cada gesto, cada ato, tornara um símbolo, e era seguido, éramos uma geração de incertezas, e quanto a nós, tentávamos criar uma ponte no final do caminho, para que à outra montanha chegasse-mos. Olhava um quadro de Inglês e perguntava se aquela geração conhecia a certeza, a minha criara o Rock, o computador e o sintético, e que será de uma geração senão memórias?
Memórias regadas de suor, de lágrimas, para contar uma fase com uma fidelidade fotográfica, de dois cobaias sociais, fazíamos assim nossas montagem, nossa equação binária, a olhos de uma rua inteira, a Hiromi era arte, uma humana arte de desafio, uma ode do destemor, o quanto esta criança de um metro e cinqüenta é uma mulher, uma postura de adulto, uma visão fotográfica do ver, de pintar o visto por cada transeunte, e eu ali do lado, um Popeye sem um espinafre para me socorrer, para me fazer herói, nada! Apenas um doido rotamente vestido, razoavelmente alimentado, e com desejos reprimidos de consumir o poder e a glória de um pintor, em meu 1o andar, de um vazio no espaço.
E parava a pensar em tempo e espaço, sua concomitância de moto-contínuo, e nós! Ali na Rua Joaquim Santana a pintar, preocupado em o que fazer com o nosso dinossauro,a se mexer desajeitadamente em nosso cômodo, explicar lógica aquele Maguila, apaixonado por tudo que houvesse brilho, cheirasse ou tivesse sabor. O hoje, o ontem a ouvir “Animals”. Um Arnold Laine, são espaços demarcados na grande noite, do grande sonho, em que Deus apontou-me o dedo e disse: “Ray, vá ao mundo cumprir com seu destino, vá para sua 4a tarefa, desça à terra dos semideuses”.
Acorrentado ali fiquei a olhar meu fígado ser arrancado a golpes profundos, e quantas vezes não quis escrever o meu The End, mas estava preso meu pulso, eu era apenas um fato de estar enganado, eu podia estar em um engano, um desacerto de decodificarão, aí eu criei o “Deus dos Deserdados”, dos desamparados do destino, inspirados em Becaffumi. E ele meu Deus, me saíra Seven-Up, não possuía a seriedade necessária para um Juízo Final, aí pensei: “Pois é Becaffumi não tomara coca-cola, não se podia fazer um Deus sério, atrás de um carrinho de cachorro quente, ou atrás de um balcão de jeans.
E João Carlos me dizia: “Ray, o que lhe falta é talento, por que não pinta abstrato? Quem não sabe pintar, pinta abstrato”, e ria. Perguntei-lhe e o fundo de minhas calças puído de dez anos de sentado, a fazer e a criar algo que fosse meu, que não fosse Surrealismo ou Expressionismo, ou outro ismo qualquer, não vale nada? Meus contrapontos, minha loucura, não vale nada?
Mas tudo porque eu tinha medo! Medo de me tornar humano, diminuta figura de papel, por maior que eu fosse herói, eu representava meu próprio personagem.
Sentia meu discurso crescer, via a necessidade do humano, do discurso humano abandonado, em outros tempos, e outros lugares percorridos, parte de mim foi ficando pelo caminho.
Chovia copiosamente e sem poesia, era uma água fria, minha companheira de noturnos divago olhares iluminados com lâmpadas incandescentes, a olhar se por ali haveria uma brecha, em todo escudo, que escondia um amanhã que nem ao menos sentia-me no direito de conquistar.
Eu um microcosmo, sonhava um pulsar, tamanha era minha energia de procura ao macro-cosmo, saía a mostrar uma nova maneira de compor, um novo movimento, um movimento que a cada torção gerasse uma tensão, e este explodisse em energia, meus quadros possuíam força, eram assustadores.
Longos dias natalinos, a loucura do precisar vender, pois possuía um castelo a construir com tijolos, e estes estavam a tomar chuva no pátio de minha obra, havia ali telhas e caixa d’água, portas e janelas em minha garagem, todas a gritar, a querer seu todo indivisível chamado casa, era seu ser conjunto, seu corpo arquitetônico. Vender ou liquidar? Com este infinito estoque de marinhas, naturezas mortas, e coisas que um louco ali rabiscara, grafites de ditirambo, contando nossos dias e transformando tudo em massa corrida e cimento, tudo em função de um sonho, idiota.
O castelo era nosso tigre, ele nos mordia a bunda a cada vez que deixávamos de correr, teríamos de correr para sermos maiores, mas maiores, do que o que? Que tamanho tem um homem? Era meu infra-égo a responder, uma resposta que saía em meus gritos sucessivos, que tamanho podemos ter se cada passo que damos tropeçamos no amanhã, um amanhã de covas rasas, pois nosso ser comerciante sofria ansiedades, e se o mundo não gostasse de nossos quadros do projeto quatro? Se nosso plano falhar, eu me provar sonhando a cem quilômetros da verdade, Fabricantes de Sonhos! Ou mero comerciante de fatos e atos humanos, era assim o prosseguimento de nossa sonora sinfonia, era assim nossos contrapontos.
Hiromi, quase uma semideusa, com toque de Midas, e tudo vendíamos uma quantidade de quarenta quadros no mês de novembro, cinqüenta no mês de dezembro e vendíamos o ano todo. Enquanto em brumas escuras o tempo corria, e distendia em um fluir contínuo, em busca de espaço nos quadros em nossa vida.
E pela primeira vez vi-me de meia idade, a cumular capital para um amanhã, e eu me assumia de chefe de família, a luta não acabara ainda no natal, o meu The End, estava atrasado, meu maquinista dormira na cabine, minha pipoca a muito havia se acabado. Via-me de volta a meu complemento nacional, um humano genético, um filho, a soma de ser nós dois, nossa razão familiar. Meu dia a dia exigia somas cada vez maiores, e construção assim tão grande demandava tempo e espaço, me contorcia a cada vez que um ou outro me esticava por contorções agônicas me dilatava, em resposta ao impulso gerado, e os alicerces começavam a subir, onde ontem fora mato, blocos a subirem por rampas íngremes, areia, cimento e suor, eram usados como argamassa, uma caverna prisão, ou um centro cultural, de dois artistas que nem herdeiros possuíam.
Um aluno voltara a caça de um sonho perdido, e me perguntava se poderia ter aulas, e disse-lhe que sim, pois eu fora professor, para que? Se não fora apenas por simples vaidade, mas eu convencera uma classe, e pude lhes passar a localização da abertura, por onde os olhos veriam o paraíso, lhes mostrara como direcionar a loucura, e ser um louco racional, intervinha assim em suas vidas.
Que fazer quando o signo é descoberto, e sua linguagem alcança uma média de oito em dez, o homem é apenas uma mancha descolorida em busca de sua alma, seu santo Graal, pois se é preciso de uma razão para tamanha carga, torna-se pesado demais. Eu me sentia falando a uma juventude em seu grito primal, ali ao longo do quadro Catarina, ficava outro quadro, o do anjo da guarda, ali ficavam dois signos a serem decodificados, ficavam a descoberto, cabia a quem dizer qual era o falso.
Quanto de mim era falso, quanto era planejado? Havia ali alguma realidade que não fosse do dia a dia, do vencer o aluguel do fim do mês? Ou blocos e pedreiros em movimento, a custar o que não possuía, os alicerces levaram todo nosso dinheiro, e eu precisava muito mais, e fui ser corretor de imóveis, intermediário entre uma artista e um japonês, louco entre dois gumes, necessitado como água no deserto, fui corretor em busca do que faltava-me e me movia qual marionete, movido por liames monetários.
Nós tínhamos pressa de tudo, de ter um filho, de ter um lar, e de sermos felizes, pode-se ser feliz conscientemente? Com peças montadas, datadas e planejadas? Me via a andar pela casa nas pontas dos pés, a sorver um vinho, não acordar Hiromi, pois ela dormia, era madrugada, e ela sonhava com seu novo lar, em sua montanha.
Os gatos faziam amor em meu telhado, com muito barulho, quase tantos quanto faziam meus pensamentos, em busca de uma resposta, seria este meu caminho, seria esta minha variante, viver e pensar, contraponto que me consumia, crendo arauto de uma geração com tostões no bolso, tentando ser grande, queríamos nossa variante humana. Vendendo casas, quadros e a nós mesmos, nossa alma era pelo diabo recusada, dinheiro! Fomos nós em busca dele, onde quer que esteja, a qualquer preço, íamos buscá-lo -.
Éramos aventureiros de uma vida cantada em fases. Éramos um Zumbi a caça de emoções, onde estivessem lá estávamos, tínhamos histórias demais, herança nefasta de dias de liberdade, histórias pessoais demais, meu interior clamava em altos brados, alforria, mas eu era um técnico a dominar emoções, internamente meu coração pulsava externamente uma armadura de couro e ossos rugia dizendo limites, aprisionando espaços, forçando a um encolhimento dolorido, seria gritado, mas não fosse abafado, pela noite.
Como era inútil esta minha vida, visitando noite após noite, por fantasias de coisas passadas, sem função, nexo ou destino, vivia apenas uma ansiedade, não uma vida, era uma saga, este cinza cotidiano, este vácuo em que caminhava, noites adentro a ouvir gatos a fazer amor, almas perdidas na noite em convites a morte e ao abandono, enquanto vagava de um ao outro atelier, do centro à minha montanha, pela Rua São Luiz perfumada de damas da noite, em sua calma noturna, a pensar, a tentar responder um teorema chamado vida.
As paredes de nossa casa tomava forma, subia em busca dos céus, meu castelo! Eram peças infinitas, blocos infinitos, dinheiro infinito, enquanto o tempo passava, esgotava-me, eu chegara ao limite. Fui a andar por São Paulo, ver amigos, pedir dinheiro a parentes, buscar uma resposta, uma alternativa em que minha alma não fosse o preço, de volta ao Embu a pensar em portas e janelas, quadros família, e dinheiro, nada acabava, passara já um ano e alguns meses, e meu espaço, e ser, já estavam estourados, pensei em acabar com tudo, com meu casamento, com minha construção, carreira e jogar tudo por uma janela a que não olhasse nunca mais, e gritar fim.
Saía a pisar duro, com orgulho ferido, justiça, eu lutava com minha alma, meu ser humano contra meu ser mecânico, meu ser indivisível se atomizara. Fui a São Paulo a andar como robô, mecânico a procurar algo ou uma resposta, com as baterias arriadas, caminhava, olhando, com água a escorrer por meus ossos, um frio navalha, eu procurava uma resposta, por quê? Rua Augusta e Jardins percorridos caminhara até o TBC, a caça de uma alternativa, que não fosse feminina, que fosse algo meu. O que era eu! Meu ser místico unitário, uno, não mais fragmentado, descobria finalmente, eu me tornara dois.
Possuía agora uma necessidade de produzir quimeras, coisas que saíssem fantasias, que saísse arte por arte, uma sonora sinfonia, de ser só arte, e nada mais ser. Sem signos, sem emblemas, sem emoção,mas descobri que eu não era Ad. Reinhard, não me satisfazia sem sentido, o só fazer, o vazio. Ter perdido toda possibilidade de linguagem não me satisfaria, eu me encontrara fracionado, um erro no regime interno, e via meu cotidiano desmoronar enquanto meu pedreiro pedia madeira para um telhado, quem sabe me separo da Hiromi, quem sabe não teremos mais um filho, não mais seremos os mesmos, íamos ficando apenas. Era-me um teorema edipiano, um xeque ao rei, e ele louco a convocar a confrontaria, a tentar sair do xeque.
A noite em que me decidira se ficaria com Hiromi ou não, ela me diz: “Se vai levantar leva um cobertor, é noite e faz frio, e se fizeres chá eu aceito um pouco”. Levei o cobertor e fiz um chá de camomila, ela dormira, saí e coloquei os fones de ouvido para não fazer barulho, enquanto decidia se ia embora, terminar tudo, e mudar, terminar meu casamento, sair de xeque, com algum orgulho. Me senti um perdedor. Mas os fatos me desmentiam, eu conseguira boas vitórias em minha vida, isto era um fato.
Medimos a vida por fatos ocorridos, caminhos com fatos, linhas demarcatórias entre o ir e o ficar, eu desenhara quimeras absurdas, dúvidas cotidianas, e estas decidiam meu futuro.
Desenhei meus nadas, espaços a ser percorridos. Tinha que acordar amanhã era uma segunda-feira e tinha que relegar as caldeiras infinitas, energias volumosas, em escassos tempos, tinha eu uma montanha a mover com homens e máquinas, remover a natureza em construção de um abrigo, não passava de um ser humano, com humanas necessidades.
Recebido socorro meu barco volta a navegar, por entre recifes financeiros, mais madeira mais cimento, e as paredes buscam os céus, meu castelo já possui sua torre, e prestes a receber o teto, fui ao Pirajus sara, um bairro pobre, a caça de material mais barato, fui a todos os lugares em busca de tudo que fosse necessário, neste castelo de ferro e cimento.
Minha tese começara a ter sentido, vendíamos também em janeiro e fevereiro, continuávamos em espiral em busca do toque de Midas, vendíamos já metade de nossa produção, chegávamos próximos de Bhrama, nosso ser se contaminara de ouro, materializamos metais, nossos sonhos realizavam-se, vendíamos sem um estilo, tão poucos fazem isto, quanto tempo era preciso para se tornar um semideus. Era esta uma busca incessante, enquanto no Olimpo os semideuses se atacavam a socos e pontapés, atrás de um balcão resistência, na padaria do Toninho, perguntara para o poder!
O vácuo me arrastava, insano e irresistível, era o fator humano este Senhor dos entremeios, entre o começo e o fim, situava-se o ser humano, e isto nos arrastava por corredeiras acidentadas. Era possível o ser não possuir importância alguma, e se a única realidade fosse o estar? Seria possível que a vanguarda não possuía força para alterar a realidade? Não possuísse o ciclo necessário à interferência? O redemoinho girava, e com isto demarcava uma trajetória, alheia a nós, alheia a nossa vontade, esta era uma geradora de fatos, insanos rodamos, rodávamos inconseqüentes, batíamos em infinitas paredes, girávamos sabe-se lá para onde, até que alguém me perguntou: “Vale a pena ser artista? Passar fome, viver duro, pelas sarjetas, sem um cheque especial, sem um cheque três estrelas, eu não saberia viver sem o melhor”. E contava-me casos infinitos de driblar o gerente do Itaú, com cheques do Bamerindus, na República dos Borrachudos, o tempo em que o cheque era o maior atleta do país, e neste tempo louco, qual era nosso preço? Que me seria de fato o objetivo de uma vida, e se Hiromi uma hora não subisse no palco? Se ela não decorasse seu papel, como ficaria nossa peça? Como encalhar em um entreato idiota, podia ser na estréia, podia falhar em qualquer lugar, são os atos humanos.
Insanos e instáveis são os atos humanos, ficava-nos a disciplina de correr em busca de nossa morte, a construir para que ao menos um a memória ficasse, era a realidade de uma vida, arrastar sempre para o dia seguinte seu último dia, eternidade, um signo a caçar seu destino de símbolo, apenas mais um dia na eternidade, era tão pouco por uma vida tão longa, mas nada é fácil quando oito bilhões de pessoas querem consumir o mesmo produto, o mesmo fruto, de uma só árvore, nessa vida que é tão pequena e carrega tanta incerteza.
Era noite e os gansos davam seus gritos agônicos, noite afora, a dizer estamos vivos, eu pensava em minha pequena família, nossos atos gerados, espontâneos e sem razão, nossas sagas tinham de ser desenhadas, eu, e os gansos, éramos figuras da noite, uma sinfonia a ecoar no vazio, uma desesperada busca de não se estar só, esta sinfonia se prolonga por toda a noite, com coros de cachorros, a ladrarem, faltava silêncio na noite. Diziam-me que meu trabalho era felicidade, diabo de paraíso, porque dói tanto ser feliz, ou éramos nós que desafinávamos em nossos contrapontos? Saía desafinada, sem melodia, com apenas um desejo de acertar.
Tropeçamos na família, que saída? Fico em xeque, paro as máquinas e tudo emperra, parece que nunca mais vai funcionar, executar um projeto na terra das artes, um redirecionamento, para uma trajetória ideal, uma volta no parafuso. Dez anos se passara da última vez que estive aqui, vivi, e ajudei em seu desenvolvimento, dez anos para uma decisão de voltar, e de novo instigar a mover peças, a compor uma ode de desencanto, vamos acordar, pois a caravana já é uma cidade, e como tal exige uma infra-estrutura, os nômades hoje são burgueses, e são os senhores comerciantes.
Dois homens devem estar acordados esta noite, pois creio que o Hugo também tinha seus claros, também ele tinha no viver ideal, e isto conflitava com o cotidiano familiar, ao menos o Espinardi escolheu a certeza do emprego, assim dorme, é uma cidade difícil, de homens difíceis, a construir a peça que será a decoração do amanhã em qualquer casa burguesa. Tornara desenhista de móveis o Alcir, isto lhe calaria o coração e todos sonhamos sermos grandes, mas qual era o tamanho de um artista? Dormíamos semideuses, e acordávamos comerciantes.
Eu e meu gato, noturnas figuras a perambular, por uma casa vazia, a pedir respostas, sobre céus e terras, sobre vida e morte, e se estivéssemos vivendo a vida de uma maneira errada?
Noites em que a montanha se torna um vulto a nos assustar, em sombras frias, e uivos noturnos, íamos nós a fabricar sonhos, e tecer teias coloridas e de preferência com alguma gota de orvalho, em busca de um Santo Graal, como faz meu amigo da casa de tintas Maranhão, a construir um templo, uma obra faraônica, Embu é uma fantasia hollywoodiana.
Cada dia mais dinheiro, menos saldo no banco, tempos de dívidas, e foi assim que fomos à disputa de um salão de artes, medir forças, para saber de nossas certezas, somos ou não artistas? Quanto nossas imagens são sólidas de mensagem, de forma, de signos e significantes?
Viviam os monstros sagrados da crítica, velhas carcaças a dormir entre a passagem de um quadro a outro, Deuses? Schemberg, Rossi e outros viriam, a lançar moda, a recusar de cada escultor desta cidade, seria realmente um acontecimento. Uma aventura fantástica era o que se estavam desenhando, com herói e vilões de verdade, movendo-se na idade, em busca de algo que não fosse o caviar oferecido pela Prefeitura. Em quanto tempo se transforma em semideus?
Sentamos na feira, interferindo no ser e no estar das pessoas, íamos abrindo caminhos, abrindo picadas coloridas, era só ver os caminhos que percorremos nos quadros de Hiromi, era um objetivo sem tempo determinado, sem espaço que nos servisse de apoio, éramos sós em nosso propósito, um niilismo puro antecedeu a decisão de continuar, mesmo que só restos de coração habitasse o peito.
Vive-se de qualquer jeito, morre-se por qualquer frase, viver é apenas uma ruptura no tempo e no espaço.
Via assim a M.A.I.S. Embu sofrer sua primeira crise, sua diretoria não mais fazia uma unidade, havia ali disputa, não mais havia um ideal, descobrimos que a massa que moldara os semideuses, era a mesma nossa massa. Cientes que só problemas era, esta viela que chamamos destino, dirigíamos a ela com olhos abertos, senão como chamar Eldorado tamanha trajédia-trajetória? Um ano passara, e agora preparamos nossa mudança para os porões de nosso castelo, com torres de Eternit, locadas em um buraco-palco, no Jardim Mascarenhas, ali onde sonhamos um castelo de cristal, surgir porões de blocos e telhas de Eternit, por comum acordo eu e Hiromi decidimos chamar aquilo de nosso lar, era nosso filho, feio e desajeitado, era nosso filho, nossa cria.
Foi assim que ganhamos nossa primeira faixa de semideus, entramos com todos os quadros no salão de Embu, íamos provados para nossa quarta fase, planejávamos já nosso 2o ano, e este sofria os reajustes, de uma nova realidade, era preciso parar as máquinas, para a manutenção, desligar os fornos, parar os tornos, era uma orgia de atos e fatos, a serem analisados e tomados como prioritários planos, não se pára um carro a cem km por hora sem riscos.
Mas precisava, aí fui ler a resposta do Hugo sobre a recusa de suas obras no Salão de arte do Embu, ali vi quão pequenas são nossas derrotas cotidianas, alentado fui à luta.
A Rose crescera, e começara a montar seus próprios jogos, havia nisto vitória, tínhamos assim nossa noite de poesias, sua lauta festa de arranjos e acertos, era seu jogo, minhas estátuas não mais de mármore, pois estas já começavam a me abandonar, eu iria bater palmas.
Foi um sucesso, até o prefeito ali estava, uma noite de brilho, uma noite louca, foi assim que o teatro mágico se fez, abrindo o peito e repetindo frases que sua máscara ditava. Assim fabricamos máscaras pela cidade, o J. J. Saíra crendo em Deus, e nós apenas míseros fabricantes de sonhos, a vender um sobrado na Rua Joaquim Santana, para o Sr. Hiroshi, era tudo peças que montadas teria de ter sentido. Troquei minha equipe de pedreiros, coloquei um mestre de obras, o Joca, para fazer meu castelo cumprir prazos, sem dinheiro, sonho-meta, nada mais que uma fantasia, muitos tigres corriam-me atrás, eu tinha que ser criativo, cumpria meu papel, e assim fazendo cumpria meu destino pré-concebido.
Eu sonho um dia dar um grito, aquele que me fica na garganta, quando em depressão, não tenho coragem, este me fica interrompido no gesto, na intenção, na cor que sai contrastes fortes, na cor eu grito, no físico não, tenho medo que o eco derrube meu castelo, e nada reste. Embu, Terra das Artes, aqui tudo se cria com avidez e fome.
A noite ficava eu e meu gato a arranhar caixas de papelão para diminuir as garras, enquanto eu em folhas de papel, noite após noite, meu eu, inflava, eu tinha que me programar grande para ser grande, afinal não afirmava várias vezes que o homem possui o tamanho que pensa ter? Corria em busca do nosso.
Uma casa nova, um ponto novo, um novo estilo de viver, uma vida que para que tivesse sentido, não apenas uma atração, um estar a frente de nós mesmos, para dar tempo de revisão, em caso de enganos.
Eu de novo parei em frente ao nosso manifesto e pensei se cresci, ou apenas vivi. Ouvindo Pink Floyd, revia um passado, preso ao tríduo momesco onde eu era o rei momo, com falsos ouros, com falsos brilhantes, e ria a dizer que o mundo era meu reino, qual era hoje meu quadro? Vivi ou apenas cresci? Hoje, de meia idade, com incertezas, com alguns hiatos de dor, outros de fantasias, ser e estar, é a solidão humana, queríamos uma nova forma, um novo conteúdo, não estes vazios insolúveis, com certeza de morte.
Hoje sabíamos mais que ontem, e nossa certeza de ter vivido, eram as coisas que fizemos as que atropelamos, em nossa ânsia de viver.
Nossos livros encaixotados, com medo de mudar, mas meus pés e meus atos já mudaram, eram meus móveis e meus pertences que recusavam a fazê-lo, olhava meus quadros e pensava se minha luta era necessária.
Meus cheques já iam para as mãos dos agiotas, meu saldo estourado, meu castelo a pedir verbas, a imobiliária do S. Bassith a perguntar-me se os pagaria a todos, era assim meu agito momesco, e eu rei momo, usava minha barriga para rolar a dívida, a escrever um estudo para tese, tudo isto é necessário para viver? A cidade recebeu mais um empurrão, todos os escultores do Embu foram recusados no Salão, preparava-se uma guerra, dois grupos se engalfinham, o ambiente é de guerra civil, e nós olhamos, observamos para aprender. Agora mudamos para o nosso castelo, em nosso espaço, em nosso castelo sem piso, sem mármores, com portas emprestadas, janelas emperradas, mas nossa casa, um ano e quatro meses se passara entre o projeto criado e executado, devendo a todos, ocupamos, nossa casa temporária, pois isto aqui será apenas um atelier, em meu castelo. Paguei o Bassith, paguei a loja de material de construção, e corro para pagar minha irmã, olho aqui sentado em minha sala, e pergunto se isto é vitória?
Saímos e vemos em nossa volta uma pequena chácara no centro da cidade, a espera de ser um Centro Cultural, meu! Egoisticamente meu! Mas isto tudo não tem mais importância, porque aqui cai o pano, encerra-se o primeiro ato, público a aplaudir pediria a volta do ator, se isto fosse possível, mas não é não nos seria possível repetir de novo a peça, não repetimos as peças, outro ato é outra fase, e no momento escrevo o próximo ato, como semideus. Alçamos nosso grau de semideuses, pois tudo isto foi possível em um prazo de um ano e meio, os seres humanos normais demoram anos, e mais B. N. H.s, caixas e pecúlios, nós levamos no peito a execução do plano quatro em prazo compatível com milagre, e se é milagre, trabalhou ali um semideus, ficamos um ano na feira, vendemos em um ano duzentos e setenta quadros, compramos nosso novo atelier, e saímos da feira, moramos em nossa casa, e passou-se um ano e meio, paguei todas as minhas dívidas, e pregamos em nosso peito, nossa insígnia de semideus, conhecemos o toque de Midas, e isto não vale mais que valia antes, de nosso mergulho, quem sabe deve-se deixar o tempo correr.
Fui sentar em meu bosque, e olhar os pássaros, plantas crescerem, quem sabe algum dos habitantes do meu jardim possa responder, se isto nos dá o direito de sermos artistas.
Iluministas inauguraria eles, a era do conhecimento na guilda, nosso Iluminismo, com Argentinos aprendemos trabalhar couro, com Chilenos aprendemos metais, com Bolivianos cerâmica, veio ainda a Asteca nossa primeira acadêmica a assinar do Embu, depois veio o Rossi, o primeiro acadêmico a colocar quadros no chão da cidade, vi tudo isto acontecer dizia me o Rony, enquanto tomava seu café,
Passou ele nosso herói, este período pintor, deve ter pintado uma vintena de quadros, pois por uns dez anos este movimento ferveu na cidade, e o mundo veio visitar o Embu, nos tornamos uma marca, éramos geradores de arte e cultura, pela terceira vez, agitávamos a guilda com arte, éramos reconhecidos no mundo inteiro, sentei em mesas de todo tipo de gringo que aqui passou,conheci muitas mulheres, morava com elas, ate que um dia, me pegava aqui, sentado a conversar com o Dunga, depois com o Paulo Son, todos nós aqui na guilda, como cigarras, compúnhamos e pintávamos as festas e colheitas de nossas vidas, enquanto esperávamos os gringos no fim da semana, (Neste período o fluxo turístico havia aumentado enormemente, por aqui já passavam umas mil pessoas por semana, muitos estrangeiros e Hotéis graças as andanças dos primitivos por São Paulo nos colocam em seu calendários de turismo, ganhávamos uns trocados, que era a conta de continuar a viagem, vida de praiano.
E a vida, foi passando me dizia agora comendo um pão de queijo, pois um louco fluido é um homem frugal, vive com muito pouco, somente o necessário, os acadêmicos apagavam as memórias dos do Embu, ¨ como todo presente apaga o passado, eles foram se apagando, enquanto nascia o quarto período embuense, os tempos modernos, começam então uns vinte anos depois dos acadêmicos, ele e o Paulo Son, ou mesmo com o Poeta que veio depois da morte do Dunga, encostávamos ali na Rua Joaquim Santana, no muro de pedra, e vimos chegar os Antiquários, começa com Marco Mariano, e a Anita, que por muito tempo patrocinou os primitivos, e também construiu o cenário, caipira para suas propriedades, construiu a casa Branca e também o casarão Vermelho fez a Capela de São Lazaro tudo isto em pau a pique, foi o Tempo de Ana Moyses, a Aurora, da Azteca de Raquel Trindade, Solano Wanderley Chiuf (este Expressionista) e muitos outros, por estes tempos todos já tinham se tornado monstros sagrados os Dinossauros (do Embu).
Estamos então nos anos oitenta havia por aqui ateliers de pintores tais como, do Ray e Hiromi, do Josué do Josan, Cacipore também o Agenor, e muitos outros, que não freqüentavam o centro da cidade, estavam nas chácaras. As galerias, começam com o Erik,um Uruguaio esperto como um gato,e com este novo time que vemos desfilar os acadêmicos, andam por aqui nesta época o Cacipore Torres,o Josan o Rossi os Irmãos Caetano, chega Takebayashi ,o Josue e seu irmão o Moyses, com eles começamos os tempos modernos , deixamos de depender exclusivamente do publico,as galerias passam a nos prover de uma parte de nossos custos,assim como o Marco Mariano proveu os primitivos, o Erik proveu os nossos primitivos e acadêmicos,sua galerias se tornaram um mostruário da produção Embuense.
Estava eu na Mais Embu, (Associação dos artista da cidade) que consistia basicamente no bar do Aurindo, onde íamos comer nosso Arrumadinho, e tomar nossas cachaças, me chega o Rony, lhe peço para contar-me de artistas do baixo clero, aqueles que não eram as estrelas, mas que compunham o universo Embuense, começa ele a falar-me das artes dos artistas, pois neste tempo já somos (Das Artes)
Crônicas de um Rebocador de Piratas
Um dos Ribeiros
A noite Embuense, è louco passeando em museu, A maldita cachaça só foi bater,quando cheguei dentro do convento, fui ali ouvir um concerto de musica sacra, pois estávamos no festival de inverno na cidade, justo era, pois o bar do Aurindo era logo em frente ao museu, e eu havia prometido a minha Japinha, ser bonzinho, e correto, e beber pouquinha, mas aquelas pingas com certos trecos dentro, s[:1] ão danadas, sai do bar, desci as escadas, e topo em minha frente o Baiano com sua panelada, La estava o Tarcisio, o Grego e o Toninho cozinheiros uma panela de ferro de uns cem quilos cheia de carnes de porco, de vaca uma mistura que deram o nome de vaca atolada, farinha e um prato de papel, uma colher de plástico e o jantar o prato da ocasião, vaca atolada, depois de umas pingas, cumpri o programa, jantei e fui para o museu.
Tão falsos quanto vendedores de felicidades, esta família sobrevive de pintar, como primitivos, pintam.
Também ali vivem os piratas, e eu com meu rebocador a prestar serviços, pois nas horas improváveis sou um rebocador de piratas. mesmo ali dentro do convento , senti o cheiro de piranha , e eis que aparece o danado do “Ferferes”ou Nando um dos Ribeiros, só depende da situação, se posa de Deus do Olimpo, e diz ter a pena mágica .
Encalhou em uma operação errada, fez um falso testemunho contra mim, pôr cem dólares que nunca recebeu, de outro mestre dos mares, o Assis branco, outro Assis com a mesma sapiência, que a cada fome não satisfeita-me entrega os seus quadradinhos colorido s, (Quadros) que vai para minha galeria de arte, ali coleciono as almas dos meus piratas.
Uma danada de piranha, ele é, que a cada vez que estendo a mão, tenta comer meus dedos, e que não larga uma idéia, nem debaixo de pancadas ,que todos que o conhecem , tem que aplicar-lhe como corretivo, leva sua surra regularmente.
Senti que algo batera, dentro de um templo, ouvindo o coral do Embu, embevecido de antigas sonoridades , o individuo me chama , quer falar comigo. Sou profissional saio do templo , sabendo estar sendo jogado em uma fria .
Me pedir desculpas, até perdão pela fria em que metera com seu testemunho, prometia de pés juntos arrependimento, queria me vender uns quadros, que ele ainda ia pintar. Eu lhe respondi|
(Ô Ferferes, você pinta primitivo, abstrato eu compro de outro artista, de você só figurativo, e ai você me vem com abstrações, cadê o quadro que quer me vender?.)
Mas o justo nunca é tão estreito que não possa caber mais uma alma, ele vira e pede-me cem dólares, por um milhão de Deuses jura ira entregar-me suas obras. A culpa é do Aurindo meu taberneiro ,não devia vender aquelas misturas,com cobras,frutas e chifres destro das garrafas,aquilo é veneno não pingas .e ele estragara minha audição de cânticos gregorianos,ia me levar os cenzinhos ,não ia pagar-me , eu teria de dar-lhe uma surra como outros faziam ou simplesmente ,pedir para que morresse.
Em um impulso de livrar-se de parasitas dei-lhe o dinheiro feliz de sair dali, de livrar-mede tão incomoda figura que dedicaria seus dias, a cada vez que me visse dizer que ia pagar-me e tentar de novo, vender-me quadrinhos coloridos, que ele fazia com maestria, com sua pena de ouro, com seu pincel mágico, no outro dia, eu estaria de ressaca, com certeza, a mistura me faria mal com certeza, Noutro dia estava eu e o Josue, encostado ao muro do casarão vermelho o nosso louco chega, e vai aos falando de sua saga. La pelos anos noventa ,o Martins da Yara, começa a trazer antigas rodas de carroças, carros de bois,carroças velhas,uma sucata Rio Grandense,e começa a construir com estas velharias, moveis de estilo rústicos,moveis para gramados, beiras de piscinas, víamos este movimento agitar a cidade,era outro o publico,que nos loucos vivíamos a manguear, para o próximo pito,ou uma pinga,vimos assim o terceiro período florir,passou talvez uns trinta anos de Assis,ele foi o criador do terceiro ciclo,o “ das Artes”
Um dia sentado no bar do Toninho, eu tomava uma pinga ,e ele chega, senta em minha mesa, pede uma cerveja, e lentamente começa a contar-me do ciclo dos acadêmicos na cidade, de seus personagens, de suas loucuras cotidianas, da briga do Zé com o Assis ali mesmo naquele bar, para disputar quem era dono da (Mais Embu) trocaram socos e pontapés, em meio de mesas e cadeiras, era noite de galos, disputas de terreiro, naquele recinto sagrados de embebedar-mos, o Toninho era uma referencia de bom senso, e ali os artistas se reuniam e bebiam, nesta cidade sempre se bebeu muito, se fumou muito, a vida era lenta, e a cidade pequena.
Por este tempo já temos vários ateliers na cidade, e uma galeria de arte do Erik um Uruguaio malandro, vê nesta cidade um vasto campo de possibilidades, ao lado de alguns antiquários, mais uma centena de artistas agora já reunidos em uma associação de classe chamada Mais Embu, a cidade ferve. Peço ao Rony,para ma contar daquelas esculturas abandonadas La no terreno da igreja,a apodrecer a céu aberto,treze esculturas morriam sob entulhos em abandono,ao lado da igreja,havia um palco de Exus e outras entidades,que um dia fora faraônica,mas que agora não passavam de um retrato de abandonados Deuses caídos,e foram cair em frente ao seu concorrente,ficara curioso,peço lhe outra cerveja pois temos muito tempo,me relata ele,provavelmente aquelas esculturas ilustrassem melhor o período acadêmico,assim como as esculturas gigantes de Jaldo Jones ilustrassem o tempo dos Dinossauros, em gestos teatrais,com voz de Jogral,começa ele a contar me daquele amontoa de ferro e aço que compunha o Panteon de deuses caboclos.
O ciclo (Das Artes)
Um conto Espiritual –
Um dia, como soi ser, estes lindos dias, da glória do senhor. Um professor de matemática do segundo grau recebeu a luz, e ela lhe dizia ”vá para o Embu ser artista, e lá comece sua dinastia.” Isto dito, pela luz, pareceu importante para aquele humilde professor,
Veio e aqui, se instalou, em um terreno da igreja, era uma cidade pequena, com muito espaço, e verde, nesta o populacho não passava de umas dez mil almas. Ali havia o Solano Trindade, havia o Assis, a Raquel Kanbinda, ainda vinha poetas, e artistas, de São Paulo, era um grande recanto perdido em meio a mata Atlântica.
Este nosso grande artista em um momento de êxtase espiritual, ao ver a Raquel no largo dos jesuítas, a dar um Show de maracatu, exclama arrá! Bate sua mão fechada, contra a outra em concha, e exclama, Meus Orixás, o Eric do lado lhe pergunta ”” que se passa ombro! ”Feliz ele exclama, a luz, vou fazer doze Orixás, grandes os maiores do astral, ”Bueno, Jô abrire um gran restaurante em homenarrem”. Passados vinte anos, o Eric recebe em seu restaurante, o Deus do Rock Mike Jaeger, para um almoço em seu restaurante chamado Orixás”
Passadas as longas noites que o tempo foi comendo inexoravelmente, nosso escultor, passa a trabalhar, a compor suas sinfonias de concreto e ferro, elas cresciam, em porte, muitos outros ARTISTAS VIERAM ajudá-lo na empreitada, deveriam competir em grandiosidade com o Brecheret, afinal fora uma luz que o pré determinara. Quantos vasos de cimento sua indústria produziu para pagar tantos ferros e cimento! Uma, a uma, como filhos foi a terra gerando as obras, o terreno dos jesuítas ficara pequeno, foi seu marchand em busca de um espaço para a mostra daqueles filhos da floresta, em concreto e ferro, pesava elas cada, umas duas toneladas. Em busca dos céus tinha elas uns três metros de altura, era um artista grandioso, como sói ser os enviados do senhor, messiânico em cada artigo que publicava antecedia estes de versículos bíblicos, como um messias de cabelo grande e negro, uma espessa barba, Toni troava saber, em um pequeno vilarejo com pretensão de virar cidade.
Saltitando de feliz, seu Marchand finalmente lhe comunica: ”Vamos expor seus santos no Jóquei Club de São Paulo, prepare os moldes que venderemos centenas deles ”Foi assim que uma caravana de caminhões partem em direção a Capital com seu precioso valor. E monta-se a exposição, mas o presidente daquela corporação, insensível a arte dos Deuses, de duas patas, pois em seu universo o mundo inteiro possuía quatro patas. Manda retirar aquele lixo dali, ”Coloquem no Pátio juntos ao material de construção que é lá seu lugar”; e assim foi feito. Indignado, com o indigitado sujeito, nosso artista manda recolher seus Soldados, ordena a retirada para o Embu.
Uma segunda chance é o que todo homem merece, afinal a primeira vez sempre nos deixa nervosos, e erramos, mas o tempo comeu mais umas noites, e ao acordar, nosso herói é chamado de volta a realidade, ainda temos que expor no Rio de Janeiro, e temos que produzir convites e catálogos, e pedir dinheiro emprestado para fazer uma segunda exposição, para o transporte das obras, prepare os moldes; lhe disse todo animado o marchand, vamos explodir no Norte, e foi o comboio para o Rio de Janeiro, mostra o plantel do Candomblé, a luxúria de seus Deuses “crioulos” em ferro e aço, em uma cidade de Mamelucos, o sucesso teria de aparecer, afinal era o Rio de Janeiro.
De novo o fracasso, a critica não o criticara, a cidade não parara para ver seus deuses, triste a abandonado pôr seu Marchand, pede mais dinheiro emprestado, desta vez para transportar a razão de sua arte, os Deuses deveriam voltar para o Embu, pois aqui era seu lugar Mas...! Como tudo nesta vida tem “um, mas”. Seu marchand resolve não devolver-lhe as peças, decaído espiritualmente, volta ao Embu, e relata ao Assis suas desventuras, o Sr. Assis diz “deixa comigo!”, fala ao Alexandre Kadunk grande radialista, que também não concebia a vida sem Embu, a ao ar foi contado as rádios começam a pedir daqui até o Rio de Janeiro, por pressão, o marchand devolve as peças do nosso artista. Voltaram tristes e cansados, tão cansados que não conseguiram enfiá-los de volta no terreno dos Jesuítas, deixaram-nos em frente ao convento, em praça pública, a ocupar uma área de uns mil metros quadrados, na porta da igreja, infeliz idéia, ou desespero, nosso ínclito personagem, não saberia dizer, tudo que sabia era de suas dívidas para com o banco Itaú, sua produção de vasos pôr anos não cobririam estas dívidas, achava que alguém deveria ajudá-lo. Afinal ele era um artista, o grande artista da cidade.
Mas o mundo é cruel, e parece querer rir de seus profetas. Quando a madre superiora vê aquele monte de Deuses Pagãs pousados em seu quintal. Aqueles representantes do diabo a arvorar em frente seu convento tombado pelo patrimônio Histórico, um monumento, da arquitetura cristã, de vassoura em punho sai a espantar, aquele bando de deuses que ousou pousar em seu quintal, arrola-se o prefeito, chama-se o delegado, e promove-se uma brigada, para empurrar Exus, e Orixás, para dentro do terreno dos jesuítas de volta, a serem escondidos, pôr traz de muros altos, e assim limpou-se o pátio de sua terceira tentativa de exposição, suas obras não acharam seu espaço no mundo, encontrara apenas um canto de pátio e serem amontoadas. Indignado nosso artista não crê mais na Humanidade, e ali mesmo, na porta do convento grita para a Madre Superiora, ”você retirou as minhas peças, pôr isto não pago mais seu aluguel, tente me tirar, e veja se consegue”.
Noites e dias o tempo foi comendo, até que se passaram quinze anos, e nosso Artista comemora junto com seus assessores, sentado a meia noite na porta da igreja seu dia de posse como secretário de Turismo, de uma cidade chamada Embu. Crescera criara uma família ao lado de seus Orixás, fora ao Japão representar os “Desunidos do Embu” agora com cento e cinqüenta mil habitantes, pôr ele a meia noite passa o Padre Celso abraçado a Yara, entram na igreja para confissões noturnas, nossos três amigos ali na porta tramam seus planos de governo que começaria em poucas horas, e foram dormir com um sorriso de quem tinha dado o maior chapéu no Ray, “afinal ganhamos uma daquele babaca”, era o nome daquele sorriso, ao amanhecer, sem ao menos acordar, nosso herói chega a seu gabinete e ali está um delegado federal; o que você sabe das esculturas da igreja ”ele demora pelo menos uma hora para saber que na noite anterior fora roubado da igreja três esculturas no valor de Hum Milhão de dólares, e ali estava o delegado para resolver o mistério.
Prendem a pobre da Yara, prendem o Pato, e o padre Celso perde sua paróquia, é chamado de volta os jesuítas, para a cidade, a nova ordem, pergunta o que é nosso, e em seguida querem de volta suas terras, ai nosso artista descobre que faziam quinze anos que não olhava suas peças escultóricas, e o despejo é certo, o novo pároco move-lhe uma ação de despejo, mas ele diz ”Vingar-me-ei” e ao ser despejado não leva suas esculturas, e desafiadoramente diz não haver na cidade homem com colchões para remover tantos Deuses, e para trás larga suas crias, já a esta altura sem conservação alguma, todas detonadas pela ação do tempo, eram Deuses eruditos, passados todo o tempo na chuva e no sol, sofreram toda a corte, a ação do tempo, e estes o estavam matando-os. Assim começou a via sacra dos
Deuses.
O Super-Herói da cidade é um rebocador de piratas, vinte anos a desencalhar artistas, loucos e Dai mistas, em uma rotina cotidiana de seu ser, e existir, procura salvar seus irmãos da perdição dos desejos da carne, enfim! Um Santo! Tendo pôr amigo, ou melhor, entre meus melhores amigos, estão o jesuítas, por eles eu possuo o mesmo respeito, que cultuo para com todos meus irmãos, isto posto, dizem-me:
”Ray, nos tentamos que o Sr.J. levasse para ele suas peças, a igreja tem o direito de dar o fim que quiser a elas, por lei, são nossas, oferecemos de graça ao prefeito, ao secretário da Educação, ao Parque Ecológico, ao Sr. Fábio Feldman, secretário do Covas, mas ninguém quis as peças, que fazemos, estamos alugando o terreno, não sabemos mais a quem recorrer.”
Eu pensei em princípio alugar o terreno, e ali fazer uma galeria de arte, com espaços para esculturas, visto quem em minha galeria isto não é possível, mas o aluguel seria mais uma fonte de preocupação, visto o comércio local ser sazonal, mas ficava então as peças, que segundo penso, em seu conjunto valem uns duzentos mil dólares, estão a apodrecer, abandonadas em meio a entulhos de material de construção que a Juraci se encarregou de jogar, uma pá de cal, sobre as peças. Um ano e meio já se passara da mudança de nosso herói, do local, em nenhum instante voltou a olhar ali seus deuses abandonados, estava ocupado sendo Secretário de Turismo, comprando sua quarta chácara morando em uma quinta no centro da cidade, era um pobre coitado como se denominava, sem dinheiro para remover a razão de sua fama.
Bom! Bom! Bom! Estão abandonadas! Eu aceito as peças, façam-me um documento de doação, registre-o em cartório, e eu arrastarei os Exus e Orixás, morro acima e levarei para meu Centro Cultural, pedi ainda um mês de prazo para a remoção, deram-me quinze dias:
1* ato, pedi meu amigo João Andrade, seja meu porta-voz pôr favor, vou entrar em meio a uma guerra, e preciso de um porta voz de confiança, não é que o louco aceitou!
2* ato João vá ao senhor J.e diga assim ”As peças não são suas, não são dos Jesuítas, são do Ray, e ele vai retirá-las e levar para seu Centro Cultural, Você quer elas de graça para você, ele lhe dá, se você se comprometer em retirar em dois dias, ele manda o documento de doação sair em seu nome, depois disto saí no nome da empresa dele e adeus.
3* ato, sentei em frente a meu computador coloquei um jogo de Xadrez, e fui jogar uma partida com minha máquina, precisava testar meu nível de atenção, minha limpeza de raciocínio, pra saber em que estado emocional eu me encontrava, para iniciar esta jornada, ganhei a partida contra meu computador, eu tinha calma e tranqüilidade para pegar meu cajado e ir ao Faraó, contar sobre as pragas do Egito.
Esperei quinze dias a chegada do documento, neste ínterim, tive um encontro com o Sr. Fábio Feldmann, ele era o secretário encarregado do Parque Ecológico, que um dia eu coloquei em um programa de governo, e ganhamos o governo, fizemos o prefeito, depois coloquei ao Almino Afonso, quando para ele comandamos sua campanha na cidade, depois coloquei ao Walter Feldmann, secretário do Governo do Covas, quando para ele montamos um comitê eleitoral, para que fosse deputado, e finalmente pedi ao Covas quando este visitou minha galeria de arte, em campanha, eu era do comitê de recepção dele na cidade, e eu e meu filho corremos esta cidade daqui até o Santo Eduardo, pedindo voto em festa. E finalmente eu podia fazer um bom projeto de governo, e fizemos, eu o J., o Alemam e o Ciro, sentamos e fizemos o melhor projeto de governo na área de turismo e cultura, ganhamos nosso Parque Ecológico o fechamento do centro da cidade e finalmente um teatro na Praça da Lagoa o Puccini nos entendeu, e fizemos uma maquiagem nesta cidade, meu Parque Ecológico fica em frente obviamente pôr acidente, ao meu Centro Cultural, daí porque doar tais esculturas a este lugar, o Fábio Feldmam mostrou-se interessado, passei-lhe meu cartão e esperei.
Retirei-me e fui rezar, fui para nosso ritual de feitio de Daime, isolei-me para melhor pensar, e pôr dois dias trabalhei como escravo a macetar raiz, a fazer o caldo, que acalmaria meu coração. Com o documento na mão, tirei uma cópia, e pessoalmente fui a fábrica do Senhor J, a sua secretaria, eu entreguei a cópia que ele havia me pedido, como prova de que eu possuía seus Deuses, e removi duas peças.
4* ato O Sr. J. Chama nosso porta voz, e pede trégua de dez dias, para ter tempo de me impedir, eu lhe respondo, dez dias eu não posso dar tendo em vista só possuir quinze dias, o que posso fazer é atrasar o máximo a retirada, chegando a encostar ao meu limite de tempo, e arrastei mais duas.
5* ato Sou avisado por nosso porta voz, que nosso nobre artista, esta me ameaçando fisicamente, além e lógico de todos os processos do mundo, e pede para que eu não lhe dirija mais a palavra, pois não pode mais responder por seus atos, aqui encerramos o ofício de nosso porta voz, como disse o João, aqui o demitimos.
Arranquei mais quatro esculturas do Chão, eram guerreiros pesados, fortes e orgulhosos, foi preciso quebrar as suas armas, pois senão não saiam do lugar, aprendi que não se carrega guerreiros inteiros, o guerreiro só se carrega quebrado, ou morto, isto eu aprendi, ao arrastar Exus morro acima. Voltei ao meu feitio, na minha floresta meus Deuses clamavam por mim, faltava ainda duas esculturas a serem arrastadas, nosso problema chega ao Secretario do meio Ambiente do Governo do Estado, e este pede uma solução, nesta altura já era manchete por toda a cidade, as charges feitas pelo Alemam, inundavam a cidade, toda uma edição do Fato Expresso e dedicada a causa, e finalmente em um fim de semana de chuva, com minha rua escavada para fazer o calçadão do centro da cidade, após doze anos de trabalho, eu faltei um domingo, peguei minha família e fomos fazer Daime lá na floresta, acampados comendo sopa de ervilha eu meu filho e minha mulher finalizamos o ritual, felizes por poder trabalhar, voltamos, para acabar o arrastão. Com meu filho em cima do trator, a puxar correntes, a arrastar Exus, me chega a secretaria do meio ambiente da cidade, perguntando em nome do Feldmam, se eu podia doar para o Parque Ecológico, as esculturas, disse-lhe que sim, e que me proporá desde o primeiro instante, chegamos a um acordo sobre as condições da doação, e prometi-lhe entregar o contrato dois dias depois, meu filho acompanhando todo o movimento me pergunta” Pai! Nos temos mesmo que doar as esculturas? Eu não quero dar não. ”A Minha esposa também não, o João também não, ninguém quer que eu doe estas esculturas, mas fiz o documento, e entreguei no prazo previsto, e assim eu o Rafael e o Ju, em cima do trator, sorrindo felizes, arrastamos a última escultura, eu e o Donizete, meu tratorista, fomos tomar nosso conhaque, nos merecemos depois de tanto trabalho, paguei a conta, fechei o caso da remoção.
Fiquei a aguardar, uma semana que dei de prazo a Secretaria do meio Ambiente, para que me desse o documento assinado, o Z. não queria que a doação se realizasse, disse que telefonaria ao Feldmam dizendo todas as esculturas estão quebradas .”Não aceite a doação” fico sabendo que o prefeito não quer as esculturas em seu Parque Ecológico, a secretaria da Rispah, me pede mais uma semana, e diz que o Feldmam quer as esculturas, meus vizinhos articulam uma revolução por minhas esculturas, por meu muro, e por suas flores que passei por sobre com o trator, quebram a espada de uma de minhas esculturas, e começa uma guerra de quarteirão, sai o segundo artigo de Z. na imprensa local. mas ele não é o Kadunk, estava mal assessorado, e não percebe as sutilezas envolvidas, em cada amigo ao lhe falar, não houve mais nem sua família, não houve ninguém,.
Encerrado o prazo dado, ao secretario do Governo, contrato pedreiros e vamos, montar seus pedestais, o Sr. João pede para falar comigo da parte do Z. e brincado se diz nosso garoto de recados, rimos e ele me fala: ”O Z. quer agora as esculturas! Promete ir aos jornais e desmentir tudo, assinar o que você escrever, a respeito do caso, refaz seu muro, e retira as esculturas em dois dias, de seu quintal, se você doar-lhe suas esculturas”
Minha resposta foi a seguinte: ”Até podia lhe devolver, mas ele me chamou de ladrão por toda a cidade, colocou cartazes em cada logradouro comercial, mostrando-me no ato de lhe roubar a carteira, me chamou de pixote incapaz de dar guarida a seus Deuses, enfim como pode manchou meu nome por esta cidade, até ao Governo do Estado, se eu lhe devolver agora as esculturas, dirá ele amanhã, que eu roubei, e tive de lhe devolver, não podia correr este risco, jamais estas peças lhe cairiam nas mãos de novo, e que dava o caso por encerrado” Tranqüilo e com a paz no coração, fui montar pedestais, aos Deuses que mudaram para meu quintal, pedestais e lagos de pedras pra acolher o que para mim não passa de obras de arte, para outras pessoas, a representação de Deuses na terra, que todos nos possamos um dia ver beleza, nesta batalha que se encerra, e dou por encerrado o contrato de reboque dos Jesuítas encalhados. As vezes os filhos de Deus, tem problemas do diabo a resolver aqui na terra, ai então o criador em sua eterna sabedoria, contrata um diabo, para resolver os seus problemas, e desta vez o contratado fui eu, como soi ser tudo nesta terra,
Eu o João,o Josue,ficávamos sentados ali na rua Joaquim Santana,a ouvir o Paulo Son contar –nos suas viagens, sonhos e musicas,com seu violão cantava seus icaros,o Dunga vagueva pela cidade a procura de uma droga qualquer para ficar louco, e como um paria que se perdera o tempo sua roupa, seu ser, e o seu pensar não mudara,olhava a Yara , a Janine, a Ana Moyses, e via o tempo que passara entre minha ida, e volta a esta cidade, Por aqi nos nãos oitenta passou todas as grandes celebridades do Brasil,e muitas do mundo,criamos um fenômeno nesta terra,a qualidade do que aqui era produzido era admirado no mundo todo,estávamos nos museos do mundo,e éramos a Meca dos mochileiros. Estes espalhavam o mito de Embu das artes pelo Brasil e America,ali de nosso espaço víamos a via sacra diária,os caminhões a levar e trazer mercadorias, o Agenor, e o Alcides rodavam o Brasil em busca de novidade para abastecer as Cabanas do Jacarandá, e do Guarani, que eram assim que chamavam seus impérios aqui construídos.
Por aqui se falava muitas línguas no domingo, o Eric com suas Galerias dominava o mercado, seu acervo era astronômico, e a tudo que era produzido na cidade estava ali representado. Construíram mais uma pista na BR.116,deixamos de ser uma aldeia perdida no meio do mato,e passamos a ser uma cidade de beira de estada,de fácil acesso,e isto contribuiu muito para nossa popularidade
Assim comecei minha obra máxima,a construção do centro cultural,que foi assim narrada.




FARAÓ
TEM UM, NO MEU QUINTAL
Olhava o espaço falava com ele, dava ordens, direcionava seu destino. Era sua vida ,a ocupação do espaço, um castelo aqui, ali uma torre, acolá uma masmorra, sua pirâmide, seu sonho ia rasgando o espaço, como uma nave espacial ela havia sido projetada, nunca nada seria igual, o mundo mudaria a partir dali, o seu mundo.
O tempo, transformara-o em apenas uma unidade abstrata, de saldar dívidas, de pagar contas, de dar comidas a unidades operacionais, pedreiros e serventes, o mundo mudara desde então, não bastava pão e azeite, tinha que ter um radinho de pilhas, tinha que ter coca-cola tinha que
ter televisão
Carregara blocos de cimento, como escravo carregara pedras, em busca de meu horizonte, que a cada dia, era mais distante mais duro, e mais denso, calejara mãos de artista, em busca do concreto, e do seu sonho realizar.
Como uma besta, latas de terra nas costas subi morros, degraus de concreto, a que dei nome de arquibancadas, e o circo mandei construir, era importante ,meus leões um dia iam querer comer, um cristão, como coroinha segui as regras do senhor Jesus, e busquei um caminho justo, tornei-me fã de Eclesiastes.
Penitenciei-me iconoclasta que fui ao maldizer a sorte ou ao destino, a mim concedido, justo e honrado vergastei-me em busca do perdão, de penitente. Mas o horizonte era uma fixação, era uma iconoclastia, era uma imanência, era uma questão de viver o meu direito, ao livre arbítrio.
Via a imperfeição de mim, refletida em minha pirâmide, via minhas falhas e defeitos em minhas paredes, via cada face oculta que um dia tornaria meus fantasmas, meu futuro e justificativas, estampavam minhas paredes me chamei “Barroco” por pura falta de tempo, ou dinheiro para fazer maneirismos, para ser “Rococó” tinha que correr, o tempo me caçava eu era uma presa.
Faraonicamente sonhava pirâmide, audaciosamente construía castelos os quais minha família se perdia dentro, mas para mim, dentro de mim, eram pequenos, pequenas conquistas de um pobre cristão, candidato a sanduíche de leão, blocos de concretos, areia e pedras, os calos amigos cotidianos de minhas insônias, me faziam humilde, a beber cachaça, a feder suor.
Por dez anos como um monge entoei ladainhas, do que era, do que seria, as críticas deixavam marcas em minha alma, mas humilde dizia o tempo é o senhor da razão, e fui crente a acreditar em sonhos, a correr atrás de ilusões que um dia seriam cotidianos, mas que na presente data não passava de loucuras, mas aprendera, que loucura era apenas uma coisa fora de seu tempo, ou de lugar, e minha especialidade era andar na contra mão da história.
Por dez anos fui construindo um sonho, fui amontoando espaços, criando dependências, subindo paredes, por dez anos fui o fantasma do castelo, calado fui construindo o que seria minha marca, em uma cidade que nem se dava ao trabalho de ver, ou verificar se valia ou não a pena fiscalizar, construía um castelo sem licença dos órgãos competentes, eles não acreditavam em mim, não acreditavam-me capaz, não se davam o trabalho.
Riamos, eu e meus pedreiros, quando os víamos a rodear nossa obra, a se perguntarem o que faziam aqueles loucos, respondíamos, “Estamos a construir um viveiro para codornas” e minha pirâmide já estava a doze metros de altura, as paredes rasgavam os céus, e ninguém tinha coragem de abordar-me e perguntar, o que eu fazia. Eu o Rasputim do quarteirão, não possuía o hábito de dar respostas, ou explicações, me sentia acima da lei, pusera a lei a meu serviço.
Por dez anos a fazer política, a construir imagens de Alcaides, de Ed ires, estava apto a também entender como funcionava seu subconsciente, a prever seus atos, eu conhecia seus movimentos, e antecipava seus gestos, me cansara de fazer política, me cansara de ser humano, mas política é o curso do sucesso, e isto exigia uma observação constante, isto me exigia consciente, eu vivia na terra das artes.
Havia comprometido meu futuro, dez anos atrás, quando da decisão de executar o projeto Embu. Passara dez anos, foram sete exposições e dez anos de trabalhos forçados, trabalho de escravos, remamos como remadores romanos, jogamos nosso barco contra o mundo, em uma batalha sem fim, de ser o melhor, ou o maior dos microorganismos com ansiedade de ser Deus. No mínimo um Faraó.
Constatei que o mundo não tinha a vontade de meus sonhos, eram pesadelos sombrios, não continham cor de rosa, não possuíam amanhã, acordei muitas vezes com insônias infinitas, a perguntar quem mudaria, eu ou o mundo, eu mudara muito ,desde a época que tinha que levar tiros para ser razoável.
Foi há muito tempo atrás que nos chamaram os “fabricantes de sonhos”, sonhos de Faraós tendem a ser demorados, de tão pesados a memória demora a chamar, memórias de minha terceira vida, jovem revoltado jogava duro, a desconhecer barreiras que humano não derrubaria. Cabeludo sujo, e maltrapilho, me julgava Sansão, por entre os Fariseus, a memória demora a chamar de tão pesadas que são, meus pesadelos.
Naveguei por uma existência inteira, ousado como um Viking, a arrasar casas e coisas, para satisfazer as necessidades, minhas necessidades, de ver-me certo, de ter razão, o mundo deveria se ajustar a mim, meu ego foi rei neste tempo com uma bengala e um sagüi no pescoço, naveguei dez anos por todos os lugares a perguntar, a correr no encalço do Senhor Deus. Eu tinha algumas perguntas a fazer ao dito Senhor. Fiz isto como um penitente ali por volta de minha segunda vida.
Naveguei. Fui marujo de um destino, pré-determinado, um ocaso programado, minha pretensão, meu egoísmo dizia-me certo, eu era o senhor da razão, era navegador do tempo, como um imortal gastei meu tempo, eu me julgava imortal, e como tal me comportava. Gastei toda uma vida sendo Deus, o senhor de meu destino. Acorda-se lógico,! um dia acordei entre grades, eu estava preso, eu suspeito de alguma coisa, eu falava demais, alto demais, eu queria reformar o mundo, o mundo daquela forma, não condizia com meus meros sonhos. Por entre falsários, em meio a vinte presos tive que defecar em público, tive de comer ao lado de um esgoto, a que davam nome banheiro, e por três longos dias, aprendi que a reforma teria que ser mais ampla, que englobarias, novas facetas, minha visão prismara, ao sair por méritos familiares, ofendido e humilhado, saí de minha segunda vida, vesti outras roupas, procurei outro palco.
Assim grotescamente saí de gravata, me sentia um groucho Marx, uma sapiência a serviço de hilário, fui vender BNH, fui viver entre pessoas normais, fui ganhar dinheiro, fui ser normal. Saí a vender moradias, a entrar em casas, a ver pessoas, e suas contas bancárias, e também fui ser pessoa, de preferência normal. Peguei-me jogando xadrez com seres humanos, eu os compreendia e com e com isto eu vendia, fui um grande vendilhão, de templos, foi aí que mais me aproximei das pessoas, mas sabia que eu era um bicho do mato, durante três anos usando gravata, não aprendera dar um nó, sabia ser transitório este meu estado, sabia que uma hora qualquer perderia a pose.
Eu sempre vivera sozinho, sempre acreditara na transitoriedade de minha vida, os maníacos depressivos, são sempre pessoas sozinhas, eu lera por estas épocas o “LOBO DA ESTEPE” e de imediato sentira-me no personagem, um amor acabado, a vida ficara tão vazia que a morte era iminente, queria morrer e acabar com tudo, muito mais tarde descobri o quanto era perigoso o meu viver. O quanto minhas palavras, liberava em sonhos o cotidianos das pessoas, eu, o Carlos e o Avelino, éramos três suicidas ao ocaso, em busca de emoções, a qualquer preço, e em qualquer lugar.
Vendi imóveis, como se vende sonhos, e com o dinheiro paguei nosso sétimo céu, tornei-me arrimo de dois suicidas, éramos três loucos que se esqueceram de saírem da chuva, caminhando a esmo em busca de nada “niilistas” o mundo não nos preenchia, nossa sociedade era desmesuradamente absurda, loucos andamos por este estado, por este pais, em cada pasto, em meio ao gado, buscamos de nosso “Psilossílabos” nosso “Soma” em cada canto, em cada pedra procuramos em baixo, em busca de nossa felicidade, mas uma felicidade em aberto, algo que não fosse previsível caminhávamos na chuva, uma chuva “Ácida”.
Meu apartamento pintara de preto, uma caveira de boi pendurara por sobre a cama, um aquário na sala, um ópio na cabeça correra em busca de nada, em busca do vazio absoluto, eu era nada.
Um homem
quando alcança
certa idade
tem o direito
de confrontar
a morte em
paz
não necessita
de outros Homens
necessita é de paz
devesse desviar
de sua porta
como se lá
ninguém morasse.
Acredito que dizia isto, o couro que escrevera, e pregara em minha porta, tirara do “LOBO DA ESTEPE” foi assim que caminhei dez anos de minha vida, em busca do vazio absoluto, queimara meus diplomas, e quase queimei a minha identidade, ai meu racional prevalecera, eu mudei meu nome, passei a ser “Ray” simplesmente, mudei o nome para algo que não ficava nada, não queria significantes nem pesos a forçar minha vida, nós éramos livres, perigosamente livres
Eu, o Carlos, o Avelino, e o Wagner, resolvemos comer, beber e devorar tudo a que se desse nome mundo. Saíamos canibais, com fome de ser louco, o mais louco dos conscientes, uma loucura construtivista, com resultados práticos, para nada, não fazíamos nada, tudo não passava de continuarmos loucos, sentados ali na escadaria do teatro municipal, ouvindo Eli azar de Carvalho, a nos reger Valquíria, navegávamos por um espaço abstrato a procura de “Psilossílabos” de “Canabis” de moderadores de apetites, para em nosso caldeirão cozinhar um caldo de loucuras, em frente ao Mappin uma década ficamos, numerando “Clones” e “Ypsilones” passarem, ali loucos com seus medos e paranóias, éramos a razão do mundo, o seu porvir, éramos o seu amanhã, fomos a esperança do mundo.
Caminhei cego, guiado por cegos, por dez anos, atravessei o país atravessei cidades, como bode, saí comendo cada broto, que brotasse a mim, em uma trajetória filosófica, acreditei sempre que tudo isto tinha que dar alguma coisa, que não fosse pesadelos.
Ouvindo Pink Floyd, embevecido de Salvador Dali, fui a busca de poderes mágicos, de transformar imagens, o poder da leitura dos signos, a magia de transformar em imagens um subconsciente enlouquecido, fui a busca de cursos de arte, jogar xadrez começava a ficar sem sentido. Sentado madrugadas inteiras, eu, o Carlos, o Wagner ou Avelino, as vezes os quatro fazíamos bolsas de couro, para vender na feira que se formava ali na Praça da República, ou no Embu. Assim financiávamos uma loucura a quatro, noites a dentro chumbado de Mandrix, fazíamos bolsas .,e discutíamos a inutilidade como forma de protesto social.
Dormindo no chão por dez anos ajustei a minha humildade, ao caminho que ia trilhar, o caminho de nada, o caminho de não ser, um niilista militante, e procurei queimar o meu passado não ser, implica nunca ter sido.
Aos quatorze anos lera Platão, lera Sócrates, e muitos gregos mais, saíra negando a própria negação, como maneira de argumentar, aos quarenta e sete a ler Frei Beto, a ver cosmogonias o ser integrado ao nada, muitas noites de “Daime” passadas, o ser e o nada, torna-se cotidiano, minhas crises de tempo e espaço, quantas insônias. A vantagem da velhice é que adquirimos a máquina do tempo, passamos a representar a memória, e esta é chave de acesso ao passado, tornamo-nos guardiões do tempo.
Ali de frente ao teatro municipal, vestido de farrapos da moda, assistia uma megalópoles crescer, como uma criança, a sujar suas margens em enchentes infindas, olhava uma cidade crescer, acreditando ser um visitante de outro planeta, e curta minha estada neste planeta, eu fui onde a loucura pode chegar, amarrada a uma razão, um louco travado à lógica. Selvagem me pegava as vezes, tinha medo de mim mesmo, as vezes eu era um perigo para mim mesmo, um humanista em meio a guerras, a distribuir conselhos, a falar verdades fui o incomodo de minha geração.
Hypie num país em guerra, ia ver passeatas, onde um Erasmo Dias gritava no viaduto do Chá “Venham seus comunistas, eu vou matá-los a todos”, passeata na Rua Sete de Abril com cavalos a tentar matar-nos em gritos de guerra, me sentia Aristóteles de um general em guerra, eu era selvagem, eu era um perigo, e fui preso, em meio a uma revolução, fui feito prisioneiro, em uma noite infecta, de um passado incerto.
Sair da cadeia, foi por três dias minha preocupação, engaiolado, com estelionatários, fui sentar em vaso sanitário coletivo, comer com as mãos, se aquilo pode ser comer, para satisfazer minha ansiedade, meus sentimentos de conquistas e glórias, tinham que ser acalmados, do clube de xadrez eu saíra guerreiro, e esta adaptação as vezes é traumática, tão que me pegava sentado em uma sela coletiva do D.O.P.S., ali próximo a estação da Luz. Não me sentia culpado, e nem tão pouco vítima, eu era um peão, capturado, sujeito as leis de guerra.
Era uma guerra de um homem só, um Dom Quixote sem dignidade, e sem bravura, apenas um aglomerado de átomos e moléculas, a perguntarem por quê?
As vezes ficamos prisioneiros em nossa dialética, as vezes corremos atrás de nossas verdades, e elas são apenas o reflexo de nossas fantasias, o espelhamento de nosso ideal, mais nada. Havia uns vinte presos em minha volta, e eu não tinha culpa alguma a confessar, estética ainda não havia sido banida da constituição, e lá eu estava ,em meio a passeatas, apenas por deleite artístico, pois um bando de loucos fazia guerra em nosso quintal, ali próximo ao Teatro Municipal, onde loucos de cogumelos, ou beladona, ficavam a olhar amontoados de átomos e moléculas passarem, em busca de ser pessoa, em nome de sua prole, em função da cor de uma bandeira
Por três dia prisioneiro de minhas teorias, de minha sagacidade, das possibilidades de uma variante, de um xadrez armado, por minhas fantasias e convicções, fui autodidata de meu destino.
Em hora nenhuma, pensara em fugir, em hora nenhuma pensara nos policiais, estarem errados, foi-me triste admitir, que em alguma hora, em meu destino, eu estava errado, mandei recado a minha irmã, e ela providenciou a minha saída, por meios que até hoje não me preocupei, em perguntar.
Louco!, eu não era bom filho, não era bom irmão, não era bom amigo, eu era louco demais, o “niilismo” me fizera imune a sentimentos, e as emoções, eram algo a ser analisado, eu um jogador de xadrez, ia criar um jeito de vencer o meu dragão, de vencer meus medos, como me dera um livro minha amiga, eu tinha que me “Tornar pessoa” de Carl Rogers, eu honestamente tentara, em umas noitadas destas em Ouro Preto eu tentara, mas muito depois, descobrira que não tentara com bastante força, eu com minha lógica, não me convencera a me tornar pessoa, fora mais uma noite fria em uma cidade fria, de Ouro Preto.
Também em Missiones, lá na Argentina, fui a um cemitério, de mortos que não eram meus, a perguntar, a querer saber, se ali havia alguma verdade a ser observada, desenhei túmulos, e fui posto para fora de um país, a toque de caixa, e, setenta e duas horas, eu devia achar um pedaço do universo, que deveria me enfiar, ou ser preso. No Paraguai, fui ver índias serem fotografadas por turistas “Com peito, ou sem peito”, perguntavam em português de zona. Eu sempre me senti culpado, estar ou não em uma prisão, e eu estive em algumas, não era de fato o sentido de minha vida, eu vivia por viver.
Um rei cansado de sua majestade, era assim meu modo de encarar a vida, eu negava a própria negação, era um sofista, em que em algum espaço do trajeto, me tornar niilista, e isto era apenas um corpo em um eterno, girar, louco de ácido, fui ao sanitário, e ali descobrira o sentido da vida, eu , o Carlos e o Avelino, saímos correndo em busca do que parecesse luz, loucos descemos em todos os porão que pudesse esconder um diabo, e puxamos muitos rabos.
Como se dizer inocente? Inocente ou não saí da prisão, e desta vez com mais convicção, fui me tornar pessoa.
‘ Larguei o Kó, larguei o João, larguei o Hermes, e fui com o meu cunhado ser corretor de imóveis, troquei de roupa, cortaram-me o cabelo, o terno de meu cunhado, foi servir-me de uniforme, e fui eu São Paulo afora, a vender sonhos, casa sonhos, dinheiro abstrato do B.N.H.. Eu e o Mucio, fomos por toda zona norte, em busca de negócios, em busca de dinheiro, em busca de nossas comissões.
Sentado em minhas arquibancadas, com paredes de nove metros de altura, não durmo falta cobrir, falta jogar uma toalha branca em cima de um sonho de dez anos, construir dois palcos um não era suficiente para tanta fantasia, para o que eu penso ser a noite embuense, o homem possui o tamanho de seus sonhos, somos uma unidade abstrata com o poder de sonhar, um conjunto de moléculas que adquiriram os meios da autocrítica, um aglomerado de átomos pretensiosos, construtores de Deuses. Sentado ali sozinho, repasso os dias de fúria, e os dias de amor, só nestes palcos isto poderia se repetir, as vezes como farsa, as vezes como comédias.
Sentado no palco, repasso a estratégia combinada com o Ademar, finja de morto, e continue a obra, pois a prefeitura não quer liberar a construção, e repito a mim mesmo, ninguém vai barrar meus projetos, nem a lei. E subi paredes, e carreguei pedras, em busca de extravasar toda energia contida, pra dormir a noite.
Pintei quadros, tantos que até nós não sabíamos mais quantos, pintei todas as flores de meu quintal, pintei cada pedra, pintei o cachorro, trouxe cor e fantasia, a uma realidade, em busca de dinheiro, e meios de pagar tanto concreto, tanto ferro, tantas telhas, a tensão chega aos limites, quando briguei com meus pedreiros, valente ameacei e fui ameaçado de morte. Quando esta hora chega, é hora de parar, se acalmar, e perguntar, se é esta variante desejada, nesta partida de xadrez, que é um viver.
Passei a pintar dez quadros de cada vez, três moldureiros davam conta da embalagem, três vendedores, despachavam para o mundo, meus quadradinhos coloridos, eu os pintei tantos, quantos blocos eu precisei, se puta fui, construí meu castelo com meu orgasmo, e este petrificado vai servir as fantasias de uma cidade, a culpa é apenas uma péssima desculpa, para não se fazer, pois todas as variantes acabam iguais, em xeque-mate.
Um operário plástico, foi assim meu título, foi assim que me sentia, vivia a rebocar piratas, tirar-lhes os encargos, que uma hora qualquer, louco de felicidade, acreditou carregar, livrar-lhes das encrencas, aprumá-los, e dizer a direção que encontrariam eu Santo Graal, na cidade das artes.
Eu projetara um sonho de dez anos, mas a felicidade retarda o acordar, me pegava cochilando em cima da necessidade de fazer, o tempo fluir sem traumas, sentado na Rua Joaquim Santana, a olhar o mundo passar em meu quintal, vieram os Gregos, vieram os Troianos, e todo o mundo passava por meu quintal, tiravam fotografias, gravavam novelas, eu tinha um quintal museu, passavam borboletas obilubiladas com as cores do nosso estar, dez anos sentados na Joaquim Santana, a negociar quadradinhos coloridos com Japoneses ou Ingleses, nosso mundo possuía outro calendário, e o trabalho era um acaso, e não o cotidiano, sobrava-me tempo, de pensar em magia de freqüentar o santo Daime, de saber ser um louco controlado, socialmente exemplar, meu filho faria nove anos, por estes dias, meu teatro quase pronto, mais um tantinho, e teria de parar, fora feliz tempo demais, era hora de pagar contas.
Vestido como um crente, fui para a imobiliária aprender a vender casa, sob as ordens de um presidente do Rotary, fui ser um honesto e exemplar, do homem integro, entrar em lares alheios, a mostrar seus quartos, a mostrar seus quintais, a pessoas que não conhecíamos, mas que íntimos nos
tornaríamos até o final da negociação, vendi muitos imóveis, aluguei um apartamento, comprei um aquário, pintei meu quarto de preto, a cabeça de um boi descarnada coloquei na cabeceira, e ali após o expediente me enfurnava, fugia do mundo ,que eu conhecia por ler jornais, na imobiliária , entre um cliente e outro, e maníaco depressivo que era, planejei como me matar, um dia destes de tédio, ou vazio.
Foi neste apartamento que começar a pintar meu quadro definitivo, “O Manifesto dos Fabricantes de Sonhos” um quadro grande, um sonho grande, e ficara acertado que no final deste eu me mataria, o Carlos concordou, o Avelino também, e o Carlos Conte me deu o revólver de presente, foi assim que pintei em bico de pena o que seria minha última sinfonia, em minha tristeza eu era um homem convincente, continuava a ser um sucesso como corretor de imóveis, o B.N.H. era uma mina de ouro. Eu era um louco que podia pagar a loucura, portanto me sentia um cara normal.
Eu fui um bom corretor de imóveis, porque eu compreendia os sonhos de meu cliente, e possuía ousadia de retocá-los, colocá-los nas devidas proporções dos seus rendimentos, e financiamentos, eu não estava impregnado de ganância, tão comum aos vendedores, de sucesso, eu os compreendia porque não possuía sonhos, não havia nada em meu destino para amanhã, e o meu hoje era vazio de objetivos, eu era receptivo. Transpirava honestidade, pureza era meu sobrenome, assim fizera meu niilismo, minha vontade e o meu querer, era apenas vazio, caminhava o caminho do meio, como me recomendara Sidarta.
Minha mãe, vinha como toda mãe, que tem um filho da mãe, a cada dois dias, limpava a roupa suja, botava as mulheres na rua, não me dava um beijo, porque ela não era disto, e ia embora dizendo que voltaria, ela me amava a sua maneira, tendo medo de mim. Se eu próprio era o terror, de mim mesmo, que diria a olhos maternos, o monstro que criara, e ter de chamar meu filho, bom, eu dava trabalho, um trabalho seco e enxuto, eu mantinha meu prumo.
O tempo, e o espaço, eram para mim o aqui e o agora, saí a noite, e ia longe caçar, ia longe a busca de uma fêmea para passar a noite, louco na noite, solitário corri bailes de carnavais, corri Gari tão, Som de Cristal, a noite perdida ou suja, era a noite a ser vivida, e fui viver, corria as noites entre a Av. Ipiranga e a São João, o Cine Marabá, o Art-Palácio, eu vi São Paulo mudar, como vi mulheres mudarem de roupas, ia ao Teatro Santana, ver strip.
Entender pessoas é abster de julgá-las, o bem e o mal para mim era face da mesma moeda, eu pintava a estória de minha vida, em nanquim, em branco e preto, a espera de morrer. Eu sabia ser capaz de me matar, dois anos se passara, fora campeão de vendas dois anos seguidos, ficara famoso, e o Carlos me trouxe uma japinha, pequena engraçadinha, o rosto parecia um moranguinho, que todos queriam comer, fumava e cheirava, todas as fumaças de nossa casa, foi ver o louco que ia se matar.
As histórias pessoais tendem a ser entediantes, quando a vida tem sentido, mas a minha não possuía algum meu niilismo não me permitia seguir alguém ou uma direção, não possuía a quem me espelhar, faltava-me um herói, ninguém pode viver tão vazio e dois anos vivi a vender imóveis, a sair em busca de cogumelos, a criar receitas, para beber um suco com gosto de terra, cada dia mais eu precisava de loucura, ela hospedou-se em minha casa.
Era uma loucura sem demência, controlada, tanto financeira, quanto mental, era apenas uma busca levada em suas últimas conseqüências, a busca do nada, em direção nenhuma, as mulheres entravam e saiam de minha vida, com a mesma facilidade, impedido de amar, fiz da lógica companheira de insônias, buscava na razão a desordem, que era meu saber, buscava no caos respostas, que me satisfizessem e me tornasse pessoa, eu devia ter por ai uns vinte e oito anos, deveria de ter tomado juízo.
Não tomara! faltava-me fazer o telhado, faltava-me dinheiro, aceitei o primeiro emprego que me ofereceram, fui construir dois galpões industriais, uns mil e quatrocentos metros quadrados, para uma empresa italiana, a G.R. Importações e Exportações, comprei cinco mil e quinhentos metros quadrados de terreno, chamei o Ademar meu engenheiro, e fomos a luta, chamar tratores, fugir dos ecologistas, pois quando for para minha satisfação as regras não existem, e por dois dias de trator ligados adulteramos uma fotografia, recriamos a obra divina, alteramos uma paisagem, por cinco por cento, eu criaria para eles uma
pirâmide, mais meu engenheiro que também queria seus cinco por cento, olhamos a lei, interpretamos a lei, e assinamos contrato.
Meu teatro merecia, eu merecia, isto me pareceu suficiente, e fomos contratar homens e máquinas, de novo pela terceira vez, era para o Roberto Gozio, da outra fora para o Tairone Vitorino, com o qual, íamos criar a maior “Máfia” que esta cidade já vira, fomos a construir um cassino, era uma mansão cinematográfica, e foram três anos, e lá foram os sonhos, mas lá a casa ficara. Lá foi ele viver seus sonhos, de ser rei, de ser astro, em uma mansão cinematográfica. Não saiu um cassino, mas saiu o maior escritório de agiotagem que esta cidade já vira, viramos banco, em nosso escritório havia mais clientes que no Banco do Brasil, logo abaixo, rolamos dólares, como rola arte no Embu, aos borbotões. Ganhamos as eleições, financiamos a maioria dos candidatos, e elegemos o Puccini, após a posse o Tairone, interfere na prefeitura, pois noventa empresas, era o que ele administrava na cidade, e em uma reunião com o prefeito, alguém pergunta quem é ele, e ele ofendido responde “Você não me conhece? Até os vira-latas desta cidade me conhecem!” e sentou-se ofendido, nos fizemos história.
Mas um dia, como sei ser ,todos os dias, raptaram meu grande amigo, na porta de sua casa, com todos os seguranças olhando, levaram a ele e seu carro, levaram seu dinheiro, e levaram sua coragem, a fantasia se quebrara. A nova realidade, era que o medo tomou conta dele, e como disse-me uma vez o Cláudio de Souza Freitas” Intelectual não tem estrutura para pau” e ele não tinha, era rico demais para acreditar na necessidade de ser herói, deixaram-no em minha porta como cortesia, após lhe tomarem o dinheiro, e eu não estava em casa. A Hiromi o socorreu em seu desespero, chamou o João em seu socorro, e ali começara o desmonte de seu império na cidade.
Como analisar uma estrutura psíquica, sem ser parcial sem encrustar ali algo de seu, com que tamanha isenção, ou distanciamento emocional precisamos estar para entender sem interpretar, os atos humanos, o homem mais poderoso da cidade ruíra, a alguns rosnados e latidos, que pecado possuía sua alma, que se desmanchava com tamanha facilidade, o que sabemos nós, deste nosso poço sem fundo chamado alma, chamado” Ätmã”.
Passado alguns dias, começa o desmanche do seu negócio, coloca a venda seu castelo, volta para São Paulo, e agora passado três anos, eu ainda continuo a perguntar? Em que ponto rompera sua estrutura, com que modo tocaram tão fundo em seu ser, pra lhe imputar tamanho terror, que foi policiais, isto sabemos, da impunidade isto sabíamos, mas sabíamos disto muito antes, da impunidade das leis, vivíamos nós.
Ele chegou como o mais magnífico dos piratas, sua ousadia impressionou uma cidade, e a convenceu, em poucos meses tornara-se o príncipe da cidade, em pouco mais de um ano, impôs-se nos meios políticos, tal ousadia a cidade não conhecera ainda, pois somos uma velha e nova cidade, a aldeia tem quatrocentos anos, mas a cidade só tem trinta, e ele reinou aqui no centro, ao lado do Banco do Brasil, em frente a Prefeitura. Mas um gesto, um ato uma ameaça, e pronto, toda imagem se quebra, o solido vira abstrato, e a lógica não vale mais,
Perguntei a seus filhos, o que queria fazer o Tairone, sair da cidade, me responderam, e saído foi da cidade, e hoje ele continua meu contador, o administrador contábil de minha vida financeira, e fiscal, foi se reduzindo, até sumir, e sumiu em uma pequena cidade de um interior qualquer, onde pudesse passar despercebido, ele encontrara com seu terror. E este o deixara marcado para uma vida inteira.
Qual fora a imagem de terror que seus captores, lhe imprimiram para fazer-lhe tamanho estrago, conseguiram anular um homem ousado, transformaram-no em um coelho assustado, a fugir para o mato,ou uma cidade qualquer perdida em meio a um imenso nada. Eu nunca soube, não conhecia a profundidade de sua alma, o suficiente, sua fantasia de ser astro, sua vontade de ser deus, ruiu, e ele fugiu, do mundo e de si mesmo, era ele apenas uma pessoa normal, com sonhos normais, que se encostou-se a nós, e de sonhos a pesadelos, seus sonhos duraram uns três anos.
Somos fabricantes de sonhos, e o Tairone nos pedira um sonho, e ao Tairone entregamos um sonho, que ele não pode carregar, e muito pouco pode usufruir, Sonhos e pesadelos são as mesmas coisas, o que muda é nossa capacidade de absorvê-los, curti-los, e dizer nosso passado foi assim constituído. Apagou todos os seus traços, desfez todas suas marcas,e espalhou seu cheiro, para que caçador algum o pudesse rastrear, deixou-nos apenas a sua onipresença, apenas uma lembrança para o álbum de recortes, o guardião de nossos sonhos, é assim nosso passado, constituído de pesadelos, e fantasias desfeitas, e o pouco que eu entendia de pessoas, muito pouco pude ajudar.
O pânico tomara conta de seu ser, seus medos afloraram ao consciente, e inconsciente se tornara, queria apenas fugir, anular-se, e assim não mais o procuro. Não sinto que queira me ver, acompanho apenas as trajetórias de seus filhos, que alçam vôos solos, por esta vida, a administrar livros fiscais.
Com o Roberto, era mais profissional, era mais comércio, era algo monumental, era gastar cento e setenta mil dólares, lá fora eu! Em busca de pedreiros, de tratores e engenheiros, lá ia eu a fazer acordos, de levantar paredes, e ao mesmo tempo, fechar e cobrir o meu teatro, era muito material, era muito movimento, e “Daime” forças e dai-me amor para eu poder trabalhar,” foi acompanhado do “Padrinho” Sebastião, do mestre Irineu que em uma manhã de verão que mandei derrubar a floresta, botar abaixo o quem em nossa frente passasse, vinte e quatro horas depois estava encalhado o trator de tanta água que brotava do subsolo, paramos o trator, que venha pedras, vamos fazer drenagens, vamos atar as sangrias, mudamos o projeto tantas vezes, que ficamos sem projeto, fomos fazendo para regularizar depois, quando o italiano voltasse da Itália, e assim foi até o final da obra, quatro meses depois, ganhar dinheiro, esta era a tônica de minha vida, me tornara um classe média.
Ansiedade, era o produto mais constante em meu organismo, eu tinha pressa de tudo, queria acabar logo, queria fazer coisas grandes, pintar quadros grandes, estava com meu ego a todo vapor, estava me transformando em um faraó, me pegava faraó, quando Hiromi me dizia: “Seu mausoléu”, eu dizia minha pirâmide, e todos diziam minha casa ! Minhas três pirâmides, rasgavam aos céus, em velocidade meteórica, pois tinham que estar prontas em três meses, era meu prazo, o tempo que eu tinha, para correr de volta a galeria, para trabalhar o natal, nosso natal começa em setembro, e vai até novembro. Era meu ganha pão, o leite, de minha criança, mais ainda que era minha fonte de prazer, poder comprar quantos quadros quisesse, ou gostasse.
O poder, me dava o Daime! Dinheiro me dava a arte, a felicidade era meu lar, meu filho minha mulher, não entendia o porquê desta ansiedade, esta necessidade de correr, como se fizesse falta, alguma coisa em meu universo. Em minhas noites de Daime, passei a pintar, a contar como era ou seria o Santo Daime. Conversando com a Nancy, ela me pergunta senão posso mandar trator até nossa “igreja” para derrubar outra montanha, fé era posta em prática, derrubara mais uma montanha, eu devia ser um homem de muita fé, e nossa igreja ganhou uma praça, onde fazíamos nossa fogueira, para loucos de daime, adorar prometeu, chamá-lo de irmão, por nos ter dado o fogo.
Gastávamos mil e quinhentos blocos por dia, vinte sacos de cimento, quarenta sacos, de cal, e um caminhão de areia, todos os dias, como formigas a cantar uma ladainha, a cantar hinário, fomos nós vida a dentro, a criar entranhas, a inventar cabalas, noite a dentro do tempo, fomos nós a demarcar espaços, para meu filho dizer é meu.
Montei uma serralheria em meu palco, apenas para fazer as ferragens, foi assim que cobrimos nosso palco, domamos finalmente as fúrias, estávamos abrigados, eu finalmente possuía um teatro, e para ele transferi meus quadros, transferi minhas tintas, e passei a pintar quadros grandes.
Pois grande era o espaço conquistado, soltei um trator no pasto, meu predador tinha tamanho de um “Triceratopo” contratei dois engenheiros, contratei pedreiros, e subíamos dois galpões em meio a vacas, em meio ao brejo, subíamos a sede da G.R., em meio a mata, me telefona os fiscais, pois tenho o meu terceiro pedido de embargo em ação, urgia me explicar, faltava dizer que estava fazendo a fachada, de meu teatro, a meus vizinhos, por isto eles chamaram as autoridades, para pedir explicações.
Meu ego! Indignado gritei, o terreno è meu, a casa è minha, e a calçada do meu lado é minha, botem abaixo, subam as paredes, não há na prefeitura autoridade para parar as minhas obras, peitei a lei.
Minha história, é a história de minha ousadia, eu estivera toda minha vida a sombra de um vencedor, sem querer passar, apenas me mantendo, somente equilibrando, minha ansiedade não era a posse, mas sim o conhecimento, o saber como funcionava, passei uma vida nas sombras dos Deuses, antecipava seus gestos, roubava de suas carteiras, apenas algumas cédulas, apenas o necessário, pra meu custo operacional, em troca retornava-lhes em sonhos, nós fabricávamos sonhos, mas alguns sonhos descambam ao pesadelo.
Ao subir as treliças, soldar em cima do telhado, e acreditar em matemática, acreditar em si mesmo,, que não vai cair, por mais que a torcida grite, por mais que Marias chorem. Pois em cima vem ainda sete toneladas de telhas, olhava para cima tentando convencer a mim mesmo que eu precisava daquilo, para completar um sonho, o seu sonho! me dizia a Hiromi, nós aqui, eu e o Rafael vivemos apenas seu sonho.
Mais vinte toneladas de pedras, para fazer uma fachada, eu quero ali na pedra uma borboleta, na pedra ali, eu quero duas letras, um H e um R, o símbolo de nossa empresa, nós éramos uma indústria de quadradinhos coloridos, como dizia os adversários, os reis do pastiche, e meu pedreiro, fazia sua obra prima, indiferente a vizinhos, indiferente a lei.
A subida de paredes em meus galpões, foi algo digno de nota, empregamos toda uma favela, de pedreiros e ajudantes, em busca do céu subimos paredes, as minhas Torres de Babel, ninguém entendia ninguém, mas todos obedeciam ao maestro, era chamada de milagre, a nossa técnica.
Ficara difícil pintar, não conseguia sentar, a cabeça não parava no mesmo lugar muito tempo, para sanar isto ia a trabalhos de concentração, ou a trabalhos de cura, seis horas sentado sobre meu saco a pensar, a curar-me de todo mal, a estar com o Deus, a ser parte de um todo, chamado criação, o Josué e o João riam, lá vai o Ray bater cabeça, e lá ia eu em busca de vigor e energia, mas também tinha que acalmar meu coração, chegar em casa, amando minha família de coração aberto sem mágoas, sem dor.
Os trabalhos do Daime estão me mudando, eu percebo isto, senti que houve uma dilação em minha percepção, me sinto mais forte internamente, comecei a pintar a cerimônia, montar cavalete no mato e a morrer de frio trabalhar, rezar e trabalhar, sinto uma busca mais sólida, sinto que busco outra coisa, fui em busca de mestre para explicar-me.
Contratei para ser meu secretário, um sacerdote, um fazedor de Daime, o Gerson mudou para minha galeria, e passou a gerir meus compromissos, e a cada semana íamos a uma cerimônia diferente, passei a conhecer o que se fazia com Daime, em outros centros de estudos esotéricos, conheci magos e feiticeiros, conheci também as rainhas da florestas, com elas rodopiei noites afora no império de Juramidam.
Meu ego tinha que ser domado tanta energia nos atrapalha as vezes, nos deixa desarmados, para a convivência do dia a dia, esquecemos de afagar alguns gatos, dar pontapé em cachorros as vezes eles pensam que, é carinho, de tão carente que nos tornamos, as vezes, conviver com clientes, com empresários, com pedreiros exigia de mim ser artista, independente de pintar, me sentia artista.
Depois que coloquei o telhado, senti meu coração aliviado, pois uma obra completa sua terceira etapa, no telhado, e é aí que pode-se acabar o dinheiro, sem acabar com a obra, pois o tempo, a água e o sol, vai nos tirando a vida, lentamente, inexoravelmente.
Senti-me na obrigação de não fazer política, não podia dar-me o luxo de arrumar mais inimigos, disse não a todos que me pediram apoio, eu ia ficar fora ,um fora ,com pequenos detalhes, tudo em troca de não detonarem as minhas obras, não chutarem meus castelinhos de areia, e pedras, e ferros de tonelagens, era um acordo tácito, era um acordo de cavalheiros.
Nos tornamos invisíveis, minhas obras eram invisíveis, perante aos poderes públicos, empreguei uma favela inteira de pedreiros, e serventes, como foguista a alimentarem uma fornalha para meus monstros crescerem, eles corriam por entre andaimes, montes de blocos como sangue a correr no organismo, e a medida que os prédios subiam mais micros eles se tornavam, meu ego alimentava meus sonhos, e estes faziam o ego crescer, era meu moto-contínuo.
Cada dia ansiava por gestos maiores, por espaços maiores, me sentia faraó, e como tal, construía meu túmulo, no Vale dos Reis, na Terra das Artes. Em meio a um monte de pastiches, queria montar minha Cabala, da terra, da lama extraia minha vida, e minha vida era minha obra.
Mas havia arte na cidade, havia artistas, havia magos, teria que a todos respeitarer, eles chegaram antes de mim, fizeram a fama que usufruímos, não são bobos, e nem primitivos, mas que os ha! os ha! Passava por eles, bebia com eles, e com eles fazíamos guerra, a guerra do pode mais, a guerra do pó de arroz, ferozes e infinitas guerras, de qual lado da rua ,deve passar o turista.
Eu, o João, e o Josué, de nosso lado,causávamos algo na cidade, o Zé Figueiredo, o Aleman e o Ciro, de outro lado, éramos eternos problemas sempre a tecer intrigas, nesta pequena aldeia,estávamos a comandar protestos, nós fazíamos os novos tempos da cidade, éramos sua modernidade, vedetes de um palco renascentista. Mas qual dos lados também não se julgava assim? Acaso a pretensão è um privilegio de um grupo qualquer?
As televisões nos usavam como cenário, e muitas vezes como figurantes, cada um de nós tivera os seus dez minutos de fama, cada um havia conhecido a Europa, ou os EUA outros foram a França havia também os que já haviam ido ao Japão, mas eu tinha medo de alturas, eu tinha medo de avião, como líder de uma multidinha, com voz ativa no conselho da cidade, apontávamos nossa varinha de condão, e algo acontecia, vivíamos os nossos tempos, não mais o tempo de Solano Trindade, não mais os tempos do Assis, era tempo da Raquel Trindade, era tempo da Raquel Gallena, eram outros tempos, na cidade das artes, no vale do Ray.
Nós inauguramos os dias de glória da Brígida Sacramento, com nosso Partido Verde, nós inauguramos o Puccini, com sua modernidade, criamos heróis, ou chutamos os heróis do adversário, o poder da cidade nos era cotidiano, criamos a lenda ,Nivaldo Orlandi e sua Passarinhada, mudamos o eixo do poder na cidade, pretensiosos, brincávamos de ser Maquíavel. Por estes tempos o PT já começa a aproximar-se do poder,já elege dois ou três vereadores,os oligarquias embuense começa a perder espaço,a periferia hoje com uns cem mil habtantes,começa a favelisar-se.Graças as favelas retiradas de São Paulo e aqui instaladas,o poder começa a ser dividido, o Nilvamdo Orlande criara as associações de bairros ,e estas foram dominadas pelos petistas, o Geraldo Leite Cruz a Graça e o Paulo Gianini começam a aparecer e estes dois primeiros são reeleitos vereadores em seu governo, o Assis lança o movimento de separação da cidade das artes do resto do município,ele é o primeiro mais uma vez a olhar o futuro,ele vê que o ovo da serpente esta a crescer.
Enquanto posávamos de príncipe da nobre arte, de pintar quadros, e alguns de serem artistas, tais fatos e acontecimentos precisavam de um palco, eu fui então construir o palco, e em meu teatro, construí logo dois.
A construção dos galpões eu aceitara mais como desafio do que necessidade, eu sei, que precisava testar se eu sabia ou pensava saber, eu podia estar entrando em paranóia, e me acreditando o rei da floresta, o príncipe do Jangal.
Nestes momentos, eu precisava de um mínimo de concreto, eu pintava era um figurativo abstrato, assim vagava nas incertezas do destino, e isto precisava de certas confirmações, fui construir galpões industriais, era tanta a energia, que saí derrubando florestas e montanhas, apenas para satisfazer as minhas ansiedades e incertezas, me tornei a ervas daninha da floresta, e montanhas coloquei abaixo. Fabriquei um sonho para o Roberto Gozio, e ele propôs financiar-lo, assim olhava o monstro sair de nossos sonhos, e terra os paria, com blocos de concretos, e ferro, e cal.
Montei uma serralheria em meu teatro apenas para fazer suas ferragens, queria algo sólido e antigo, tinha que acompanhar o estilo, deveria se confrontar com pedras, ferro velho e retorcido, fui em busca das portas, atrás de vitros, construindo bilheteria, foi ficando pronta minha pirâmide, foi também ficando pronto os galpões, simultaneamente chegava eleições, chegava o natal. Deveria retornar a galeria, e eu estava agora com quarenta e oito anos, no trabalho de concentração do Daime, passava as vezes pensando, no que isto representava para mim, no quanto de tempo eu tinha para projetar outra obra, e qual seria esta.
Estava encerrando o projeto Embu, doze anos se passara, minha obra estava concluída, e o que pintava era apenas aventura, e como aventura freqüentava o Daime, e bebia tudo o que tinha direito, esta no caminho de apenas ser feliz, meu filho estava fazendo dez anos, e daqui para frente, não havia muito a fazer, daqui para a frente era fazer literatura, eu chegara ao direito de usufruir.
Passei a escrever a história de meus mega-eventos, eram sólidas cavernas concretas, todo dia comprar cimento, todo dia correr atrás de blocos, pintar, administrar a galeria, correr para o Daime uma vez por semana, dar acabamento no teatro, rebocávamos suas paredes, não conseguia mais pagar o aluguel da galeria, fui amontoando dívidas, e estas não me deixavam dormir, só louco, e assim resolvi ficar fora da política, e foi assim que expliquei aos meus militantes, e ao João passei o bastão dizendo o rebanho é todo teu, alimente e reconforte.
Pairei por sobre os acontecimentos, e faltei a quantas reuniões consegui, a outras tive de comparecer, e ia, mas mais manso, eu estava mais gato, bem suave, bem felino. O Assis não confiava mais em mim, aparentemente eu devia estar escondendo o jogo, ele pensaria, como pode um lobo virar ovelha?
A todos eu explicava o meu excesso de trabalho, o meu desgaste era visível, estava com cara de cansado, quando a Hiromi chegou-me a explicar que estava grávida, o mundo deu uma balançada eu estava fazendo quarenta e oito anos de idade, achava-me aposentado da vida paterna, meu mundo deu uma balançada, por três anos eu não havia me preocupado que a Hiromi queria um filho, fui pego como marido traído, louco de ira, pois acreditava que dezoito anos de casado , me dava o direito de participar de saber, o que tentava, fomos para a Bahia.
Eram férias, morrendo de medo, com pavor estampado na cara, dopado de calmante, subi em um avião, meu terror número um. Heroicamente, venci meus medos, me posei de pai, lá fomos para Porto Seguro, férias, uma semana que eu tinha para descansar, choveu! E foi assim em mais dois dias, eu
dava sorte, aos baianos, levava chuva a terra do sol, chegamos a Cabrália no dia de seu aniversário, com trio elétrico comendo solto a noite inteira, era uma semana de férias.
Terminara um dos galpões, era um record, com três meses criamos, arrancamos do chão um dos galpões, fechamos e entregamos a chave, meu teatro também fechava, tudo parecia correr bem, porque eu não estava feliz? Me perguntaram muitas vezes, nem com férias na Bahia, você fica feliz? Pode um Faraó ficar feliz?
O barco subia, descia, rios e mares, passamos nossos dias, a comer e andar de barcos, velhas caravelas de tempos modernos, conversar com pessoas normais, finalmente turistas nós éramos, o Rafael exercitava o que melhor ele faz, viver como um príncipe, e feliz pela expectativa de ter um irmãozinho para brincar, atravessei a Bahia pensando, como eu ia mudar minha vida, para ser pai de novo.
Voltar! Tinha que de novo subir no avião, meu terror começou ao sair do hotel, tomado de pavor, queria descer da Besta que me levava ao aeroporto, mas ser pai, è ser herói, branco como cera, retomei meu prumo, e com calmantes e dignidade, subi no avião que nos traria de volta, ao meu castelo.
Ao descer no aeroporto de Congonhas, peguei meu carro, das mãos do motorista ,e fiquei feliz por dirigir de novo em uma cidade como São Paulo, mas com pneus no chão, chegando ao Embu, respirei tudo aquilo que estava preso saiu, e feliz voltei a minha rotina, dos meus cinco empregos, e fomos nos dias seguintes comprar vaga no Hospital, para sua gravidez, eu voltei para o daime.
Fazia pesquisas, com daime, pintava cultos, descrevia seus rituais, e noite a dentro, participava dos rituais, de cura, da lua, e de todos os que eu conseguia tempo para lá estar, conhecia outras igrejas, e as freqüentava, em busca de conhecer, a eles e a mim, era uma busca que já durava uns quatro anos, minha casa passara a ser um posto de muda para daimistas que no tempo hábil não descera ao planeta Terra, dera o nome de posto de muda, a minha pousada, ali, suas diligências paravam as vezes para reparos, delas, ou o aprumo destes, para chegarem em São Paulo relativamente inteiros, e assim começa as histórias do que chamei minha casa.
POSTO DE MUDA
EM BUSCA DO DAIME
Havia noites, que o diabo postava no caminho, e não deixa passar, para lado nenhum.
Havia noites em que o daime saía, pela boca, ou outros meios, mas saía. E muitas destas noites, a rainha da floresta ria, ao nos ver empurrar montanha acima, nosso carro, o meio de transporte, de nossa vaidade.
Outras noites, os deuses diziam que não passaríamos, e toda floresta sentava na beira da estrada a ver os loucos carregar ferro velho montanhas acima. Indômita Malta devorava o ardor da montaria, e a montanha escalava com uma tonelada nas costas. Por desafios, tomar daime e combater, a si mesmo, em nobres combates.
Atores de uma ópera mística, em meio a selva, em noites de chuva, subiam montanhas, com o “coche” nas costas reis e rainhas, o barro, a lama e a loucura a todos pegavam, grudavam, só saía a vômitos, o Diabo tinha que ser vomitado. Daime não é algo que se tome sem uma conquista.
Como em um grande castigo, vai ele nos virar do avesso, nos limpar, e próximo a loucura bailaremos em volta da cruz, de caravaca, em torno de uma idéia, em volta de nós mesmos. Parceiros a meu lado, incorporam deuses, e heróis, em gestos tresloucados.
Tentam mover a terra, com sua fé ,e com ela não voltar ao ser humano, sonham eles abandonar o “cavalo” e só luz sua vida ser. Trotavam em minha volta, alucinados entrava em uma batalha, consigo próprio, ou com seu “Deus”.Minha pirâmide ficava no centro de três “igrejas”, todos os cavalos ,de uma maneira ou de outra, há um tempo qualquer, bebiam em minha fonte.
Chegavam estropiados, sujos de barro, com a alma rasgada, contava-nos sua história, como cavalgava uma Iara, até que a luz apagou-se, e a aventura lhe tomara o lugar, e a floresta bateu pé, “que não saía mais dali”.
Minha bunda “virara um chafariz”, eu vomitara todos meus intestinos, e aquela coisa grudara dentro de mim ria; a dizer que não saía, nem para cima, nem para baixo, lá fora o carro atolado, aqui dentro minha alma rasgada.
O hinário entoa, Jesus, Maria, José, minha alma perdera o ritmo, e dançar contra a maré, sozinho e ousado, embarcara nesta aventura, de peito aberto conclamara a todas as entidades da floresta, e do planeta, venha bailar comigo, aqui neste cruzeiro.E as entidades vieram, e com elas veio “peia” justo em mim, pensara no pé da árvore, parado na noite a tentar vomitar, aquela coisa grudada , meu parceiro e guardião, me oferece um pedaço de papel higiênico, em um gesto de solidariedade.
Mas quem limpa meus pecados, senão eu mesmo? Agradeço, volto ao campo de batalha “aqui reunidos neste salão” ainda entoava em meu cérebro, quando na porta esperava o fim do hino, para voltar, ao meu lugar, a trotar como um cavalo de bandido, por doze horas seguidas, e era este meu tempo, era aqui o lugar, o “quarup” deveria de continuar, minha batalha era apenas o primeiro “daime”.
“Dai-me fé, e dai-me amor”, vazio só casca e alma, volto ao meu lugar, vibro minha espada, e vou trabalhar; a meu lado um parceiro. Condescende me sorri, solidário. O frio e a chuva, me gelava, e o barro incomodavam, até o momento em que a minha mente volatiza, envolvida em abstrato, o salão é só energia, podia tocar suas fímbrias acesas, os deuses faziam do lugar, a sua fonte de pesquisa, éramos suas cobaias, felizes em serem retalhadas, cantávamos hinários.
Olhei em frente via só energia a me perguntar se podia entrar, aqui nesta morada que eu acabava de limpar, e o gosto ficara em minha boca, o cheiro de azedo impregnava minhas narinas, e elas, queriam entrar.
Em solidariedade amarramos um companheiro de batalha na árvore e amor dançamos sua boca, como foi fechado os ouvidos dos velejadores de Ulisses.
Quando uma entidade de sua matéria tomou conta, e dele fez super homem a exigir cinco homens para segurar-lo, foi em solidariedade á outro companheiro que elegemos um culpado, e o castigamos arrancando de seu peito uma estrela de seis pontas, e um alfinete para ser pendurada. Arrancamos de seu peito a “estrela guia” tomamos-lhe seu horizonte, foi por justiça e solidariedade.
Havíamos nos comprometido com o Império de Juramidam e com Jurema nos curávamos de nossas culpas, tínhamos um reino para construir, a todos os seres ainda faltávamos conquistar.
Mas havia uma fera solta no salão que precisava ser domada, sua penetração quebrava nossa morada, ela precisava ser parada, sentir a energia adensar, os cavalos estavam em desespero, salvar os cavalos, ou quebrar da fera seu nariz, com uma fé de fazer milagres, amparei meu parceiro, e foi lembrar de respirar.
Senti meu corpo crescer, a energia foi adensando, e por três vezes minha força, arranquei-o da presa fera, foi a maior descarga de energia de minha vida. Foi uma iluminação por inteiro.
Pela primeira vez naquela noite, consegui erguer meus ombros, tirei uma carga de meu cavalo, mas ainda não achara minha cabeça, eu ainda não estava por inteiro, e tentava erguer-me, enquanto olhava minha fileira de soldados esmorecerem, a vomitar em “um lindo salão, com meu presidente”.
Aquela tempestade de energia, não conhecia limites, fera solta no cio.Tempo e espaço, corrompiam minha, alma, em uma necessidade de ação, mas minha cabeça não estava presente, e nestas condições é difícil ser herói.
A minha necessidade de espaço começou a surtir efeito, senti meu ser crescer em força, como se por milagre moléculas expandiam em luz, vejo-me multiplicado por três, mas sem matéria, só energia, como se um monstro surgisse em mim, a querer nascer, sair e existir.
A busca da compreensão da loucura mergulhava em “noites de daime” a ponto de ver-me só energia, vi do outro lado do salão um nariz sangrar, e achei-me culpado de toda hecatombe que se seguiria aos vômitos e espasmos de companheiros que batalhavam caindo e eu ali a analisar esta loucura, a luz da normalidade. Ali gravar todos os quadros para depois descrever, e conferir, com outros guerreiros de Juramidam.
Em minha fantasia, eu recusara a abrir-me a uma das vestais, daí a causa da “peia”, e como tal, estava a batalhar, em prol de defender-me de tal penetração, reagi, rugindo como leão, saí de minha matéria integrei-me ao cosmo, e em força lanceie ao contra-ataque, consciente em busca de crer, anotar, e descrever.
O nariz dela sangrara, e foi ela cuidar do nariz, e voltamos ao trabalho. Havia acabado a concentração, e entramos no “cruzeirinho”.
Entrei no hinário a cantar, e a concentrar em levantar meus ombros que não queriam subir, minha “kundaline” estava líquida ou flácida, que não sustentava mais minha cabeça.
Fora uma batalha gratuita, apenas para o análise de efeito e causa, eu aceitara a guerra, apenas para análise, de movimento de energia, na “flor das águas” trabalhava-se pesado, e pesada era as “peias”.
Em minhas necessidades de dados eu provocara os criadores,, e os deuses desabaram sobre nós, e a todos em volta só sobraram em loucuras e caos, vomitaram no salão, e se desmancharam na cadeira, liquefizeram se, e os seus kundalines amoleceram, suas respirações perderam o ritmo.
Preocupado olho para meus companheiros a caírem em uma batalha, Deus pode esperar. Aproximo e em seu ouvido digo-lhe “respire” e com as mãos massageio seu peito, desobstruo seu peito, e ele começa a voltar. Mas como resolver o outro visto não poder lá chegar?
Vou ao fiscal e peço, por favor vá naquele soldado e faça-lhe uma massagem em seu peito, e traga-o a vida, salvo mais um , atenção de novo no hinário.
O nariz dela sangrava a borbotões, e fora limpar no W.C. masculino, para que eu pudesse avaliar o estrago, que me julgava causador.
Ajoelhado no chão a limpar vômitos de meus soldados, achei justo ao torcer o pano, a limpar o azedo de daime, me senti humilde, me senti feliz, a polir o chão onde dera-se tal batalha.
Fui até o tanque lavar o pano sujo, guardar o balde, e deitar na sala a espera que a manhã chegasse, e fosse embora a loucura e voltar para casa, mas a noite ainda era criança e a loucura estava em seu apogeu. O trabalho encerrara, mas a loucura ainda demoraria, é assim todo fim de trabalho precisamos de tempo, para voltar ao chão, para sentir a terra.
Aninhei-me a um canto da sala e uma princesa sentou a meu lado a mostrar hinos recebidos, por ela, em uma noite mágica, e foi por magia, que ficara enamorado, por um limoeiro.
Por uma noite inteira, fiquei enamorado de uma árvore, espinhenta e rústica, azeda com movimentos e força singular. Por horas fiquei ali tentando captar sua alma, sua leveza e responsabilidade, fiquei ali por horas enamorado.
Como demente, tentei reproduzir sua harmonia, em gestos certos, e pose firmada tentei captar sua alma, seu aroma, sua vida tentei aspirar, para me sentir terra. Noite a dentro em gestos harmoniosos tentei vencer, achar o resto que tudo contivesse.
Tentei, tentei demente, tentei, tanto, que dias depois em meu atelier me peguei reproduzindo, cada gesto de demência que pensei autor.Me via pintando o espírito que naquele dia, eu recepcionei, em seus pés vomitei, para que ele comesse e tomasse um pouco de daime.
E juntos por uma noite bailamos a harmonia da floresta, sob uma lua cheia, eu lobo virei para a lua, brincamos de jogar terra, um na cara do outro, e ele mostrou-me sua morada.Juntos bailamos uma noite, enquanto o hinário nos protegia, de todo mal que possa haver na Terra.Era um espírito criança, algo de curioso e assustado, com uma aura pura, e inocente, o vi criança.
Suas pegadas, eu desenharia em minha tela, sua estadia em minha vida estava marcada, sua presença fora anotada, e feliz voltei ao hinário, ao cruzeirinho, de volta ao meu universo, a disciplina, e ao culto, as minhas obrigações deveriam prosseguir.Me abalou, este trabalho estava me abalando, o controle havia se desarmado, eu cedera ao improvável a continuidade de minha viagem.Pedi que os fiscais olhassem meu filho que dormia no carro, depois de tomar seu daime, ele se tornara meu guardião, acordava e vinha me olhar, controlar, meu nível de normalidade.
Senti meu astral soltar-se e nele imaginei Hiromi também tomando daime, e foi esta visão que me retirara do interior do templo, fui trabalhar lá fora, era ali que me chamava, soltei minha alma e ela feliz corria atrás de sonhos e fantasias, noturnas na lua cheia.Vagueei feliz do pé de limão ao meu ponto de fuga, feliz sorria, era no pé desta árvore que todos vomitavam, era um limão movido a daime, nós todos ali do salão, um dia vomitamos em seu pé. Eu entendia, reproduzia seu viver em gestos lentos, fui buscar sua síntese, queria alcançar a sua alma, ela se tornara meu desafio, eu , Hiromi e o Rafael tomamos daime, e em lugares diferentes o corpo, mas na força nos aproximava e dementes bailamos a fantasia, de sermos uno, a terra mais a árvore, somos escravos de nossos signos. E eles vivem a nos pregar peças.
Aqui vivemos nossas fantasias ou nosso terror, chamamos a todos que aqui quiserem entrar, a sarna vem junto com o cachorro, cabe a nós curar ou orar, isto cabe a nós.Escravo de uns referenciais, vaguei por felicidades reprimidas, ao longo de uma vida. Me vi cavalo de uma entidade criança, eu a reproduzia em terra e vomitava em seus pés, para que ele tomasse daime, junto conosco.
Consciente todo o tempo, com medo do ridículo,, bailei junto a uma alma azeda, uns cânticos ácidos, eu jogral, refazer o movimento de nascer de uma árvore, um limoeiro regado a vômitos, era o mais belo que eu já vira, por uma noite seguida foi minha paixão, dentro do templo cantava-se uma elegia a força ali presente.
Ficara eu a compor elegias para cantar hinários, gestaltico, procurava as comunicações, todas em apenas um gestual, a harmonia do nascer, deveria estar contida ali, em um gesto, elaborado na loucura.
Veio também em mim, não mais a minha mente, mas a mim uno, indivisível, entre consciência e ser. Eu tinha que me fardar, após quatro anos de daime eu deveria me fardar.
A Nancy deu-me o tempo de um daime, para eu me fardar, eu enamorado por entidades sem nome ou mesmo por um limoeiro, louco de só amor, como podia eu descer de tal pedestal? Conquistado com muitos vômitos e diarréias.
Disciplinado pedi mais tempo, e explicara convicto “entre minha arte e Deus ou o Diabo, fico com minha arte” dissera convicto a meu guia espiritual.
Decorei o hinário e convicto seguia minha ladainha, em busca de conhecer-me, saber-me não crer, e ver o fato acontecer, normalmente sobre pressão com a demência prevalecendo, eu tinha que ser lógico, frio, era assim que eu era, eu era um “filósofo”, e como tal apresentei minhas objeções, a eu fardar-me só possuía fidelidade a meu ser, eu era livre. Como colar uma estrela de xerife em meu peito? Eu! Um refutador de símbolos.
Meu filho já chegava a mim, e eu? Selvagem de gritar a noite na floresta, mordi a minha ponte de ferro, o estribo que carregava na boca, para meus ímpetos acalmar.
Bons conselhos o velho Romano Plínio dera a seu filho, mas isto não fez o mundo melhor, embora os mesmos conselhos tenham feito a humanidade caminhar 2000 anos.
Eu sabia! Eu via a força chegar, sua forma, seu cheiro, e sua peia! Eu sabia quando ela chegava, as vezes só chibata, as vezes só amor, mas sempre curiosa, a força possuía uma curiosidade, me penetrava só para saber, quem era eu.
Quando esta me chegava, através do daime , meu estômago, tornava-se um profundo labirinto para conter-la, e quando dentro de mim estivesse, eu ainda jogaria um archote para que visse mais longe, para que conhecesse em meu ser, o que de medo eu escondia, de minha consciência.
Em mim, um poço sem fundo, de dez mil anos de cultura, havia criado um abismo em minha alma, eu já jogava com símbolos em aberto, e isto desconcertava a força, que como criança queria resposta simples, queria caminhos claros, seguidores fiéis, e eu não era nada disto.
Fui intimado a me fardar, meu prazo? Um trabalho, a ordem viera de cima, me dissera minha guia espiritual, me colocara em xeque, o rei tinha que se mover, o problema do movimento do rei, e o séquito que se levanta, e causa o movimento dos meios, o gasto de energia.
Meu tênis já fedia a vômitos, do séquito ,em meus pés no meio do salão, trouxeram serragem, jogarão em cima, dos vômitos com todos os peões caídos a meu lado, a batalha estava em seu meio, nossos peões e rainha ameaçados, o império de Juramidam, era feito de cavalos, que trotavam noite a dentro, uma ladainha mantrica, para fazer sua guerra sagrada.Se é possível que haja uma guerra que não seja. A nossa cabaninha de tomar daime se chamava, ”Estrela Guia .”




“ESTRELA GUIA”
O fortuito do ambivalente
Meus fractais
Arrogância = Matéria
Ambivalência = Ausência de Matéria
Me desafiou = Me jogou vinho na cara
Não arredei a bunda
De meu banquinho
No fim do mundo
Estava meu filho, e
Minha fêmea, Minha vida
NÃO SE COME MAIOR QUE A BOCA
O material contido na
Alma tem que ser digestivo senão
Saí para cima ,ou para baixo
Mas saí !
Morri de vergonha
Não possuía um só
Diluente químico
Para meu sangue
Carmim
Azul
E amarelo,
Meu reino por um
Polímero!!
Se a ti
É permitido fazer
Faça sem gritos
Sem barulho
E se possível
Com harmonia.
Sorvi vinho!
Ouvi Wagner!
Pensei Deus.
Lembrei-me
Sou barro
Sou terra
Sou pó
AINDA NÃO JANTEI!!
Coloquei meu filho
Para dormir
Aquietei Hiromi
E a meu estômago
Dei uva verde
Dei mais uma dose
Do meu vinho verde
Chamado “messias”
Sorvi a quinta dose
Amarga! de uva verde
Meu “messias”
Era um vinho vermelho; carmim.
Lambi a seda
Amassei a Santa Maria
Com dedos fortes
Acariciei a seda.
E uma labareda
Acendi
Em suas
Pernas
Nesta noite
O Embu
Não dormiu
Eu aprendiz de faraó
Passei noites em claro
No Embu do “daime”
Noite a dentro
De virgens
De Santas Marias
De “daimes”
Fui útero adentro
Na noite
Manchando de vermelho
A minha passagem
De virgens e de noites de daime
Pintei
Em meu
Fim de mundo
Ácidos e cítricos
Que mistura mais bad
Para se viver o
Nosso pouco tempo
Aqui na (consciência), vida
Como um Fauno
Fui adentrando a noite
Fui rompendo, derrubando
Cada pilar na frente
Posto
Quando a taça levantei
E não mais sabia
Vidro ou pernas
A Santa Maria
Estava acesa.
Cítrico e ácido
O “messias” verde descia
Garganta abaixo
Por entre coxas
O laranja e o vermelho
Jorrava quando abaixo
eu heroicamente
Tentava me aprumar.
E os pobres
Comem,...
Com os
Olhos
E com os olhos
Comem os artista
Devoram o mundo
Em uma faina infinda.
As minhas noites de daime
As formas e as imagens
Fazia de mim
O Deus! Do todo poder
O mendigo
Mais rico
De todo
Mundo.
Os valores são!!
Os valores
Que damos a
Eles.
E eu construía
Um castelo
Para guardar
A todos
Em volta de mim
Em cima de nós
Morávamos em pirâmides
Nos fizemos faraós
“Pai, dá para você melhorar na letra? Não estou entendendo tudo, mas algumas palavrinhas, valeu! (Rafael)
Minhas abstrações
Imantaram-se
Atraíram para si
A vida
Ritualizei meus abstratos
Inundei-os de vida
De todas as formas
De vida
Cantei hinário
Lá no meio do mato
Para comer
“Iara”.
Cantei ao Deus de Abraão
Cantei ao messias
A Deus ou a virgem
“Santa Maria”.
Das referências
Fiz o cenário
De uma vida
De “junkie”
Amealhei histórias pessoais
Roubei, pilhei almas
Em busca de um quadro
Algo que ao menos
Parecesse definitivo
Senão o fato da
Transmutação da matéria
Como a matéria
Voltei a ser
Pura energia.
Como cavalo
Noite a dentro
Trotei no culto
Ao meu Santo “Daime”
E como índio
Chamei todos os espíritos
da floresta para tomar
daime comigo
Para após o ato
Abrir a mente
E se conhecer
Chamar irmão.
Teatralizei meus cotidianos
A ponto deles
Se tornarem
Minha vida
Meus significantes
Do ser, ou do existir,
Com daimes, ácidos e,
Cítricos coloridos
Dilatei minha imaginação
Em busca de uma figuração
Para minha enxurrada
De amarelos
Azuis
E vermelhos.
Fui praticar
Chamanismo
Lá no mato
No meio da floresta
Meu ser tribal
Convoquei para comigo
Abrir a mente
E humanizar meu coração
Com Yara e com Dianas
Bati tambor
Para acalmar o lobo
Que havia em mim
Com a mãe da floresta
Rodopie em volta
De uma cruz de caravaca
Usada para chamar exus
Ascendemos velas
A todas entidades
Que ali chegassem
Para tomar daime conosco
Carregado de energia
Explodindo em faíscas
Saia da floresta
Voltava as minha pirâmides
Construía uma cidade
Povoava meu fim de mundo
Com concreto, e antíteses
Do meu ser abstrato
Voltava a ser o predador
Que sempre fora
Os da minha espécie
Os da espécie humanas
A cada dia
Mais rápido
Passava meus
Dias.
Ousado finquei cavalete
No meio da selva
De pincel em punho
Esperei os deuses passarem
Ali disposto
No meio do mato
A fazer o retrato
Em troca de emoções
Meu ser, era movido
Por vaidades e egoísmo
Estes eram o “Yang”
De meu “Yin”
Meu moto contínuo
Era movido por
Adrenalina, ela movia
Minhas reações
Era fruto
Só de atos
Insanos, e,
Irresponsáveis
Ali no lodo
Ali no nicho
Bem no cantinho
Ficava as emoções
Desnudei-me em busca
De saber de mim
De me comparar
Ao todo, no universo
Fui ao “Janderson”
Tomar daime
Ver “Tantras”
Ler Mantras
Abrir meu coração
Atiçar minha atenção
E tentar compreender, e,
Ser humano
Com o coração aberto
Recebi, cada mulher
Dentro de mim
Livre e por inteiro.
Elegi a força
Como Deusa
E a mi ração
Como rainha
E noite a dentro
A citar “Tantras
A cantar “Mantras”
Vagueei a noite, da rainha
Cavalguei donzelas
Onde o pensamento
Era Deus.
E, eu lhes roubava o tempo,
E sua atenção
A competir com ele

Tem coisas ou sentimentos que não se consegue descrever com frases, e ai então utilizamos os recursos da poesia, pois só ela consegue explicar certos sincretismos existentes em um conceito, precisamos as vezes de sínteses, ou abstrações que só conseguimos quando as palavras falham, precisamos da compreensão e não do conhecimento, pois a filosofia nos leva ao conhecimento, mas a poesia pode nos levar a compreensão apreendemos melhor certas coisas quando delas temos apenas algum conceito. Foi assim pensando que sentado em minhas arquibancadas, lembrei-me que não queria multidões em minha volta, sempre fora arredio aos agrupamentos, e criara meu centro cultural, de pedras.
O sonho começa ilógico, mais uma sensação do que uma compreensão, e assim começa a tomar forma, vai nos apaixonando, vai acalentando nossos sonhos, embalando-nos em uma fantasia, e aos poucos vai nos dominando, pegamo-nos trabalhando para eles, ilógicos e sem sentido tudo nos parecia. Pensei, Rayzinho porque não fizestes um prédio de apartamentos, com este mesmo capital lhe daria uma pensão permanente em qualquer lugar neste mundo, sem ninguém por perto?
Olhava o quanto de equipamentos foi gasto em tal empreitada, quantos gritos com pedreiros, o mau humor suportado por minha família, gritos a impaciência, as vezes passa a ser um padrão de vida, por isto cuidei que fossem o menos possível ,As ferragens estavam sendo feitas, as janelas de minha nave espacial. Ai em um trabalho, me veio a perda da gravidez de Hiromi, como tirar de mim aquela imagem, como inverter esta miração, como apagar-la sem que se tornasse realidade.
Meu filho me disse .” A culpa sua!” Senti-me culpado por algo que não ser ter medo possuía controle, até que ponto posso eu ser culpado por uma interrupção na gravidez de uma mulher, se nada fiz, a por ela, pela sua idade, por riscos assumidos por ela, que para mim não tinha sentido algum. Me sentia culpado pelo tão pouco que poderia fazer, a não ser ir com ela ao Hospital, a desfazer negócios, e sentir-me culpado.
Ali sentado olhava meu teto a dez metros de altura, a me julgar Faraó, um Faraó de bairro, e com poucos meios. Mas os meios era o que eu corria atrás. Insanidade, este era um problema a ser analisado a luz de seus cotidianos culturais, talvez a loucura seja apenas um abto social ,de não matar os loucos, mas fazer da loucura uma operacionalidade. Alguns são muitos criativos, e fazem coisas sem depender do estado, podem até serem úteis e tolerados, a esta espécie de loucura que damos nome de “Excentricidade”. È uma loucura útil, e assim raciocinava para justificar o meu modo ilógico de ser ,ou de interpretar os signos.
Eu sonhara um teatro para a cidade, um centro cultural, uma coisa que funcionasse como irradiador de um mínimo de discussão em nosso cotidiano, algo que pudesse fazer uma cidade crescer, culturalmente, a ponto de impedir sua favelização, queria transformar o Embu, queríamos! Bom, queríamos tanta coisa, ou como dizia Hiromi, ”eu queria”, ela não, o Rafael também não! A cidade então, nem filme de arte vai assistir, de graça na Biblioteca Municipal, e feliz continuava a mobiliar setecentos metros quadrados de casa, a nossa sua casa.
A todos que me perguntava da inauguração eu dizia que o tempo não me importava, era um fato, não importava mesmo. Pois primeiro eu teria que criar o público, era uma coisa que teria que sair do chão, começar com crianças, e estas trariam os pais, e estes os adolescentes, tudo isto demandava tempo. E planejamento, e dinheiro.
E era chegado o fim do ano, para nos dezembro começa três meses antes, teria que parar o pedreiro para que me dedicasse mais a galeria, pois ali era a fonte dos meus rendimentos,
E morreu o Josué, era nosso braço direito e confidente, nosso amigo de confiança, não encontrei disposição para acompanhar o seu sepultamento, não achei necessário minha presença de tanto que sabia dele, e não queria dar resposta, não queria ouvir as perguntas ,que com certeza me fariam, rezamos nossa missa de sétimo dia dele no Embu, para fugir de família, e de perguntas.
Existe coisas em nossa vida ,que recusamos comentar, coisas de amigo me parecia mais difícil, eu não compreendia, como ele se metera em tamanha confusão, com sua mulher, e sua amante, como ele deixara as coisas deteriorarem tanto, a ponto de não mais querer viver. A ponto de deixar que uma doença besta o matasse, ele a muito já se sentia morto, como um peru, ele morrera na véspera.
Não fui dar pêsames para a família, pois sua família já havia se acabado, separara de sua mulher, e não mantivera sua amante, foi tudo inútil, uma guerra inútil ,uma morte inútil, pedi ao padre Manoel que rezasse por ele, e pela primeira vez fui a uma missa com meus próprios pés, assustei o padre com minha presença, ouvi um discurso inflamado, mas nada mudaria, apenas perdera um bom amigo, um homem sem maldade, que se enredara com duas mulheres, e sua vida nada mais valeu.
Olhei o espaço interno de meu teatro, e decidira que tinha que diminuir a quantidade de gente, queria eliminar uma linha de arquibancada, baixar para cento e cinqüenta pessoas na platéia seria o ideal, não precisávamos mais que isto, a cidade não encheria meu centro cultural nos próximos anos, levaríamos algum tempo para fazer nosso público, íamos ainda criar nosso publico, Marcamos audiência com o prefeito eleito, queríamos um secretario profissional, algum que soubesse algo de turismo, pois, precisávamos de dar um salto qualitativo em nossa área, estávamos cansados de tanto amadorismo.
Como o tempo ia nos consumindo, e tínhamos que correr, encontrar as pessoas que trabalhariam conosco, equipar minha galeria para o final do ano, conseguir o habite-se dos galpões, instalar rede elétrica, sem problemas cotidianos vai nos consumindo, em futilidades, em coisinhas pequenas o tempo vai passando, e assim uma vida acaba sendo muito curta.
Briguei com meu irmão por mesquinharias, por uma simples maneira de cada um encarar a vida, e com ele não mais falei, estava sendo coerente comigo mesmo, pela família o melhor, era a clausula única de minha maneira de pensar, a mesma clausula que criava o conflito com o dar, tudo parecia certo até a hora que tinha de dar, eu dava o melhor e ele não, ele fizera do dinheiro uma razão de viver, e eu fazia poesia sobre dinheiro. Colava dinheiro em quadros, rasgava notas para fazer quadros, eu era um louco que rasgava dinheiro. E demente pedia a ele para dividir a conta, assim ele pensava.
Mas eu evitava falar em dinheiro evitava falar qualquer que seja o assunto, eu falava muito pouco, mas falava o necessário, jogávamos duros, todos nós os Rodrigues, passados algum tempo, casou seu filho, e mais gente agregou em sua vida, trouxe todos de Manaus, e trouxe junto a sua morte, mataram-no, derem-lhe muitos tiros, no rosto na cabeça ,e lá vou eu, enterrar o meu irmão, correr a necrotérios, pagar pau, para ter um cadáver para enterrar. Orar, orei ,por sua alma, se è que possuímos uma, estava eu a pensar ali sentado, tentando explicar para mim mesmo, que de nada servia a vingança, senão para gerar mais vingança, e que os mortos já estavam mortos, tinha eu era que pensar nos vivos.
Foi-se o meu cunhado, foi o meu sobrinho, foi o Josué, o também o Divino meu irmão, a morte passou com fome por minha vida este ano, fizera estragos de furacão, me abalara. Chorei lagrimas secas, chorei como sei chorar, mas não desviara do caminho, corri a construir meu sonho, era o limite de minha loucura, dali não me permitia ultrapassar minha linha “Marginot”
Que rumo eu daria em minha vida, após a obra pronta, que rumo teríamos pois Hiromi queria um outro filho, para que eu tinha que ser famoso, se só isto já me era custoso, manter-me aprumado, como deve ser um Faraó, mesmo um pequeno Faraó, Passara as eleições, negociávamos um secretario para o turismo, alguém profissional, com uma visão mais ampla, de vender turismo .
Negociávamos a mudança do centro, o parque ecológico que faria frente ao meu teatro, corria com meu fim de ano, precisava de um segundo carro, precisava de dinheiro, como todo ser humano, eu possuía aluguel a pagar, artistas a pagar, e todo um séquito encarregado da pompa.
Estávamos próximos de mudar todo o centro do Embu, dar-lhe uma roupagem nova ,preparávamos para enfrentar os Shopping em conforto e comodidade, tínhamos que disputar nossos clientes com grandes redes, com uma cidade receptiva, com comerciantes, artesões e artistas, e ninguém entendia ninguém, fora mesquinharias pessoais, as de todas as discussões, me desdobrava em ser um pai, razoável, me dispunha a entender meu filho, sentar e ouvir, pois a morte andara solta em minha volta, dois irmãos mortos, eu era o ultimo homem de minha família .Eu estava sozinho, com minhas irmãs, a enterrar o penúltimo dos “Moicanos”
Por uma questão de justiça eu deveria ter morrido primeiro, meu viver è perigoso, diria até temerário, minha busca da loucura levou-me a correr maiores perigos, mas o que me salvou foi o fato de eu não correr atrás de dinheiro. Isto me livrou da violência ,e das vinganças inerentes deste viver. Procurei ao invés de dinheiro, a harmonia como forma de viver, o que não me eximia da loucura, mas esta tinha que ser controlada, medida analisada, e
dar frutos, minha sobrevivência a meus irmãos era verdadeiramente inexplicável perante a lógica. Fiz os pagamentos, caixão, enterro e cemitério, dei inicio ao musaoleo da família, e a Maria disse, ”Agora temos onde cair mortos” minha irmã que rezara aos pés do Divino, e encomendara sua alma, achava ali um lugar que seria também nosso, para a eternidade.
Minha família tinha perdido o mais aguerrido de seus guerreiros, e eu um pajé de terceira, era o encarregado do espolio, dividir com seus filhos sua herança, e pedir para seguir seus sonhos, acertar contas, prestar contas, e assim por uma semana foi meu cotidiano, levantar a cabeça e tocar a vida em frente era meu mais próximo compromisso.
Tinha as ferias de meu filho que estavam chegando, tinha que abrir espaço para viajar, a Nancy queria uma igreja, e só eu podia construir, a Hiromi uma viagem que eu tinha que estar junto, e todo o tempo passo correndo, por um motivo ou outro, é como se tivesse que abrir arquivos para tantas funções, tantos deveres, eu era a própria memória do universo, eu tinha minhas arquibancadas para sentar, possuía um universo para administrar, quadros e artistas para rebocar, eu era um rebocador de piratas. A serviço de uma comunidade de artistas, descobrira que eu ainda não saíra da estrada, por mais posses que adquirisse, continuava desabrigado do destino, meu destino que assim eu moldara, por culpa ou desejo exclusivamente meu.
.


A PAJELANÇA
Aqui em nosso Quarup, o pajé explica as regras, puxa o tema, e
comanda a orquestra, começa aí um grande jogo de xadrez, e aflora nossa história.Cada ser, se despede de seu corpo, e cria-se a aura austral, carregada de seus Deuses, e Demônios, e eu sentado em um deles, ou carregado deles, tentava me aprumar, em uma batalha de grandes feitos heróicos.
O império de Juramidam, estava em batalha, as montanhas tremeram e a chuva tudo encobriu, ilhados lá no fim do mundo, soltávamos nosso vômito primal, as tripas queriam sair o mundo escurecera, e a batalha estava formada.
O som das maracás, cortavam o ar como flechas afiadas, o tambor era a artilharia pesada, e o hinário previa castigos, a quem esmorecesse. Como heróicos e bravos guerreiros, com estrela no peito, e Jesus no coração nossa alma fugia, “cabirica” uma cabrita montes, a correr por mil perigos, no mundo espiritual, a guerra e uma constante.
Incômodo era o que o “cavalo” sentia com a ausência de si, insegurança era sua companheira.
E a “estrela guia” era o campo onde a batalha se daria, por um longo período. A vida se seguiria. A constante é a guerra, este é o primeiro grito de vida, de nossa vida, os antípodas são reinantes, o moto-contínuo universal é a guerra nossas moléculas vivem em guerra o universo se auto devora, para gerar a vida.
Nós moléculas devoradoras de vida, íamos noite adentro procurar nosso espiritual, e combater quem o estivesse preso, em algum ponto de meu ser.
E “daime” desce, há uma hora para a chegada da força, e quando esta chega ocupa, nosso espaço, e nós somos ela, nós somos o seu conteúdo, seu ser uno. E para dentro dela, levamos nosso humano, levamos DNA ao seu abstrato, dopamos o seu “nagual” o seu nada.
Detonas sua aura, ou ela nos detona, se é maior que o seu invólucro, derruba seu cavalo, que em vômitos ou diarréias, saí vencido das fileiras dos soldados da rainha. De repente todo meu redor cai, fico eu ali agüentar na espada a recuperação dos soldados atingidos, fico ali arredondando a força, alimentando sua vida, a custa de minha vida.
A simbiose torna-se o conteúdo, de nosso existir. Todos somos um uno, e força somos nós, seu elemento de atrito, a causa de sua combustão.
Somos os ajustes dos anacrônicos, o nosso ser, e nosso existir coletivo, somos nós a combustão da força, somos sua matriz, nos “aparelhos” recebedores de Deuses, “cavalos”!
Ser! Não passávamos de uma formação ocasional da somatória de átomos. Um ocaso do universo, um nada, só energia nosso sólido não passava de um abstrato. e neste, construímos uma fantasia de existir.
Assim noites a dentro, joguei archotes em minha alma, para que meu ser, eu visse melhor, em cada escuro de minha alma, procurei achar razões, humanas razões, de certezas absolutas. Julguei-me louco. Chamei juízes para me julgar, argumentar, o acontecido. “Um Deus qualquer me visitara” relatei a cada um, lhe dei daime para tomar, tirado de mim mesmo. Dei-lhe mil anos de vida, ao pintar o seu retrato, e...ele passara a existir.
E pensar que isto poderia ser mina iluminação, eu Ray viro Buda! O que me impedia de fardar era quatro anos de tomar daime, de me ver, insano, demente dentro de mim, a minha procura. E não saber, ou por saber, eu tinha que caminhar, eu não podia confundir degraus de escadas com meu objetivo, seja , qual ele fosse, pois, muito mais e caminhar.
Em meus conflitos, as vezes me via mordendo meu próprio rabo, na maior “peia” pedindo ao universo, que parasse seu movimento, pois doía minha cabeça. A cada desencadeamento de átomos.
Pediu! Tem que beber, chamou! Tem que aturar, o tempo imune as minhas fantasias, comia espaços, dilatava vazios, onde houver vazios, poderá haver movimento, E conseqüentemente vida.
A força era vida, criada por nós nossas ilusões, sonhos, e fantasias, criavam “força”. Inúmeras guerras travei com ela, de todas as formas, de todo o jeito, noites em que o W.C., era meu companheiro da noite.
Quantas vezes visitei a lona, e dela levantei, cheirando merda, era o preço de beber com o diabo. E muitas noites, ele era o maestro, ele dava o tom.
E tome daime, viera a segunda chamada, e lá fui eu. Na fila, dando passagem aos fardados, eu firme fiquei na fila. Firmeza! Firmeza! Era nossa ladainha, noites de mantras, entoados com fé de açoitados bonzos travessos.
As lobas uivava na lua cheia, chamados a “Yara” para vir ao “reino de Juramidam” onde bravos guerreiros em brilhantes armaduras, duelavam em sua honra, de azul e branco, buscavam suas “Yaras”.
E um louco no meio pintava a batalha, na chuva, no frio, e na loucura provavelmente como diria o meu amigo Gerson, o maior ego do mundo não passa de um egão, julgando-se o sabedor dos segredos do reino de Juramidam. O monstro que aprisiona a Hiromi, de a ela liberdade! E muito mais dizia folhas de sul fite adentro, meu melhor amigo, meu guardião nas noites de “daime”. Parceiro de desventuras em matas e noites fechadas, perdidos ou encalhados.
Se esta era minha fantasia, urgia fazer retoques, por incompatibilidade de objetivos. Estes não ajudavam nossos sonhos, não era a figura de meu estar.
De qualquer tempo de minha vida busco arquivos, comparo dados, refaço interpretações, em algum lugar algo rompera entre nós, mas o que? Meu guardião não agüentava mais a meu lado, e fora embora atirando contra mim.
Em algum lugar em meu arquivo iconográfico está gravado algo que eu não tenho acesso. E não tenho como avaliar, me coloca em xeque, tenho que parar para salvar o Ray. Meu, eu. Ameaça entrar em “tilt”.
Vou ao quintal, amasso terra, com a necessidade de me livrar da estática, cavo com as mãos, uma terra dura, para sentir a mãe terra e me acalmar. Sentir em mim, algo de mim. Na igreja do Glauco, rezando eu volto as correntes, do padrinho “Corrente”, do daime. E a meu lado o Gerson despedia, de mim de todos de mim, eu sentira que perdera um amigo, envolto em correntes bailei, e cantei hinário, na despedida de um amigo, eu sentia que o acordara de um sonho majestoso.
Disse a ele, tu só me conheces há quatro meses, possuo cinqüenta anos. E a estrada, assim como a loucura, e o meu cotidiano, assim perdi meu guardião das noites de daime.
Povoei meus abstratos, com figuras noturnas, ideogramas a representar, as minhas vivências, do inominável, assim meus abstratos foram povoados, de sentir e do viver, sombras anexaram-se em meu destino. Com cracas na alma saí a me purificar na fogueira, eu precisava ficar só, eu teria de cultuar algo, uma bandeira ou uma bengala ou a hinário, escolhi a terra, cultuei a terra e nela me apeguei, ou me apagava.
Vacilei, fraquejei a quase perder a calma, vomitei, e voltei a força me chamava, ou melhor! Me puxava, me queria lá dentro, pois todos a meu lado haviam caído, eu era o elo de uma corrente, me peguei “cavalo” de uma coisa abstrata que me pedia “daime”, que alegre vomitei ali, onde ela pedia.
Isto foi depois que perdi meu guardião, ele se apaixonara pela Hiromi, que para ele se tornou um abstrato.
Pintei o seu retrato, de tela em punho, no frio da noite, pintei o seu retrato, abstrato, assim como ele me apareceu, em minha boca, que tirei do meu fígado em combustão.
,
Demente, bailei o gesto de um pé de limão, de nascer e de existir, arranquei sua alma, o ácido e o cítrico e com ele pintei o seu retrato, meu limoeiro regado a daime, ácido e cítrico.
E lentamente fora pintando “o flor das águas” o estrela guia, o sete estrelas foram se tornando quadros, meus quadradinhos coloridos, foram aparecendo com cara de perdido, de quem deseja um abrigo, e assim foi nascendo uma obra, meu palco estava pronto, eu senti.
Todos sentiram, e nasce ali a necessidade do fardar. Saí a perguntar por quê? Me ofereceram abrigo em outra igreja, mas a pergunta ficaria, declinei agradecido, mas a história estava desatada, urgia atar.
A caça, caçar e se compor com a presa, mais crueldade, ou apenas a animalidade de nosso ser selvagem. Existir e caçar, uma simbiose com o universo.
E cada caçador, sabe as patas que segue. Conhece seu hábito, sente seu cheiro. cada músculo retesado, para deixar a marca, quanta energia queimou e quanto lhe resta, e eu corria atrás da rainha da floresta, dançava na noite, em meio ao mato. Conhecia, o seu cantar.
Eu, a noite, e a mata, como um lobo corri em meus impérios, demarcado por lutas, e soldados derribados.
A minha noite, a minha mata era o que exigia o meu ser selvagem, meu Chamanismo, meu sentir, e ver! O meu abstrato, o desmontar minhas moléculas, e nelas fazer uma revisão, meu ser brilhava.
Busquei meus “chakas”, e a cada um deles, carreguei suas baterias, e perguntei, se estavam bem, felizes por sermos uno, um indivisível.
Engoli um terceiro gole, do “arara 2” era uma gradação de grandeza, denso era o gosto da Amazônia, era o gosto do cipó, em sua gradação maior, alertei meu estômago, e o chamei biodigestor, cabia a ele combinar fórmulas para meu delírio.
Molécula por molécula, em enormes fractais, explodiram em geométricas figuras, a rainha nos ofertava o “sansara”, o poder de vivenciar as ilusões. Nossos “íons” buscara seu espaço, se despregaram de seus núcleos, e com suas trajetórias descobriram o espaço, e geravam o movimento, em “fractais” as massas se abstraíam em “quantas” em geométricas fórmulas de calcular o vazio, medi a luz dos meus “íons” em quantas, em teoremas, medi os “mesons”.
Olhei o céu, e vi-me pó de estrelas, me vi terra, me vi átomo. Um átomo divisível por 257 elementos, e formando bilhões de moléculas, aprendendo a quantificar massas, para calcular uma trajetória possível, para o nada.
Nomeei anjos, e dei nome a meu filho, o nome do curador, o anjo Rafael era meu filho, e isto fazia de mim um amontoado de moléculas, um animal carnívoro, feroz comedor de mortos.
Levei meu filho a ver leões, e lhes contei a história do rei da selva, juntos jogamos-lhes pipocas, em honra, e glória a seu heroísmo. Vontade nos deu de comer sua carne, mas não podíamos eles estavam em extinção. Mandei pintar sete leões, e a cada um, fiz uma pergunta, presenteando o meu guru, do mundo espiritual, meu mestre e “xamã” com ele no comando, corremos noites e florestas, atrás de “Yaras” atrás de “Juremas”.
O daime me desce grudando na garganta, soltando sua acidez, em meu espírito, soltando o seu ser, em meu aparelho, aparelhados como bois ao garrote, buscamos olhar um horizonte, para a paz celestial, para o céu, parar com sua guerra, para o estrago não refletir em baixas em nosso exército, e não fossemos nós, a pagar os custos da guerra, com o Diabo. O nosso Diabo. Molecular, em mim devia haver átomos embriagados, viciados de pensar o mal, meus átomos de maldade me faziam vomitar.
Impotente como um “Antônio Conselheiro”, queria mudar meu eu para ser bom, entre comedores de leões.
Eu como uma “gárgula” sentado me postei, de arma na mão, em nome do Império de Juramidam, mas as armas eram hinários, e não espadas flamejantes, como meu estômago cheio de pingas, infinitas misturas de alcalóides que bebia, antes de morrer, pois em uma batalha é que se morre com honra de tentar vencer.
Sentia estar próximo de alguma coisa, dava para sentir a presença, o odor vazava minhas narinas, ela sempre estivera próximo, mas não via sua forma, não visualizava o que podia ser sua cara.
Pressentia um evento!, visitava minha família em espírito, tentei entender o que mudava em mim. É a cada um dos muitos que perguntei, ou não sabiam, ou não podia contar-me, frustrado, voltei para mim, que era onde o hino dizia estar.
Via minha “gárgula”, cada vez que tentava o portal, algo me barrava, e não era o porteiro. Soltei-me para ver até onde ia, minha fantasia. Até onde os eventos enunciados, eram crias apenas de minha fantasia. Mas quem seria os juízes, chamei doze jurados e pedi conta de minha sanidade, em um jantar regado a álcool.
Pensei a loucura, como um estado social, irregular, excêntrico, com movimentos desconexos, não a loucura do pensar revolucionário, da busca para um saber humano.
Eu já aprendera, que não importa o nome do faraó, passa ele, sua vida a construir, sua morada derradeira, havia um dia marcado, até para a morte de Deus, a duras disciplinas, aprendera, que meu desafio a Deus, continha uma sapiência, era detentora do saber-se mortal, frágil vaso de barro, de lama, da morada do Senhor, foi o que me ensinaram.
Minha vida foi correr atrás de decodificar símbolos, cada ideograma, cada símbolo de vida ou morte, fui disciplinado a ler, e a saber, fui criado macho, com todo gestual característico, jeito e trejeito. E ali fincado fiquei, meio século, minha terceira vida, era meu eu atômico, molecular, entender sua abstração, seu íon a buscar uma trajetória, era o meu lado espiritual.
Busquei em meu limoeiro equilíbrio, busquei todo seu ser em busca do espaço, e da reprodução, pois só assim, eu poderia projetar o meu futuro, minha “psico-estória”. Montei meus signos, em cima de uma abstração, chamada “Deus” tentei com eles traçar um destino, ao meu espírito.
De como deve correr um “cavalo” no mundo de ilusão. Fui limpar chão vomitado de daime, este era um dos deveres de casa, e havia muitos outros, e havia a estrela no peito, quatro anos fazia, e era hora de botá-la ao peito. Por quatro anos eu passara indivisível, e isto acabara.
Me colocaram em xeque, saio da pajelança, e vou pensar a posição, e regra manda eu proteger o rei, e o rei sou eu.
Tomei menos daime, pensei mais minha vida, o relógio de meu tempo inexorável passou. Passou digital, imperceptível e silencioso, escorria por minhas fibras, atravessava meu espaço-corpo, me mataria o tempo, eu tinha que fazer um movimento, forçado moveria meu rei, uma casa.
O sonho do líder, e neste ponto, que desejamos um líder, alguém que tome nossas decisões, alguém a quem possamos transferir, nossas responsabilidades.
É nestas horas, que negociamos com o Diabo, transferimos nossas responsabilidades, ao destino. Mas o hinário diz –
“Não sigas, os mestres
Que te aparecem
E nem com eles
No caminho queira andar”
Era hora assim que ansiava, por alguém a quem pudesse imputar culpa, mas eu passara uma vida de lobo, sempre fora sozinho, os deuses, eu fui os comendo ao longo do caminho, por justiça eu era um homem só, eu era a ilha de mim mesmo.
Mas isto, não me fazia mais sábio, apenas me fazia mais arisco, e a cada dia que visualizava uma coleira em meu pescoço fugia, de não me acharem o rastro corria para meu quintal olhava formigas, olhava esquilos, e o mundo, o universo em seu macro ou micro cosmo, era minha paixão, a cada planta ou pedra, eu deixara minhas marcas, o universo era o meu conteúdo.
Minha felicidade, era uma construção do dia a dia, era uma dilatação em meu tempo-espaço, com o colorido dado, pela minha espécie, a humanidade se é, humanos, tipos como eu, que se auto-excluem de o ser.
A loucura em nós é terapia, de vez ou outra somos vítimas de nossa síndrome e temos que enlouquecer, uivar para a lua, ou correr atrás de “Yaras” ou Jurema, temos que enlouquecer, tomamos “beladona”.
E como um cão selvagem, nos soltamos na floresta a ecoar ganidos, o langor dos desafortunados, dos ausentes de deuses, como lobos a noite uivamos, e a floresta acordamos, acordamos as águias, acordamos os leões, dormir em nossa loucura era apenas um incidente, no percurso de nosso aparelho.
Evocamos em nós! Nosso ser primitivo e fomos ser “chamânicos” em um milenium findo, atravessaríamos o segundo milenium sendo bichos, selvagens, um bando de loucos indomáveis, a quem a sociedade tolerava, por só causar problemas para si próprios, as minhas cicatrizes assim o provavam.
Busquei em cada planta, seu perfume ou veneno, olhei a terra e via sua linha de água, via a energia correr em suas entranhas, e vi sua vida ser minha vida, me vi barro, um amontoado de aminoácidos, me vi o adubo da terra, vi minha mutação molecular, carregar-se de energia a não mais poder, a ponto de ter de descarregá-las na terra, na fria terra, fonte de meu ser.
Por todos estes anos que sentei em minhas pedras, pensei, o que, e qual era a maneira de minha conduta nesta vida, e não aceitei nunca, um mando ou uma ordem, me criei selvagem, eu cresci animal, arredio e feroz, foi o retrato de meu viver.
Não me regeneraria por decreto, não estava em minha índole, não me via como o cordeiro de Deus, que veio retirar os pecados do mundo.Eu era profano, e irreverente, e quantas lágrimas já derramei por isto. O preço que pagava era alto, o meu orgulho e a minha rebeldia, era a causa do meu sofrer dizia as minhas “princesas” no “estrela guia”. Enquanto ali no quintal eu me comprimia em fímbrias vegetais, a querer sentir o espírito da floresta em mim, transferia para mim o peso de seus galhos, ou a idade de suas raízes, sentia em mim sua seiva, sentia em mim o seu ciúme, e em um bailado harmônico tentei ser árvore, tentei ter frutos, afaguei com minha sombra esquilos e cobras. Buscando entender, corri atrás do meu eu, floresta afora, materializando meu eu, em formas, flores, e vida, solto a cabriolar, fui noite a dentro. E floresta afora sendo espírito, só energia, e olhos para ver, e criar símbolos equivalentes, para ao despertar saber contar, o roteiro da viagem. E o Gerson dizia “Ray pare de pensar”. Meu guru dizia para eu não pensar! Isto não existia em mim, era um estado que não me apaixonava, eu era uma máquina do pensar, e era feliz com isto. Disse isto ao Daniel do Flor das Águas, sentado na igreja do Glauco, e lhe perguntei da necessidade da estrela em meu peito. “Sua proteção e seu escudo”. Ouvi-o e pensei, que eu não possuía medo, dos espíritos ou dos deuses, só homens vez por outra me assustavam, mas medo muito pouco, abria mão do escudo e da farda.
Empunhava em seu lugar, uma tela e um pincel, e com eles a posto, esperava passar por mim, deuses ou diabos, para fazer o seu retrato, e dizer se ele esteve ali. Estava ali para provar a existência de nosso espiritual, eu virara retratista de entidades espirituais. Falava diretamente com eles, e pedia pose. Os loucos não possuem medo, se este não é o seu algoz. E não era meu.
O João me dizia: “Ray você é um perigo, para você mesmo”, e dentro da cozinha de seu restaurante a experimenta pingas lhe dava detalhes das minhas peripécias noturnas, na caça a rainha da floresta. Em busca do espiritual das árvores, a materializar, meus medos e meus sonhos. Comecei a curar os meus irmãos de trabalho, cada um sincopado, eu ia e desobstruía seu ser, aprumava-o para o Juramidam, tornei-me o curandeiro, da tribo do daime, desautorizado, fui chamado atenção. Eu expliquei que sentia suas dores, em mim, e assim queria dar-lhes uma cura. Fui proibido. E o tempo passava, estava em meu quarto ano de daime, sem respeitar as regras de fardamento, fui chamado a me fardar, e quando me apresentei ao fardamento, ela estava incompleta eu tivera quatro ano para comprar e não fizera, cada dia deixava para outro dia até não mais poder. Dia seis de janeiro era meu dia de fardar.
Fui sem farda, ela não me parecia ser importante, o que importava era minha decisão de fardar-me, e minha estrela, meu filho deu-me, e o Hugo transformou minha estrela em obra de arte, transformaríamos ela em uma rosa dos ventos. Dei-a na mão do Fabiano, e comuniquei ao Léo meu fardamento, no dia dos reis, no fechamento dos trabalhos. Ele me olhou e disse: “Ray onde está a farda?”, mostrei-me roto, e amarrotado, era assim que eu me fardaria. Ele disse: “Ray, fardar é colocar a farda, e você não colocou-a”.
Entristecido, sentei do lado de fora da igreja, e lá perante o astral eu me considerei fardado, para mim, aquela era minha farda, cheia de barro, amarrotada e suja de tinta, pois um artista não é um ser de comportamento exemplar, ali sentado por sobre um bloco de cimento, olhei minha estrela, vi, e conversei com os meus três protetores, querendo ter razão, ao ser, um ser selvagem, e indomável, era o meu sinônimo, um rebelde bem comportado, era o que queriam, e eu não conseguia dar, eu não cedia, eles não cediam, e encalhamos.
Lá fora, olhava as entidades da floresta, e louco, chamei obras, chamei deuses, e todas as entidades da floresta, vi meu irmão a descansar finalmente em seu túmulo, lembrei de minha irmã a dizer-me dias atrás deste problema, vi-o em paz. Ali sentado próximo a fogueira, ao pé de uma cruz de caravaca, então entoei o hinário, que dizia “Seu sofrimento, é conseqüência de sua rebeldia” era um hino de cura onde eu devia pensar e mudar.
A minha rebeldia me levaria ali, assim como todos ali, mas eles conseguiram acalmar seus corações, a presença de Deus os satisfaziam, era suas procuras, mas não era o meu encontro. Nada me satisfazia, em minha ânsia de saber, tudo ficava pequeno a partir de sua compreensão e assimilação por mim, em minha frente, embaixo de um pé de aroeira que eu sentara em frente começa a vir uma sensação de vida, e a pouco duas luzes se ascendem em meio a relva, e lá estava uma pequena e curiosa cobrinha, a lamber daime, que horas antes ali, eu vomitara, olhei-a a noite, pensei em brincar com ela, mas eu estava louco, e neste estado não se faz malabarismos, deixei-a quieta em seu lugar, e voltei a sentar-me no bloco de cimento, que naquela noite elegi, meu trono.
A Nancy me falara “Mas Ray, você teve muito tempo para cuidar de sua farda, porque não falou com o Fabiano, ele lhe arranjava” , respondi-lhe, Nancy na verdade eu tive quatro anos, para isto, para pensar isto, e em cada trabalho mestres quatro anos, lembrei-me desta minha obrigação; mas eu não me entrego, fazem mais de vinte anos que estou casado, e até hoje não coloquei uma aliança no dedo, mas continuo casado, isto para mim, e meu compromisso. Minha palavra é meu compromisso, e não a minha farda.
Mas, as corporações precisam de regras, pois sem elas, é o caos. E um bando de loucos a cantar para Deus, precisa de mais ainda.
As leis são as correntes que nos mantém presos a um compromisso, quando dispersos caminhamos ao Léo, sem destino as regras são para manter nosso prumo, em frente da rainha do Império de Juramidam, eu não tinha direitos especiais, apenas por ser artista, não era algo concebível, ao rebanho. Mas ao longo do tempo eu dilatara meus limites ao ponto de eles estarem margeando as regras da casa. Esta indomável rebeldia que eu, o Gerson, o Hugo possuímos, era a razão de nosso viver, nossos ajustes eram apenas aparentes, no fundo um lobo das estepes uivavam em nós, éramos eixos excêntricos, demoramos um pouco mais para nos ajustar.
Noite adentro de mim mesmo, procurei meu espiritual, procurei meu ajustem-no universo, tentei como homeopata, procurar a memória das moléculas e de meus átomos, olhar em meu D.N.A onde Deus estava pousado, a me vigiar, e a dizer este é meu filho, a energia, me tornava em brilho, e como um ser iluminado, sentei de volta em minha cadeira para segurar a força. Sentia que se o Império de Juramidam me quisesse soldado de suas fileiras, teria que me largar na retaguarda, sem farda a correr atrás de borboletas e beija-flores, um destes soldados a construir teorias sobre guerras e paz.
Um atraso da máquina de guerras, um item ao qual nunca pode-se contar, um soldado a pensar, não é um soldado de confiança, o matar pensado, não é gerador de guerra, a matança pensada só consegue gerar ódios localizados, e a soma destes não perfazem uma guerra, e matar deuses não é um ato de guerra, mas sim de humanidade.
Convocava os deuses da floresta, com o testemunho, de minha guerra, de se saber humano matador de deuses, eu era meu próprio inimigo, em mim também habitava o anjo negro, o matador, ele era parte do que se chamou caráter ou a deformação desta minha dualidade, abria-se como em pétalas separava meu bom de meu mau, analisavam-se para concluir em sua persistência de existir, e ter consciência.
O mal era apenas um tempero no existir, pois não é um estado permanente de alma, podendo este tomar muitas formas, e assim justificar sua existência. O mal é apenas uma maneira de ser, um maneirismo como qualquer outro, e fizemos dele Deus.
Então viajei com o mal, ouve noite onde o cheiro do enxofre seu símbolo, era meu parceiro de volante, a seus conselhos quase joguei meu carro ribanceira abaixo por seus conselhos brequei o carro olhei para o Diabo ali presente em meu banco da frente. ”Esta é minha casa, em teu reino dei-te a liberdade da tentação, em meu lar, entro eu, não entra Deus, não entra o Diabo, quando saio, é lhes permitido a tentação, aqui eu sou o protetor, desce e boa viagem”. Entrei em casa fedido dos diabos, fui ao banho e horas gastei, até aquele odor de mim sair, e ao lado de minha esposa deitar, relaxar o esqueleto que em uma hora, eu tinha que trabalhar, no mundo de ilusão, ser Faraó. Dois carros deixei atolado no Flor das Águas, mas a guerra em Juramidam foi feita com primor, viera o padrinho Alfredo, e sua mão eu apertara, vira e sentira a força de nosso Papa. Neste dia cinqüenta carros e um trator ficara encalhado na montanha, eu e o Gerson carregamos um carro no peito, levamos o montanha acima, chegando em nosso posto de muda, remontamos os outros três, e os mandamos de encontro com suas realidades, vestidos com minhas roupas, cada um foi devolvido ao seu dono, o incidente na montanha foi por cada um explicado diferente, mas a alma ficara gravada o dia e a hora, fora criado um hiato em suas vidas. Estas noites eu as codificara como “as minhas noites de daime” criara um arquivo e ali gravara, para nunca mais ser esquecido.
Cinco enlameados chegaram ao posto de muda, precisavam: roupas novas, uma desculpa para a empresa, e uma explicação para a cabeça, para seu “eu” racional, explicar tamanha loucura. Seus futuros balançam em uma ameaça de não ser.
Meu filho me chama de “titio curador” o Ray que cura tudo, desde caída de bike, até sincope espiritual. O dono da varinha de condão o consertador de geléias, o apruma dor de loucos fluídos.
Muitas noites ao pé da fogueira pensei, o bem e o mal, como meu filho classificara, “os do mal, os do bem” noites muitas noites na fogueira, o bem e o mal eram apenas arquivos de uma memória criando vida. Estes o bem, e o mal, dependiam da extensão de memória a reproduzir seus atos e conseqüências. Para dizer quem, e em que tempo seriam moda. Afinal matar era apenas um modismo de nossa espécie. E o bem, ou o mal, um limite signo gráfico.
Olhei o céu, e em um ato insano tentei conter em mim, o universo, me vi brilhar, como pode brilhar uma estrela, em uma razão de força, e eu? Um fractal, a tentar coordenar os meus mais ínfimos órgãos, o meu estômago queria botar para fora, o excesso de daime, em meu organismo. Lutei contra, fora ele que ali, vim buscar, o veneno era parte de meu ser, ali posto, em busca de mim.
As estrelas, eu as tentei pegar, de tão próximas me pareciam, ali ao alcance de minha mão, tentei conter-las em mim, seu brilho, e seu ser, espelho de mim, eu “pó de estrelas” as continha em meu ser, o universo era apenas uma parte de mim, vaguei perdido em mim, na noite em busca de compreender meus mortos, cantei hino, ao Divino, ao Mucio, e ao Gabriel. Meus mortos a perguntar por quê?
A morte fora soberana, em um ano, de tanta força, triste é ser humano, o ente rejeitado dos deuses. Afoito joguei archote, em minha escuridão, meu eu fremia em tanta força, que me vi amassando terra, como pólo negativo, a descarregar tensões e energias estáticas, de um passivo chamado vida.
Incompreendido e calado, de tudo fui acusado, mas não havia do que me defender, pois não conhecia os limites, que norteiam a verdade da fantasia, se a tudo podes pagar, e eu, era um gerador de excedentes. Nosso guia espiritual rechaçara a idéia de dirigir cultos de chamanismo, me colocara em xeque, me dera a palavra, e eu calado fiquei, e disse ele, que quem não estivesse feliz que procurasse outra igreja, fiz que não era comigo, e eu não fora ali falar. Me proibiram de pintar, aí eu senti, e me perguntei o que faria ali, passei horas ali em frente o altar, a olhar a sua luz, sua sombra, e tentei captar o que poderia chamar de uma possível verdade.
E ali prorroguei mais uma vez meu fardamento, agora era no dia de São José, se tudo corresse conforme o Léo planejara. Por mim, eu continuava sem farda, mas o que é nossa vontade, perante a turba, se não assumes o papel de condutor desta?
E a todos que me perguntavam, eu dizia “tomo daime, para eu ser melhor artista, melhor pai, melhor marido”.
Sabia, sentia-me melhor, já concedia tempo aos adversários. Já parava e ouvia as pessoas, eu mudava minha maneira de ser, estava melhor, e mais compreensivo com o humano, de mim. Já isto servia de justificativa para tomar daime, e ali em meio a floresta, “dançar” com qualquer entidade que ali estivesse, ou chegasse.
Sentia-me, menos selvagem, estava se processando em mim, um ciclo civilizatório. Me sentia o “judeu errante” sendo compassivo com uma humanidade criança. O tempo era minha consciência, e a dilatação da consciência criava o espaço, e além de mim a vida se processava onisciente.
Não possuía as regras do destino, mas estava fardado ao seu desenvolver, via como cada elo, como uma coral ia desenrolando, em uma espiral sem fim, pois o fim, era apenas um eterno renascer, uma mutação infinita de genes que quando na forma humana, assim é uma consciência de tempo, e espaço, e o passo imediato e a caça de Deus. Selvagens gotas d’água saem a fazer estórias sobre o ser e o não ser. Um desajeitado macaco, a correr atrás do próprio rabo, é capaz de rir. Uma gota d’água capaz de amar.
Cheguei a compreender a vida, e sua luta pela existência, isto posto em mim criava outro ser, é não mais meu eu, animal, algo em mim amansava, e criava o tempo de tudo existir. O tempo do aquecimento de cada máquina isto sabido, a pergunta seguinte era “Para quê?”.
O vômito de daime atraía existências das quais eu podia pressentir, as vezes até as imagina em imagens, de seus contornos, e eu que ali fora, a pintá-las ou em esboços rápidos, dar vida, a um movimento de energia, é chamá-lo. Entidade de um provável Deus, viciado ou assustado com o cheiro forte do daime e da essência de meu ser ali vomitado, sentava horas em uma pedra e atento ficava de lápis na mão, as vezes a socorrer um irmão, a noite passava.
Os aromas inundaram minhas narinas, me inebriava, e em um lusco-fusco senti a força do limoeiro, que com ciúmes da aroeira, projetava aromas, eu ali plantado, senti chamado, ela carecia de carinho, levantei, e apalpei seu pé, úmido de orvalho e musgo, passou-me sua essência floral, o limão queria ser o limoeiro de seu tempo, no tempo dos inanimados.
Sorvi sua seiva! Minhas narinas dilataram em expansão harmônica, e em meu cérebro abriu-se glândulas para receber a força que chegava. Entrei na igreja e fui recebê-la.
Longa era a noite, chuvosa e fria meu carro estava encalhado em meio a uma pirambeira, teria ainda que carregá-lo no peito, morro acima montanhas por montanhas, eu e o Gerson, o soldado da rainha. Um mercenário a serviço da rainha com postura e classe, de um herói. Velho lobo arisco. Desconfiado e de todos era irmão. Meu empregado, dei-lhe o título de secretário, sua função era programar minhas noitadas, e trazer-me inteiro nem que para isto, tivéssemos que carregar nosso carro nas costas, e fazíamos isto em nossas madrugadas, incertas, eram nossas noites de daime.
Nossa loucura durou uns cinco meses, coloquei-o a morar em nossa galeria de arte, e como um “Quasimodo” louco transitou por tempo e por espaços criados por artistas, tão louco que teria de remove-lo, mas como?
Éramos irmãos na mesma confraria, a do daime amor, daime perdão, graças a Deus, daime nunca nos faltou. Éramos irmãos de estrela no coração, cuidava dele do como não cuidava do meu irmão, e noites a dentro corremos atrás de “Yaras”.
Libidinosos a cada onda de espaço-tempo, víamos nus, contornos despidos. Deitado no colo de uma princesa, a ouvir hinário do amor, fui carregado no Império de Juramidam, por hinos a mim compostos por rainhas, que a mim, me davam amor, é do tempo, fiz meu jeito de ser feliz, pois a mim, daime nunca me faltou.
Subdividi átomos, fiz autópsia em moléculas, para saber um caminho, qual era a estrada do meu ser, sendo eu um selvagem que vivia da metrópole. Um de seus parasitas, criadores de ilusões.
Nestes tempos loucos, aprendi a aprumar linhas de forças, eu as colocava em sintonia, harmonizava um organismo. E tive um susto, e chamei um conselho de Guerra em minha casa, e perguntei como era que se continuava? Quem sabe se a busca da vida tenha que ser no aleatório, a busca do ser, deva ser feita no vazio, se mais átomos somos, somos apenas um vazado, e se o espaço vazado formar uma forma de vida, e esta for nós!, a humanidade? Até hoje o homem estudou o sólido, o contorno do sólido e sua solidez, mas não os espaços vazados, e se estes forem o conteúdo do existir?
A ansiedade é o veículo do desespero, e é com ela que travamos nossa batalha de sentar em uma cadeira seis horas seguidas, em cima do saco, a pensar, em como ser melhor, como cada dia deve ser vivido. Queria correr, achar minha casa, e me esconder no útero de minha fêmea e de lá nunca mais sair, eu queria minha casa, meu filho, minha cama, mas a regra diz “sentado sem levantar”. Certas noites nunca acabaram, em minha mente, gravadas ao fogo da ansiedade.
Esta eterna companheira de um selvagem, como separar a ansiedade do medo? Qual deveria ser a hora de sair correndo, ou sentado com dignidade aspirar a música, e nela buscar conforto? E ao espírito inquieto, dizer da um tempo, pois ouve uma dilatação no espaço, e este tem que ser preenchido de vazios.
Minimalista, listei prioridades, numerei-as e as coloquei em ordem de serviços, de minha vida, como deveria ser, as minhas “fractais” , a divisão de mim , com registro iconográfico, cada molécula apresentando seu plano de movimento, daqui até o fim de si mesmas. Só aqui sentado, consigo ler tanto relatório, o tempo e o espaço foi dissolvido em brumas, e como tal, ele é apenas uma vibração, e mais nada.
Lá longe, bem longe existe algo de mim, solto em uma corrente de energia azulada, e na ansiedade do saber solto o resto de mim, na vertigem, somos uma só energia um uno indivisível, em um amontoado de moléculas apenas uma gota d’água.
Clamando por Deus, para devorá-lo como um coelho, e amanhã ansiar por este próprio Deus, para de novo devorá-lo, em nome de outro Deus. Somos nós humanos, e eu aqui sentado em um “lindo salão” a cantar hinário, e a chamar irmão, os outros da nossa tribo, de outra igreja de outro país, juntos a cantar hinário com a bunda pregada na cadeira, tentávamos ser-mos melhores. Outros de mim, os meus fractais, vomitavam sobre meus pés, muitas vezes, lhes injetei força, e os aprumei, para trabalharem.
Redirecionei-lhes o equilíbrio e a confiança, no ser vazio, ou apenas luz. Uma molécula, apenas um “fractal” de humano, queria luz. E dei-lhes luz, e iam trabalhar, pelo Império de Juramidam, batalhar em nome da rainha. Quando na corrente, sentia meu coração, a reagir a presença de estranhas forças, com as mãos, tirava esta de meu coração e levava esta força, até a cabeça, para ver a sua imagem, para descrever os seus contornos, e depois disto, colocava-a de novo na corrente pós desta era um elo. E o fiscal dizia-me “Ray, não faça gestos”.
O limiar da loucura, subi em seus muros, para olhar para dentro, deste abstrato “marginot” do movimento genético, uma aberração, ou um princípio de movimento? Nosso índio interior.
Recortei e retalhei, cada um dos meus polímeros, meus abstratos aparelhamento de aprisionar almas, e a perguntar; fiquei ali pendurado no muro que separava do não ser a medir volumes numerar movimentos, e sentir o vento solar, atravessar seu peito, e em um gesto solene tentei conter os astros em minhas mãos, fechei a lua por entre meus dedos e olhei Senhor, de mim, por compreendê-la, em um gesto perene, ali me vi Deus, o Senhor da criação. Senhor do tempo e do espaço, eu era apenas um vento solar a beijar planetas, a sujar estrelas, a colorir a imensidão, do nada. Apenas luz.
Apenas uma gota d’água ansiando luz, pois com ela viria o aquecimento, e com este o movimento de meus fractais.
Olhei a lua em minha mão, me pertencia o universo, pois eu sou este, pó de estrelas. Que não consegue usar numa farda, e carrega e estrela no bolso, e noite afora, eu um fauno, corro atrás da rainha da floresta, a cantar hinário, no reino de Juramidam.
Pensei que até os quarenta e cinco anos, eu atormentara os humanos e a partir daí, encho o saco dos espíritos, e saio a provocar meu destino espiritual, administrava minha eternidade, em um programa de computador, ali sentado em frente ao teclado, a digitar alfanuméricos, via em minha tela um Faraó, a descrever o seu destino, e a construir suas pirâmides, para adormecer suas vidas, todas as suas vidas passadas.
E a cantar um “cruzeirinho” e reconhecer as minhas culpas, fechou-se o trabalho, e mais uma vez, olhei a quase farda, e pedi mais tempo, faltavam dados em minhas equações, meus teoremas, não possuíam mais os movimentos de meus fractais algo se soltara em mim. E meu computador, acusava falta de memória, queria mais memória, a minha maquina.
LEITURA DOS MEUS VAZIOS
Afirmei várias vezes, para meus irmãos sou um espírito livre, não consigo viver em uma prisão, mesmo que feita de felicidades, pois a prova é, eis-me aqui, quando em minha vida não falta nada, nem deuses e nem diabos.
Que procuro eu aqui, se louco podia estar em minha casa, sem chuvas ou carros encalhados, na noite e no mato. Uma das rainhas de Juramidam já me disse: “Ray”! Você está enrolando”; e eu sabia estar, mas não saia dali, minha mulher dizia: “ Um viciado, em daime!”
Pensei: “Ray, você só tem um pé dentro, por isto falta não lhe faz a farda. Olhas para ver, não para crer. Consciência era meu salvo conduto no mundo espiritual, eu pensava, eu pintava, e vez por outra fazia uma cura.”
Peguei-me curandeiro. Olhei meus bolsos, carregava band-aid espiritual, era o tamanho de minha cura, um pequeno que muitas vezes se tornava importante.
E descobri que um band-aid não é suficiente, se não vier um amor, ou um carinho junto. Processei informações como um chip infectado por um vírus espiritual, um “Norton Utilites” minha função era organizar o que ameaçasse um fractal.
Via a vida, e a morte, todos os dias em que saía a buscar minhocas para alimentar meus peixes, que cresciam em um lago feito de pedras, com o meu gato a esperar crescer.
A cada semestre chamar o Sr. Antônio para carpir o quintal, o mato, a salada da vida crescia solta, e desgovernados como as vidas que ali habitavam, olhei meus esquilos a pedirem castanhas, e o gato olhava pelo rabo do olho namorava seu próximo jantar, o dia que eu aqui não estivesse para disciplinar, o que devia viver, ou morrer.
Pensei: “O sentido da vida é ser comida” comer para ser comida, mas enquanto assim distraído, procurava a perfeição do gesto, louco de daime, fragmentava cada onda de éter, e do nada formava o todo, e o todo é ser.
Meditei sentado seis horas, a magia do três, e o significante da trindade.
Meditei outras seis oras, se deus está em mim, e se eu estou em Deus, espanando vez ou outra, pequenos diabos a perturbarem, minha concentração.
Por outras seis horas, pedi a este ser abstrato, perdão por meus irmãos, mas não conseguia pedir por mim, orgulho , jamais levantei o rabo para beijar o chão de ninguém, e o nada? Este, não me pedia.
Por muito mais de vinte horas, pedi perdão a meus irmãos pela minha arrogância, sabendo ser eu! Apenas uma bolha de água, presa por moléculas em uma forma transitória.
E outras noites uivei como um lobo na floresta, em busca de alguém ou algo que me desse respostas.
Quando tomado de daime, via Deus em mim, como engenheiro, medi, pesei e calculei sua força, não procurava um Deus para crer, mas apenas para saber, e eles faziam o mesmo comigo.
Por muitas noites seguidas, senti-me observado por abstratos, mas eu estava sensível demais, louco demais, se estas forças pintei, e eu ,as pintei! Foram ficando embutidas nos alfarrábios coloridos, com que transformei minha vida. Uma vida de quadros filhos, quadros ódios, os quadros de nossas vidas!
Assim fui consumido meu tempo, e tempo tive ,para ver meus cabelos branquearem, e meu filho a correr pelo quintal, a detonar vidas, conquistadas em um vídeo-game qualquer. Pegava invencibilidade, e saia em um mundo virtual a fazer o bem, a matar o mal.
Tomado de ansiedades, com uma vontade louca de correr, coloquei música em minha vida, e sentado em meu teatro, fui o autor ,e ator de mim mesmo.
E sentado em minha galeria de arte sou chamado a rebocar almas que por seus vícios, no caminho da luz, se perderam, e tomados por demônios, querem voltar ao lar, mas perderam o prumo, e o caminho.
Sentado em meus degraus, queria culpar Deus, por minha falta de ouro, minha conta bancária era da conta de Deus, eu me descuidara.
A leitura de meus vazios, pensara que podia descansar, sentava em meu teatro, compondo minha saga, pela primeira vez, senti o peso que minha máquina, arrastava, e tem custo, tem que ser paga, de quanta energia eu precisava.. Granjeara muitos inimigos, e a cada um deles, chamei-os diabos, a impedirem-me de ter, meu cheque especial.
Até as máquinas da casa tiveram seu mês de pane, passei a ter medo de Diabos, isto um lado de mim, o outro lado dizia ser um bom homem, um temente a Deus, e eu analisava cada variante, enquanto resolvia problemas de incompatibilidade no Windows 95 do meu computador.
Virei xamã, em ritual de fechamento do ano pagão. Dos anos dos deuses de outras terras. Me acostumara mal, deixara de correr atrás do mundo de ilusão. Eu tinha vidas a prestar conta neste mundo, cheguei a pensar um ano espiritual, e chamado sou as minhas máquinas.
Eram minhas escapadas espirituais, as culpadas de meu saldo bancário? Me acostumara mal, os trancos da vida, quem me dava, era meu mundo de ilusão, ele acordava minha “Kundalini”.
E pensei... Por toda a vida, minha e de outros, seres, a constante é a luta, e o quanto lutas. As moléculas, o escolheram ou não para a reprodução. Até o virar minhoca, e aí elas também lutarão. Quando eu virar partícula, haverá luta, por energias, para brilhar, meus infinitos, os transformei em fractais.
Quem primeiro chegou em meu teatro foram as aranhas, sensíveis viram ali um campo de caça, dali viria sua comida, e aí se instalaram, olhava-as a tecer teias, e pacientes, nós, ficamos esperando a presença de nossas fontes revitalizadoras, das nossas baterias, ali viria nossas comidas curiosas a brilharem. O mundo em meu universo vivia de uma simbiose de energia.
Um dia no universo, uma energia que me continha, viveu outro instante de vida, que não era minha, e que vivera outra que não sei qual, mas o grande público quer uma regência e eu Faraó, escrevia este “karma” em cada alma extraviada, a pedir sua casa, para esconder debaixo de sua cama, com medo de si mesmo.
Reger destinos exige uma ousadia de um idiota. O caminho do não ser, o caminho do meio, o caminho de Buda. Podia eu abrir mão de meu arbítrio? Um Faraó rege por imposição do destino, este grande poço vazio.
Sentado em meu musaoleu, de concreto e ferro, mandei vir pedras para descrever o peso de minha alma, só rodeado de pedras, possuiria a mim, um ser nada, um átomo, regido por meus vazios, pois sendo eles maiores que a massa, possuíam maior poder na atração do destino. Eram os meus vazios, a determinante de meu “karma”.
O tempo e o espaço é que continham meu ser, por entre estes girava meu destino, satélite de meu estado de alma . Atraído pela união que fazia o movimento, e este gerava a energia necessária ao meu viver, um dia seria comida de minhocas, o sal da terra. Um montículo de átomos a enumerar estrelas, conquistadores de planetas.
E isto me fazia sentar, e olhar minha pirâmide, enterrar meus mortos e quem sabe um dia, estas ações valessem por um pingo de perdão, o dia que eu precisar, se isto não for apenas mais uma projeção, coisa típica desta espécie de organismos, assim pensando, me peguei comerciante a negociar com meus vazios.
Concluí que o abstrato era a extensão de meus vazios, e tentei preenchê-los com programas meus, encalhado em teoremas e uma só certeza, a de que a vida não dependia de minhas conclusões, fui avante.
Aos tropeções pois tanto medo eu possuía que abri um arquivo apenas para cuidar desta questão. Com medo subi em avião, com medo tomava daime, e além de perder-me em uma infinita linguagem digital, e em tal tornei meus cotidianos, para melhor gerenciá-los.
Minha “iluminação” deu-se em uma noite de daime, aonde me veio a luz, e compreendi a vida; ela queria vida, e só existia em seu reproduzir-se ela era apenas reproduzir-se até alimentar-se era para reproduzir. As minhocas que eu jogava em meu aquário eram vivas, e escolhidas, nas minhas alquimias eu usava vidas, a compreensão gera a inação.
Sentado em minha platéia, olhava o tempo, por meio de meus quadros, que espalhara por todos os degraus. Diziam sobre minha vida, sobre todo meu tempo, e meu existir. Eu fui contando em quadros cada emoção vivida, colori todos meus anseios, e dei contorno a minha agonia. Rabisquei dias e noites, por uma existência, em papéis e telas ficara minha marca, estava ali plantado meu pau-brasil, minha gabiroba, estava ali as formas que me acompanharam durante o meu tempo de ser, este perfaziam meu todo e o abstrato, era meus vazios, por uma vida tentei a “gestalt” dos vazios, a harmonia do não ser, foi uma das musas em que me peguei, correndo atrás.
Eu fui um bobo, concluí cada vez que tentava explicar, meu ser sendo arrastado por meus fractais.
Dava nome de amor, dava nome de Deus, dava nome de “súcubos e íncubos” toda vez que a rotina molecular não obedecia ao consciente e possuía movimentos próprios, mas dar nomes não é compreender deixei de sofrer as dores humanas, isto foi uma das coisas que aprendi pelo caminho.
Movido pelas necessidades humanas de reproduzir-se sentei dez anos nestas pedras, que em volta fiz minha pirâmide, meu musaoléo, conforme diz a Hiromi, agora tenho que sair, e de novo, um sonho fabricar. Minha obra ficara maior do que eu, urgia encher de gente, e lentamente começo a pensar, onde vou morar?
Da construção signo-gráfica ficou
meu filho aprendeu Matemática
aprendeu Geografia
aprendeu Ciências
aprendeu Religião
aprendeu com o Pai
aprendeu a ser rebelde
aprendeu a interpretar a lei
aprendeu ser mais que lei
aprendeu o ser rebelde
era maior
que ser
humano!
O elemento “índio”.
Reuni todos meus “foguos-fatuos” e amealhados lhes dei o signo dos meus mortos, e como um arquivo este bloco passei a carregar, na memória.
O tempo carregava meus arquivos e estes tornavam mais lentas mais pesados, e entropicamente se formava em meu saber, uma serpente, criava anéis, para demarcar arquivos. A minha “kundalini” ficara mais cansada, e pesada deixava de ser uma caçadora, e assim passara a ser caça em uma floresta simbiótica de átomos e moléculas, de polímeros, uma simbiose em meus “fractais”.
Sentado aqui em meu cimento frio, vejo correr o fim da quarta fase do meu projeto de vida, o Faraó termina sua pirâmide, e corre agora atrás de seu espiritual, pois para erguer o mausoléu, tivera que blasfemar muitas vezes o nome de Deus, em vão gritou, por nada, por apenas a perda de uma migalha de pão. Senão, como entrar na pirâmide, não foi ela construída na esperança de um dia ser lembrado? E não é esta a essência do espiritual?“Mais uma desculpa para ficar louco” disse a Hiromi.
Estamos agora nos anos oitenta ,a cidade tem por volta de mil expositores na feira,uns quarenta antiquários,uns ateliers no centro,e começa chegar galerias de arte,diversifica-se a oferta de quadros,e o declínio do império dos do Embu,chega na cidade os acadêmicos,vieram da feira da Republica,um outro publico começa a nos visitar,vindo dos condomínios chiques como Tamboré Alfaville,Granja Viana e outros lugares,pois a classe A e B, começa a fugir de São Paulo e procurar um lugar mais seguro para morar,nos começamos então a decorar estes condomínios.
Os estrangeiros continuavam a freqüentar nossa cidade,sendo eles responsáveis por,uma grande parte das vendas na cidade,conforme dizia o Josue,éramos a Aparecida do Norte das Artes ,ao lado do convento ficavam estacionados um dez caminhões para transporte do produto vendido nos fins de semana,éramos um sucesso mundial,nossa Guilda vendia arte para o mundo.
Começa então dois novos ciclos, O Padre Tição ou coisa que valha,começa as comunidades de base ali pelos lados do bairro Santo Eduardo ou Santa Emilia,sempre um santo,começa então as invasões de terras no município,financiado por entidades alemãs,cria ali na divisa de Embu com Santo Amaro,o que seria nosso ovo da serpente,o PT,para ali também começa nossa favelização,o Embu começa a receber os desfavelados de São Paulo,em troca de dinheiro estadual,nos tornamos o esgoto de são Paulo,todo pobre é aqui jogado,mas aqui não tem emprego,somos uma reserva florestal,e parte dos mananciais que abastecem a grande São Paulo, estávamos nos tornando uma cidade dormitório,aqui no centro,o Martins que possuía uma galeria aqui na Rua Joaquim Santana com varias lojas que ele nos alugava, no térreo ficava a cerâmica King, de um lado do outro ficava a Vera que vendia bordados feito a mão,eu alugava uma sala no mezanino para meu atelier, tinha ele uma oficina onde restaurava as antiguidades que chegavam em mau estado para os antiquários,em sua oficina trabalhavam alguns marceneiros paranaenses,que para trabalhar vieram para o Embu em busca de um melhor horizonte. e tendo dificuldades para conseguir madeira velha para restauros,ele começa correr fazendas do sul do pais,em busca de moveis velhos, carroças, carros de bois quebrados,e com estas quinquilharias que lhe vendiam,começa então a montar moveis rústicos, mesas com carros de bois,com rodas de carroças,com cangas de bois,tudo isto e motivo de criação da nova movelaria que começaria crescer na cidade.
Esta é uma cidade cíclica, primeiro os índios depois vieram os Jesuítas, depois eles criaram os Góticos mais tarde, os Dinossauros, com suas pinturas primitivas conquistaram o mundo,depois veio a feira,e com ela tivemos os acadêmicos,o ciclo do couro,a cidade se encheu de lojinhas que vendiam artigos de couro,eram cintos espelhos roupas,e uma verdadeira movelaria usando couro,neste tempo eu fazia murais com peles inteiras de bois,eram quadros grandes de casarios antigos, depois tivemos o ciclo dos acadêmicos,juntos com este, o dos antiquários,tivemos simultaneamente três ciclos acontecendo,um não eliminava o outro,o que acontecia é que o centro da cidade era pequeno,e isto encarecia o aluguel,portanto só quem estava na moda podia pagar,os alugueis exorbitantes aqui cobrados.
Todo dia ,parava conosco ali na Joaquim Santana,o Acae o Elisu e o Jorge,os três irmãos Caetanos,neste tempo a Menacy ainda não pintava,e sua mãe a Luzia, só começou a pintar depois da morte dos três,o Jozan estava chegando na cidade,viera de São José do Rio Preto,morara em são Paulo com o Eunibaldo Tinoco,que possuía uma escola de Arte em São Paulo,ele viu no Embu sua Meca,chegara acadêmico,ele e a Azteca pintavam o casario vendido no Embu,mas ele orgulhoso nunca assinou (Do Embu).Mais tarde estudou com o Castelane,e criou um estilo barroco expresionista sombrio,voltara a ser um Gótico,expunha suas entranhas,e gritava sua dor nos quadros,compunha ele uma sinfonia de dor e medo,uma espécie de expiação,era o melhor pintor acadêmico da cidade em seu tempo,de outro lado me chegava o Potigua,um escultor como poucos,vivia louco,a matar capivaras ou veados que rondavam pelas nossas matas,gostava de carne de caça, e caçava , em nossa cidade,ele as adorava assadas,comia nossa fauna,e esculpia em nossa flora,ele e o Gama, saiam pela reserva florestal,a caçar bichos e paus para compor sua obra,e alimentar sua prole,
Depois da morte do Jorge Caetano de do Acae por bebedeiras, um morto a pauladas, outro morreu como mendigo, ficaram reduzidos os Caetanos, ficou o Elizu, e este ensina a menacy a pintar,e a Luzia separa de seu marido,e para comer, também passa a pintar. Expunha ele o Elizu ao lado doTaquebayashi e também do Yugi pai,depois viria também o Yugi filho,este pintando uns quadros surrealistas,viera o Rossi,que foi o primeiro Marchand da feira,trouxe ele uma variedade de estilos pintados por não sei quem,ele era professor de filosofia em Guarulhos e descobrira a feira e para cá tambem veio,para o que seria a feira,eram todos muito bons pintores, com eles ficavam o Agenor, o Tostão e o Jaldo Jones,expondo na praça Eli perto do coreto,e em volta miríades de pintores vindo de todos os lugares de São Paulo, pois a feira tinha pouca gente da cidade,era um organismo que se montava no fim da semana,para receber turistas,fora da feira estávamos nós,os Ateliers e as Galerias,a Ana Moyses passara a pintar também,e o Sakay morrera sua casa foi transformada em museo,por seus familiares.
Pela primeira vez alguém que não é da oligarquia ganha as eleições na cidade,o Nivaldo Orlandi governa nosso município,Sem o apoio de centro da cidade,que votavam sempre no Quinzinho e no Bassit,voltou ele sua atenção a periferia da cidade, esta já possui duas vezes a população do centro,visto nossa cidade ser dividida ao meio pela BR116,assim temos a cidade do lado de cá e do lado de lá,Cria ele as associações de bairro,e através de repasses financeiro a estas associações,consegue seu apoio político,
Aos domingos era normal o grupo da Raquel vir para a praça com suas danças e cantos a nos maravilhar, os turistas era uma surpresa assistir estas danças exoticas em uma cidade de interior, tão próxima de São Paulo.
Sentado ali ao lado do casarão vermelho,eu e o Josué,se apresenta um negrinho magro e alto,olhar atrevido,e diz estar,vindo morar na cidade em busca de viver de arte,debaixo do braço,um monte de papeis que dizia ele ser suas obras,senta conosco,e diz estar procurando um lugar para morar na cidade,olhamos seus quadros,era uma massa acrílica raspada e por sobre ele desenhava flores e beija flores,outros havia negros em suas aldeias pintado com uma tinta gráfica,riscada sobre uma massa fresca,eram bonitos e tristes ao mesmo tempo,mandamos ele procurar o Eric na galeria Orixás,e ali ele arrumou dinheiro e casa,e pintou muito em nossa cidade,tornou-se popular,conquistou a Menacy,aquele mulatinha insoneira que dizia em nossos ouvido,nesta cidade so falta dois para mim comer,o Ray e o Josué!,ela sentava ali conosco depois de suas noitadas,e riamos desta afirmativa.
Juntara com o Mendel e foram morarem ali na Estrada da Ressaca em uma vila de pequenas casas do Salgado,e eu ia as vezes o visitar,comprar seus quadros que a esta altura já eram muito populares na cidade,Passara a beber,começa a freqüentar a Mais Embu,e ali o Aurindo produzia nosso veneno,cachaça com cabeças de pregos e pele de cobras deveria ser aquele4 venenos que bebíamos e seu bar,cachaça e Arrumadinho,era o cardápio noturno nosso,La no fim da noite quando o corpo pedia carne.
Em uma destas tardes,em que o evento seria no conjunto do convento,desci ao pátio interno por curiosidade,pois havia ali ,rastros do ouvera sido o convento,no chão ainda alicerces de tijolos e barro,eram salões e celas das freiras,refeitório,enfim ali estava os restos mortais do que fora um dia o conjunto jesuítico,sentei em um degrau que ligava aos desniveis do terreno,pois ele possuía forte desnível em direção ao rio,e ali sonhei um projeto de reconstrução, Dei nome e forma ao projeto como vivesse em uma guilda de verdade,pois era assim que via nossa cidade.
PROJETO
UMA GUILDA CHAMADA EMBU:
Idealização: Raymundo Emidio Rodrigues (Ray)
Promoção: Associação Mais-Embu
Sinopse histórica:
A origem de Embu é devida à doação que Fernão Dias Pais Leme e sua mulher fizeram aos Jesuítas, da fazenda de M’boy, com seus índios forros e livres “por escrúpulo de consciência pelo modo com que os detiveram e trataram”. Para o templo foi escolhida uma colina, em cuja base se juntam as águas dos ribeirões da Ressaca e M’boy. O padre Belchior de Pontes em suas andanças pela região deu-lhe preferência em certo período de sua vida, pela vantagem de sua localização. Surgiu então a igreja atual “com capacidade suficiente para que os índios e vizinhos pudessem comodamente observar os preceitos a que eram obrigados”. O convento foi construído depois, por volta de 1700, porque primeiro cuidou o padre Belchior de dar abrigo aos índios do que “fabricar casa para si e para os missionários seus sucessores”. Em seu redor se desenvolveu vila próspera por aqui ter florescido o trabalho dos santeiros em função das Bandeiras que regressavam a São Paulo provenientes do sul do país. Quem visita o Convento não pode deixar de admirar as figuras dos apóstolos, que são esculturas admiráveis de madeira, vestidas a rigor bíblico.
Embu se notabilizou, portanto, desde seus primórdios, por suas atividades artísticas. Em meados dos anos 60 chegaram aqui novas formas de manifestação artística. Destacam-se o artesanato, as artes plásticas, antigüidades e movelaria rústica. Todas essas manifestações obedecem a ciclos bastante bem caracterizados. Hoje contemplamos ao fechamento do que poderia ser chamado o “grande círculo”, ou seja, o retorno dos Jesuítas ao Convento que eles próprios fundaram.
AS GUILDAS:
A denominação “guilda”, proveniente do neerlandês “guilde”, significa “corporação” e foi usado para designar as associações de artesãos e artistas da Idade Média. Através delas a Igreja contribuiu significativamente para o desenvolvimento da arte, fornecendo artistas e artesãos e reis e nobres. As guildas funcionaram sob a proteção da Igreja, devidamente resguardadas das perseguições e medos existentes na época, particularmente nos países do sul da Europa. Nos países nórdicos, as guildas representavam células de artistas e artesãos com rígidas normas de funcionalidade e de hierarquia, sempre sob a proteção do pode nobiliárquico.
O PROJETO:
A Igreja de Nossa Senhora do Rosário e o conjunto arquitetônico do Convento, hoje praticamente em ruínas, constitui herança histórica de primordial importância. É tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional por representar um dos edifícios mais antigos da região da Grande São Paulo.
O conjunto está situado no centro da Cidade do Embu, com ampla praça frontal e lateral (fig.1). Hoje liberado ao tráfego, existe um consenso de que deva haver normas restritivas ao trânsito afim de preservar física e visualmente o conjunto.
A Igreja é raramente utilizada para fins religiosos pela Ordem dos Jesuítas. As missas são raras e muito esporadicamente se realizam programas de música erudita ou sacra. O Convento, em seu edifício central, abriga um Museu Sacro com acervo de grande importância que é conservado e explorado pela própria Ordem. Todas as demais dependências do Convento estão abandonadas.
Este projeto pretende o aproveitamento destas dependências abandonadas e parcialmente em ruínas. O Embu, possui o embrião de uma guilda, faltando apenas os recursos necessários para sua implantação, uma vez que seu funcionamento poderá ser auto-financiável.
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Fig.1 - Visão da Igreja, à esquerda, e o Convento no qual se localiza a
que dá acesso ao Museu. À direita do Convento observa-se um portão que
dá acesso às dependências não aproveitadas do Convento.
PLANO DE OCUPAÇÃO:
Entrando-se pelo portão existente ao lado do prédio do Convento, chega-se a um pátio gramado ladeado pelo próprio Convento à esquerda e tendo ao fundo uma edificação que contém uma sacada no primeiro andar (fig.2).
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Fig. 2 - Pátio gramado, ficando o Convento à esquerda. Ao fundo
observa-se uma edificação com sacada no primeiro andar, ao
lado da edificação, uma extensão do pátio.
O pátio, de aproximadamente 2000 m², é uma área propícia para realização de eventos musicais e de dança ao ar livre uma vez que ao lado da edificação ao fundo pode ser erigido um palco de dimensões adequadas para esses tipos de atividade. Ao lado do palco, fazendo a delimitação lateral direita do pátio existe um longo muro cego que pode ser aproveitado para manifestações de “grafitagem” (Mural de Grafiteiros), (fig. 3).
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Fig. 3 - Vista do pátio de uma das janelas do Convento. Ao fundo o
muro que faz a delimitação direita do pátio. Sua porção situada à
esquerda da pequena árvore que se vê ao fundo, será aproveitado
para “grafitagem”.
Para passar à parte seguinte das dependências do Convento, deve-se passar por um corredor coberto e fechado que se inicia ao lado do portão anteriormente descrito. Esse corredor será aproveitado para exposições. Ao fim do corredor inicia-se, para a esquerda, uma passagem estreita e descoberta (fig. 4). À esquerda dessa passagem existe uma série de edificações próprias para instalação de oficinas.
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Fig. 4 - Passagem descoberta, vendo-se à direita as celas descobertas.
À esquerda tem-se visão parcial das edificações que poderão
ser transformadas em oficinas. Ao fundo o muro onde podem ser
instaladas exposições temporárias de artistas itinerantes.
À direita da passagem existe uma área destelhada correspondente às celas e que é facilmente divisível em 8 ateliers. Ao fim da passagem depara-se com um muro que tem divisões de forma a delimitar 11 espaços que poderão ser utilizados para exposições temporárias de artistas itinerantes. Defronte a esse muro e em continuidade às celas anteriormente descritas existem ruínas de edificação que pode ser restaurada para instalação de mais de cinco ateliers (fig. 5). Do corredor que dá acesso à passagem dos ateliers, tem-se em frente uma área coberta que dá acesso a nova edificação à direita, que comporta mais duas oficinas ou salas de aula e, ao final, um restaurante ou lanchonete. Em frente a essa edificação há uma grande sala que deverá ser usada como sala de vídeo (fig.6).
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Fig. 5 - Visão do final do muro para exposições temporárias, vendo-se as
ruínas de edificação que comporta mais 5 ateliers. A porta à esquerda
dá acesso aos banheiros públicos.
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Fig. 6 - À direita a sala de vídeo. À esquerda as oficinas ou salas de aula e
ao fundo o grande salão de teatro e danças.
A área coberta que dá acesso às oficinas ou salas de aula e restaurante, poderá ser usada como sala de jogos de xadrez. Pela área coberta tem-se acesso ao enorme salão que se situa atrás das celas que serão transformadas em ateliers, e que poderá ser adaptada com muita facilidade em salão para teatro e dança. Contíguo a esse salão existem vestiários e, com acesso separado, grande número de sanitários (fig. 5).
Extensa área desocupada, com acesso pela Rua da Emancipação poderá ser usada como estacionamento. Alguns serviços de terraplanagem deverão ser executados, assim como a construção de guaritas para compor a entrada da área. Os 300 automóveis que poderão estacionar nessa área gerarão receita suficiente para suprir sua administração (fig. 7).
No pátio de estacionamento 2, há ainda uma edificação que poderá ser usada como Administração ou ter outra finalidade administrativa qualquer (fig. 8).
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Fig. 7 - Vista do final do pátio de estacionamento 2, vendo-se a entrada da
área dos estacionamentos onde deverão ser colocadas as guaritas.

Fig.8 - Vista do conjunto a partir do pátio do estacionamento 2. Da esquerda para a direita, observa-se a casa da Administração, a sala de vídeo, o muro de arrimo do pátio do estacionamento 3 e, ao fundo, a sala para teatro e dança.
O percurso que o visitante fará será inverso ao descrito. Após estacionar seu carro, percorrerá as exposições temporárias, os ateliers e as oficinas, a sala de jogos, as oficinas ou salas de aula e, finalmente, o restaurante ou lanchonete. De lá, retornará e, passando pelo corredor para exposições, chegará à saída donde ganhará o lago dos Jesuítas, ou seja, o centro do Embu.
MAPA:
DA OCUPAÇÃO DOS ATELIERS:
Os ateliers serão cedidos a títulos precário por período de seis (6)meses, sem direito a renovação por igual período sucessivo. Proceder-se-à a um sorteio entre os interessados que serão convocados por edital público na imprensa local. Não se cobrará aluguel pelo espaço mas o artista cederá uma obra por mês e dará quatro aulas mensais em cursos que a administração estiver promovendo ou em estabelecimento de ensino público ou privado que as solicitarem à administração.
A administração poderá dar o destino que achar conveniente à obra cedida pelo artista, ou seja, incorporá-la a seu patrimônio ou vendê-la para fins pecuniários com o objetivo de reverter em espécie para cobrir despesas administrativas.
DA OCUPAÇÃO DAS OFICINAS:
A oficina de cerâmica será ocupada por professores especializados e se regerá por regulamentação própria. O aluno pagará por seu próprio material, sendo que o do professor será fornecido pela administração. Em contrapartida os seus trabalhos serão convertidos para o patrimônio do projeto.
A oficina de dança poderá ser instalada obedecendo a regulamentação própria.
A oficina de escultura terá regulamentação semelhante à de cerâmica. O material, no entanto, deverá ser providenciado pelo aluno e pelo professor.
DAS LOJAS:
Espaço predeterminado do Convento será usado para exposição e vendas de peças de propriedade do projeto, podendo ainda ser levados a leilão em outros centros. O montante arrecadado será reinvestido em material. Poderá haver também área de venda de telas, tinta, barro, molduras, e outros materiais de uso corrente em artes plásticas e artesanato.
DA LEI SARNEY:
O objetivo dos trabalhos de obtenção de doações por parte de instituições interessadas será, em primeiro lugar, a restauração das edificações e sua adaptação para a execução do projeto. O saldo do investimento, uma vez concluídos os trabalhos de instalação, reverterão para trabalhos de divulgação. Dar-se-à especial atenção à elaboração de um catálogo semestral de todos os artistas ali instalados. Deverá também ser utilizado para montagens de peças de teatro e espetáculos de dança e divulgação desses eventos. Ademais os montantes disponíveis serão utilizados para a divulgação da Guilda como um todo, para a editoração do Jornal da Guilda, para pagamento dos professores que não estejam locados na Guilda e para instalação de uma Biblioteca voltada para as artes em geral.
Uma vez instalado o Projeto, sua administração terá como objetivo mantê-lo auto-financiável.
DA ADMINISTRAÇÃO :
A administração terá como incumbência manter as características do projeto e torná-lo auto-financiado. Ela deverá ser realizada por uma comissão de profissionais remunerados e nomeados pela Associação Mais Embu, pela Ordem dos jesuítas e pela Prefeitura Municipal, desde que esta tenha tomado parte nos trabalhos de implementação do Projeto. Toda a administração e implementação do Projeto. Toda a administração e implementação do Projeto deverá ser feita em consonância com legislação vigente e com os preceitos ditados pela regulamentação dos bens tombados pelo Patrimônio Histórico Nacional.
DA FÉ:
Considerando-se os aspectos religiosos ligados ao Convento e à Igreja, esta deverá ser sede de eventos religiosos regulares e periódicos com o objetivo de deixar patente a presença da fé junto à manifestação artística, caracterizando o próprio espírito da Guilda.
A coordenação desses eventos será naturalmente encabeçada pela ordem dos jesuítas e poderão corresponder a missas e concertos de música sacra, erudita não sacra. Todas as atividades deverão ser sempre acompanhadas da pompa e circunstância normalmente prevista e, apesar de seu aspecto religioso, não deverá deixar de ter como um de seus objetivos, o aspecto cultural e turístico.
Ai mataram o Acae,depois mataram o Jorge e ai morreu o Elizu,os três irmãos esvaziaram a vida de Takebayashi,eram eles mais o Elizu filho,que ficavam de representação na praça,eram referencias,dos pequenos grandes artistas da cidade,vivemos por este tempo uns dez anos de paz e crescimento.O PT faz uso de dois jornais,o Impacto e o Fato Expresso,dois jornaizinhos vendidos a esquerda,e barulhentos como seus patrocinadores,em um o Wanderlay Schiuf bradava furibundo contra a administração do Pucinni,e depois do Yasbek,no outro o Marcio Amendola se achava o grande Lenim tapuia,e bradava sonhos de dormir com cada pobre deste pais,catar no colo e darlhe mamadeira,realizou depois dando cestas básicas,















































